O Banco Central incluiu algumas análises temáticas ao publicar seu Relatório de Política Monetária (RPM) nesta quinta-feira, 25.set.2025. Entre elas, há um texto sobre o impacto das plataformas digitais no mercado de trabalho.

O BC avalia que, apesar do crescimento de 170% do número de motoristas e entregadores por aplicativo nos últimos 10 anos, esses novos postos "não foram criados em detrimento às demais ocupações", que é uma nova força de trabalho e que houve uma redução na taxa de desocupação.

A análise conclui que "o advento do trabalho por meio de plataformas digitais representa uma mudança estrutural no mercado de trabalho, que contribuiu para o maior ingresso de pessoas na força de trabalho e na ocupação, com efeitos positivos sobre os principais indicadores".

O texto considerou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), de 2015 a mar.2025, com relação a motoristas e entregadores por aplicativos, e fez estimativas sobre esses cargos ao comparar com as taxas e níveis de participação, ocupação e desocupação populacionais.

Entenda os termos

Segundo as notas técnicas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pela PNAD Contínua, as classificações para esses termos são:

- Pessoas ocupadas: aquelas que, na semana da pesquisa, estavam exercendo algum tipo de trabalho remunerado (independentemente se foi por meio de emprego formal ou não).
- Pessoas desocupadas: aquelas que, na semana da pesquisa, não estavam exercendo algum tipo de trabalho remunerado.
- Força de trabalho: pessoas ocupadas e desocupadas.
- Pessoas fora da força de trabalho: as pessoas que não estavam ocupadas nem desocupadas na semana da pesquisa.
- Taxa de participação: percentual de pessoas na força de trabalho na semana de referência em relação às pessoas em idade de trabalhar.
- Taxa de ocupação: percentual de pessoas ocupadas, na semana de referência, em relação às pessoas na força de trabalho
- Taxa de desocupação: percentual de pessoas desocupadas, na semana de referência, em relação às pessoas na força de trabalho.
- Nível de ocupação: percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar.
- Nível de desocupação: percentual de pessoas desocupadas na semana de referência em relação às pessoas em idade de trabalhar.

A pedido do Núcleo, o pesquisador do Instituto de Internet de Oxford, Jonas Valente, analisou a publicação do Banco Central. Para ele, o estudo é "bastante limitado" por desconsiderar outras categorias profissionais que atuam em plataformas digitais que não são tão visíveis quanto os motoristas e entregadores.

A gente teve um crescimento [dos trabalhos por app] na pandemia quando, em vários casos, as pessoas recorreram a isso porque perderam seus empregos. Por outro lado, no pós-pandemia, muitas pessoas voltaram a buscar seus empregos nos seus segmentos anteriores. Então, acho que a gente não pode olhar para esse crescimento de uma forma uniforme e tem que compreender a dinâmica do mercado de trabalho brasileiro", critica.

Ele também ressalta complexidade e a precarização dessas atividades, já que o estudo desconsidera a questão da informalidade. Em jul.2025, essa taxa foi de 37,8%, segundo a PNAD Contínua.

"Essa conclusão [a do BC] é muito precipitada, considerando que existem movimentos muito variados de troca entre a formalidade e a informalidade e de entrada no trabalho em plataforma. No caso de motoristas e entregadores, há casos em que o trabalho por aplicativo não é a atividade principal. Há pesquisas que indicam que, para uma parcela dos trabalhadores, o trabalho por plataformas também não é exclusivo, mas uma atividade complementar", explica.

Ele e pesquisadores de universidades federais participaram do Projeto Fairwork, lançado nesta semana, que avalia se plataformas digitais garantem trabalho decente. Das 10 empresas avaliadas, oito zeraram a pontuação (99, Americanas-Ame Flash, iFood, Lalamove, Loggi, Parafuzo, Rappi, Uber) e apenas duas (InDrive e Superprof) chegaram a um ponto cada por garantir pelo menos um salário mínimo para os trabalhadores.

"O discurso do BC reforça o discurso das plataformas: elas dizem que o trabalhador vai ter mais flexibilidade, mais autonomia, mas quando a gente vê, não só no Brasil como em outros países, as plataformas colocam para a sociedade que elas estão fazendo um favor ao oferecer postos, uma possibilidade de receitas e que, apesar disso ser precário, isso é melhor que nada", afirma.

Reportagem Jeniffer Mendonça
Arte Aleksandra Ramos
Edição Alexandre Orrico