Polarização nas redes se dá mais pelo choque com o diferente, propõe estudo

Estudo da Universidade de Amsterdam sugere que as bolhas não existem e dá explicação alternativa para a polarização

Nos últimos anos, têm se criado consenso sobre a contribuição das redes sociais para a polarização política, mas há pouca concordância sobre o porquê disso acontecer.

Um estudo da Universidade de Amsterdam sugere que a resposta não é a mais conhecida, de que a polarização deriva das bolhas ou "câmaras de eco".

  • O que é polarização ? Na visão do autor do estudo, o geógrafo digital Petter Törnberg, cientistas políticos têm identificado que a polarização se caracteriza menos por discordância política e mais por uma sensação emocional de diferença e desgosto.
  • O estudo foi publicado no renomado periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), mas o acesso está fechado. A Universidade de Amsterdam publicou um artigo sobre o estudo em seu site, e Törnberg publicou um fio no Twitter, onde também disponibilizou acesso ao pre-print do artigo (a versão que foi submetida a publicação, antes de revisões).

O conceito: Segundo a ideia das bolhas ou câmaras de eco, as redes sociais "nos permitem auto-isolarmos em aglomerados com pessoas que pensam como nós e evitam o desconforto de nos depararmos com visões diferentes", disse o autor do estudo em artigo publicado pela universidade.

Sem a interação com outras visões, que funcionariam como "moderadores" da nossa posição política, as câmaras de eco levariam à radicalização e, consequentemente, polarização.

Um dos pontos que desafia essa ideia, segundo Törnberg, é que as câmaras de eco não existem. Pelo contrário, pesquisas mostram que as redes sociais se caracterizam justamente pela maior interação com pessoas de visões políticas opostas – até mais do que na vida offline.

Local vs. sem fronteiras: Um dos pontos de partida do estudo é um modelo que mostra que, quando indivíduos interagem localmente, um resultado é a criação de identidades locais.

Ou seja, mais forte do que a afiliação política é a ligação local. Como exemplo, um republicano do Mississippi teria mais em comum com um democrata do Mississippi do que com um republicano do Texas.

No ambiente online, essa ligação ao local desaparece porque as redes permitem que pessoas distantes geograficamente interajam sem obstáculos.

Com isso, explica Törnberg, a identidade local fica em segundo plano e prevalece a identidade partidária. O resultado é que subgrupos (republicanos do Mississippi, republicanos do Texas) tendem a se fundir em dois grandes grupos: republicanos e democratas.

"Isso vira um redemoinho em que mais e mais identidades, crenças e preferências culturais são sugadas em uma divisão social abrangente que segue linhas partidárias", explicou o pesquisador.

É essa divisão social com lados bastante delimitados e ancorados em suas identidades partidárias que gera a polarização, conclui Törnberg.

"Ao nos empurrar a interagir com pessoas do outro lado, as redes sociais geram conflito – e o alinhamento de identidades ao longo de linhas partidárias. As redes sociais produzem tribos políticas, o que intensifica a polarização afetiva", escreveu o pesquisador.

Texto Laís Martins
Edição Samira Menezes

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