O Facebook não morreu


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· Publicado em 15/10/2020 10:06



Rede pode parecer esvaziada, mas análise do Núcleo mostra que ela segue em crescimento e grupos fervilham com bilhões de interações


Por Alexandre Orrico
Arte Rodolfo Almeida
Edição Sérgio Spagnuolo




Não é porque você e seus amigos não usam o Facebook que ele está morto e enterrado.

Certo, a maior rede social do planeta, com 2,7 bilhões de contas ativas por mês, pode ter mutilado o alcance orgânico das postagens para faturar com impulsionamento pago –- o que causou uma revoada de marcas e empresas de mídia

A queda do alcance das páginas foi citada pela Folha como um dos motivos que levaram o jornal a abandonar o perfil na rede social, com quase seis milhões de seguidores, em 2018.

. Mas o fato é que o site criado por Mark Zuckerberg nunca foi tão utilizado, inclusive no Brasil.

Por aqui, mais de 130 milhões de brasileiros acessam o Facebook todo mês, quantidade quase 10 vezes maior do que a de frequentadores mensais do Twitter, por exemplo. O número cresce ano após ano e a previsão do Statista é que ele chegue perto de 160 milhões em 2025.

Por mais que parte da mídia especializada tente decretar a morte do Facebook ano após ano

Lá em 2013 um texto do Business Insider já discutia óbito e renascimento do Facebook e citava um estudo que dizia que a migração de adolescentes para outras plataformas seria mortal para a rede.

, a rede mantém uma taxa média anual de crescimento de usuários de 12%.

O lucro cresceu 11% na primeira metade de 2020 em comparação com o mesmo período de 2019, mesmo com o impacto da pandemia de COVID-19 e boicotes de marcas megazórdicas como Adidas, Coca-Cola, Ford e Unilever, que fazem parte de um movimento que exige um pulso mais firme do Facebook contra a disseminação de notícias falsas e discurso de ódio.


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A rede social sofre, visivelmente, uma desidratação em faixas específicas de idade

Apenas 51% dos jovens norte-americanos com idades entre 13 de 17 anos estão no Facebook, segundo pesquisa da Pew Research Center, feita em 2019. Há 8 anos este percentual era de 90%. O fenômeno ocorre em vários países do mundo, ainda que insuficiente para decrescer a taxa de usuários da plataforma.

No Brasil, na pesquisa TIC Kids Online, do Cetic.br, divulgada em 2019, o WhatsaApp já ultrapassou o Facebook como rede social preferida entre os jovens de 9 a 17 anos. O Instagram, no terceiro lugar, mostra forte tendência de crescimento.

, como a da geração Z (pessoas nascidas, em média, entre a segunda metade dos anos 1990 até o início do ano 2010), que preferia o Snapchat nos últimos anos e, mais recentemente, o TikTok.

O Facebook sabe disso, e tenta manter a faixa mais jovem de usuários dentro do ecossistema da companhia mesmo que fora do seu aplicativo principal. Por ecossistema, claro, falamos do Instagram (que clonou funcionalidades tanto do Snapchat

Evan Spiegel, fundador do Snapchat, recusou uma proposta de compra diretamente de Mark Zuckerberg de US$ 3 bilhões. “Poucas pessoas no mundo têm a chance de construir um negócio como este. Trocar isso por algum ganho de curto prazo não é muito interessante”, justificou à Forbes. Para referência, o Instagram foi comprado por US$ 1 bilhão e o WhatsaApp por US$ 19 bilhões.

, os Stories, quanto do TikTok, os Reels) e do WhatsaApp.

Mas como é possível o Facebook estar mais cheio do que nunca se, quando você entra lá, ele muitas vezes parece um deserto?

Uma palavra é essencial para entendermos esse crescimento que vai contra a percepção pessoal de muitas pessoas ativas em outras redes sociais: grupos.

Segundo o próprio Facebook, há mais de 10 milhões de grupos ativos na plataforma, utilizados por 1,4 bilhão de pessoas todos os meses. Na última F8, conferência anual da companhia que aconteceu no ano passado, Zuckerberg deixou claro: os grupos são o novo coração do Facebook.

“Os grupos fazem com que as conversas fiquem restritas a determinados ambientes e passam a sensação de que muita gente não usa mais a plataforma, quando na verdade as pessoas estão cada vez mais próximas de outros usuários com interesses parecidos”, diz Amanda Jurno, doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora de plataformas digitais.

Ou seja: as conversas ainda estão lá, mas talvez você não enxergue porque elas acontecem agora dentro de bolhas e fora do escrutínio público, parecido com o que acontece no WhatsaApp.

A plataforma realmente foi redesenhada, do código ao visual, para fazer com que seja mais fácil sair dos espaços públicos de conversas e ir para canais mais privados.

Essa mudança de rumo começou lá em 2016, quando a empresa sofria uma tempestade de críticas

Desinformação espalhada pelo Facebook foi motivo de registros de mortes e instabilidade social em diversos países, como Índia, Bangladesh, Camarões e Sri Lanka. Em Myamnar, o Facebook foi usado como ferramenta para limpeza étnica, segundo a ONU. O próprio Facebook concordou com as acusações e assumiu que foi lento em tomar atitudes para evitar genocídio de minoria mulçumana no país.

por não tomar atitudes suficientes para frear a difusão de fake news na plataforma.

Como parte da resposta às críticas, Zuckerberg lançou em 2017 um grande manifesto sobre como o Facebook passaria a focar na construção de comunidades seguras. Três anos depois, em janeiro de 2020, o Facebook pagou algo em torno de US$ 10 milhões em um anúncio justamente sobre a função de grupos no intervalo do Superbowl – um cobiçado espaço publicitário na TV norte-americana.

OS GRUPOS

Para se ter uma ideia melhor da atividade que acontece dentro dos grupos aqui no Brasil, pense que há comunidades como a Aliança pelo Brasil - Presidente Jair Bolsonaro, com mais de 100 mil membros e quase 3 mil publicações por dia (posts + comentários). Ou como a Somos 75 Por Cento Contra Bolsonaro, que reúne 18 mil pessoas e tem o impressionante número de 5,7 mil publicações diárias ou mais de 170 mil por mês.

Apenas grupos com o termo “Bolsonaro” ultrapassam a casa da centena, muitos contendo dezenas de milhares de usuários.

E o volume que esse recurso representa é gigantesco, especialmente para o presidente. O termo “Bolsonaro” foi citado em 5,13 milhões de posts em grupos públicos em português entre 1º de janeiro de 2018 e 12 de outubro deste ano, totalizando 418,2 milhões de interações.

Apenas como comparação, o termo “Haddad” (de Fernando Haddad, que concorreu à presidência em 2018 contra Bolsonaro) foi citado em 399.755 publicações de grupos públicos em português no mesmo período, resultando em 22.796.429 interações.

Nesse caso, a maioria dos posts com mais engajamento foram desfavoráveis ao petista. No Instagram, Haddad teve 29.378 posts e 95,595,440 interações.

“Doria” tem somente 168.800 posts no período, com 16.467.065 interações, menos do que “Sergio Moro” – 244.483 posts com 29.457.413 interações.

Se levarmos em conta, além de grupos, também as fan pages e perfis verificados, foram 8 milhões de posts e 3,2 bilhões de interações (likes, comentários e compartilhamentos) em menos de dois anos. No Instagram, comparativamente, foram 493 mil posts públicos com o termo “Bolsonaro”, que geraram 1,48 bilhão de interações.

Você leu certo: o termo “Bolsonaro” gerou mais de 3 bilhões de interações em menos de dois anos no Facebook.

Esse volume é menor do que interações com posts contendo os termos “Trump” ou “coronavirus”, por exemplo, mas fica acima de “Obama” e “Biden” – o que, grosso modo, indica uma certa predisposição para conversas sobre a direta política entre usuários do Facebook.

E O TWITTER?

Uma comparação interessante a ser feita é com o Twitter. Embora seja consideravelmente menor (com apenas 15,7 milhões de usuários), o Twitter muitas vezes dita o tom dos debates políticos no Brasil e em outros lugares, como se fosse um termômetro.

A rede social é recorrentemente um meio utilizado por políticos e autoridades para se comunicar diretamente com suas bases, o que a tornou uma ferramenta de tomada de decisões, além de pautar a imprensa e boa parte do debate. Muitas das conversas e tendências que começam por lá transbordam para outras redes sociais.

Mas o Twitter perde, e muito, em volume para o Facebook, considerando dados absolutos (em vez de proporcionais ao número de usuários). Como exemplo, veja o gráfico abaixo sobre interações em publicações dos perfis de Bolsonaro em ambas as redes.

Claro, o Twitter provavelmente possui mais interação por usuário, mas é justamente o número absoluto que deixa o Facebook ainda bem vivo.

ÓDIO QUE ENGAJA

Para entender o comportamento polarizado e a extensão dos riscos das conversas dentro destes grupos, precisamos voltar para 2009, o ano de surgimento do algoritmo do Facebook, quando o conteúdo na rede passou aos poucos a ser recomendado de acordo com o comportamento do usuário (não apenas qual post curte, mas também quanto tempo olha para uma foto, por exemplo) em vez de aparecer em ordem cronológica.

  •    Entra no ar o Facebook
  •    O botão "Curtir" é inventado
  •    Nasce o algoritmo do Facebook
  •    Algoritmo é afinado para mostrar postagens de acordo com preferências e comportamento dos usuários
  •    Interações e conversas passam a ter mais peso na distribuição orgânica do conteúdo

Em 2016, o mecanismo sofreu ajustes para tirar a força das curtidas e reduzir conteúdo caça-likes, e em 2018 passou a priorizar comentários e conversas, para recompensar posts que criam “relações entre os usuários”, como disse comunicado oficial da rede.

Mas o resultado foi outro: o conteúdo que gerava volume muitas vezes era baseado em desinformação ou estimulava brigas. A mudança catapultou o canal de TV paga norte-americano Fox News (que investiu pesado em material radical) para o topo das marcas que possuíam fãs mais participativos.

Com o tempo, as marcas e usuários aprenderam a interagir de forma polarizada para engajar.

A herança que todos nós conhecemos bem foi espalhada para outras redes e, claro, está presente nos grupos, só que agora longe do escrutínio público, parecido com o que acontece no WhatsaApp.

A semelhança entre não é por acaso: Zuckerberg já disse que em breve integrará Messenger, Instagram e WhatsaApp em uma única plataforma da família Facebook e que “o futuro das comunicações vai cada vez mais ir em direção aos serviços privados e criptografados, onde as pessoas podem ficar confiantes que o que falarem entre si está seguro”, como escreveu neste texto em 2019.

Em grupos de como o Coronavírus Brasil Covid-19 (89 mil membros) ou no EU JÁ TIVE COVID-19 (9 mil membros), o estilo emotivo e radical, com forte viés de confirmação, é usado com frequência para impulsionar teorias conspiracionistas, receitas caseiras contra a doença, defesa de cloroquina (sim, ainda) e outros remédios sem eficácia comprovada, sem falar na divulgação sem controle de informações pessoais como fotografias de raio-x, laudos e receitas médicas..

NO HORIZONTE

Para o futuro, Zuckerberg planeja conectar pessoas via óculos de realidade virtual. Pense que, em vez de restrita à telas, as redes poderão ser aplicadas em camadas por cima do que você enxerga, com pessoas interagindo por meio de avatares realísticos.

“RA e RV serão as plataformas mais sociais de todas, nós estamos apenas arranhando a superfície”, disse ele em uma live de setembro. Soa como um plano distante, mas o Facebook planeja lançar, já no ano que vem, smartglasses em parceria com a Ray-Ban.

COMO FIZEMOS ISSO

O Núcleo acompanhou de perto muitos grupos de Facebook durante os últimos dois meses. Os dados foram recolhidos com a assessoria do Facebook, do perfil do próprio Zuckerberg na rede e em materiais das conferências F8 Facebook Connect.

A análise dos números de interação e engajamento nos grupos foi feita com o CrowdTangle, ferramenta do Facebook que disponibiliza dados sobre interações na sua plataforma. Também foi utilizada a API do Twitter para comparar as interações. A metodologia de análise é a mesma utilizada no Monitor Nuclear.

Os dados agregados e analisados estão neste link. O código da análise pode ser encontrado aqui.

Por fim, também utilizamos dados da plataforma Statista, cujos links estão no texto e os dados tabulados pelo Núcleo podem ser consultados aqui.

Também fizemos uma enquete no Twitter. 👇

Texto atualizado às 10h34 de 16 de outubro para esclarecer no 5o parágrafo sob o intertítulo “OS GRUPOS” que não temos análise de que usuários do Facebook são de direita, mas sim que a conversa gira em torno de termos atribuídos à direita.


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