Banimento do Terça Livre tem pouco peso para a máquina bolsonarista no YouTube

Presidente continua com apoio de youtubers, mas sem precisar se comprometer com quem enfrenta problemas na Justiça.

À primeira vista, o banimento do Terça Livre do YouTube, ocorrido em 4 de fevereiro, pode parecer um golpe pesado contra a máquina de comunicação do presidente Jair Bolsonaro.

Afinal, a partir do momento em que o maior site de vídeos do mundo tirou do ar dois canais do Terça Livre (além do principal, caiu um outro de backup), o presidente perdeu um dos seus apoiadores mais aguerridos e histriônicos, em uma das suas principais plataformas de comunicação.

Para o bolsonarismo, o YouTube funciona como um repositório onde canais favoráveis ao governo publicam vídeos que serão compartilhados em outras plataformas, como grupos do WhatsApp, Telegram e Facebook.

[Nota do Editor]: Em 12 de fevereiro o TJ-SP concedeu liminar ordenando que o Google reativasse os canais do Terça Livre no YouTube. É uma novela ainda se desenrolando.

Ao se analisar os dados sobre a evolução de seguidores do Terça Livre contextualizados com seu histórico recente, porém, fica claro que Bolsonaro sai do episódio ainda fortalecido no YouTube graças a uma estratégia, adotada no começo de 2020, de “criar” youtubers bolsonaristas 100% alinhados e não depender mais daqueles já consolidados que possam romper com o bolsonarismo caso discordem de alguma ação.


É importante porque...
  • Comunicadores ligados ao presidente Jair Bolsonaro causam muito impacto nas redes sociais
  • Base de apoio do presidente está diretamente ligada a canais de influenciadores de direita no YouTube

Em volume, o Terça Livre não era o canal de com o maior número de views ou assinantes, segundo o monitoramento que a Novelo Data faz com 174 canais de extrema-direita mais atuantes no YouTube Brasil. Ao ser banido, o canal oficial do Terça Livre tinha uma base de 1,18 milhão de seguidores, o que o colocava na 21º posição do ranking da Novelo, atrás de canais alinhados ao bolsonarismo não tão conhecidos, como Bolsonaro TV (1,37 milhão - não confundir com o canal oficial do presidente) e Verdade Política (1,22 milhão).

O canal, porém, era um dos que mais produziam: se não considerarmos veículos tradicionais (como a Jovem Pan News) e órgãos do governo (TV BrasilGov), o Terça Livre ficava só atrás do Folha Política e do Brasil Notícias em total de vídeos. Desde sua estreia, em novembro de 2014, foram 4.605 vídeos publicados.

Onde perdia em volume o Terça Livre se destacava pela ferocidade como defendia as bandeiras levantadas por Bolsonaro, mesmo as mais divisivas. Após ter sua conta no Twitter suspensa algumas vezes em 2020, no fim de janeiro deste ano a rede social baniu de vez seu perfil com centenas de milhares de seguidores, sob alegações de que espalhava discurso de ódio.

O canal se aproximou do bolsonarismo com menos de seis meses no ar, Era uma época em que poucos canais no YouTube (e boa parte da imprensa também) levavam o deputado federal Jair Bolsonaro a sério.

Em 25 de maio de 2015, publicou uma entrevista com Flávio Bolsonaro, então deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Dezenas dos canais mais relevantes da extrema-direita no YouTube hoje nem existiam.

Além do Terça Livre, Magno Malta publicou vídeo em que enaltecia a família com Bolsonaro em 2014 e Rodrigo Constantino defendeu Bolsonaro (a quem chama repetidas vezes de "Bolsanaro") após a entrevista dada ao programa Custe o que Custar (CQC), da Rede Bandeirantes, em que foi acusado de racismo, em 2011.

RELAÇÃO COM BOLSONARO

A partir da entrevista com Flávio Bolsonaro, o Terça Livre se posicionou como defensor de Jair Bolsonaro, quando suas pretensões presidenciais ainda não eram levadas a sério. Em novembro de 2015, acusou o CQC de editar uma entrevista para "desmoralizar Bolsonaro". No ano seguinte, atacou Kim Kataguiri por críticas ao político e cobriu eventos do então deputado federal em Porto Alegre e Jundiaí.

Quando Bolsonaro assumiu a presidência, o Terça Livre já estava consolidado como um dos principais canais bolsonaristas do YouTube, com acesso direto ao presidente e aos seus filhos, que davam entrevistas a boletins informativos.

A relação também parece ter alguns trazido ganhos financeiros ao canal, segundo informações publicadas pela imprensa: o Terça Livre recebeu anúncios digitais do governo enquanto Allan dos Santos teve custos de viagem pagos pela Fundação Indigo, ligada ao Partido Social Liberal (PSL), com Fundo Partidário. A empresa de um alegado "sócio oculto" do Terça Livre, Bruno Ricardo Costa Ayres, foi contratada sem licitação pelo governo em fevereiro de 2021.

Na ascensão de centenas de produtores de conteúdo conservador surfando a onda política de 2018, o Terça Livre e, consequentemente, Allan dos Santos ganharam projeção não apenas pela proximidade com a família Bolsonaro, mas também por posicionamentos virulentos e que, de tão retrógrados, beiravam o delírio.

Um dos primeiros vídeos do Terça Livre a viralizar fora da bolha bolsonarista tinha Allan condenando a masturbação por matar neurônios.

É por isso que resumir o canal apenas à base de assinantes é ignorar onde estava sua principal força: a defesa intransigente das ações do presidente, mesmo as mais tresloucadas, transformaram-no em presença frequente na mídia e nas redes sociais. Allan tinha deixado de ser observador para virar personagem, o que ajudou na projeção do canal.

Ali, no começo do governo Bolsonaro, não parecia haver preocupações para o Terça Livre. O que Allan dos Santos não sabia é que dois eventos independentes que só iriam atingi-lo em 2020 já estavam em curso.

O primeiro movimento envolve a Justiça. Em março de 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu um inquérito para investigar a publicação de notícias falsas contra a corte. É o chamado inquérito de fake news do STF, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes.

Um ano depois, em maio de 2020, a Polícia Federal (PF) cumpriu os primeiros mandados de busca e apreensão relacionados ao inquérito. Entre os alvos está Allan dos Santos, junto com o empresário Luciano Hang, a militante Sara Winter, o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP), o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, e o empresário Edgard Corona.

JUSTIÇA NO ENCALÇO

Com a Justiça em seu encalço, o Terça Livre promoveu uma limpeza dos vídeos no seu canal: foram 272 vídeos escondidos em junho, principalmente os que atacavam o STF.

Não foi a única limpeza motivada pela PF: o canal O Giro de Notícias, também alvo da operação, escondeu 148 vídeos da sua base, a maioria atacando o STF.

A proximidade da Justiça impacta diretamente a capacidade desses canais de continuarem a crescer suas bases. Após a operação, o Terça Livre passa por uma rápida expansão de novos assinantes, para depois empacar a partir de julho. O mesmo acontece com O Giro de Notícias e outro canal na mira da Justiça, O Jacaré de Tanga, alvo da CPMI das fake news instalada no Congresso Nacional em setembro de 2019.

Aparentemente, ter a Justiça em seu encalço não é um bom modelo de negócios para canais do YouTube. Até hoje o Terça Livre e O Giro de Notícias estão escondendo vídeos (em fevereiro de 2021, este último, inclusive, escondeu 1.398 vídeos - restaram cerca de 400 no canal).

Ainda que estivesse 100% alinhado com o bolsonarismo, o Terça Livre não experimentou o aumento de audiência que canais não investigados, como Os Pingos nos Is, Folha Política, Foco do Brasil ou Gabriel Monteiro (este último um Policial Militar carioca no centro do segundo movimento).

O segundo movimento, iniciado em 2019, que atingiria o Terça Livre, é responsabilidade direta de Jair Bolsonaro. Quando estava se preparando para concorrer à presidência, Bolsonaro se aproximou de outros youtubers conservadores além do Terça Livre. Um deles foi Nando Moura, um sujeito que fez sucesso criticando políticos, youtubers e comunicadores com quem não concorda, principalmente da esquerda política. Até ali, Moura era o youtuber conservador de maior audiência no Brasil. Durante a campanha, Bolsonaro lhe deu uma entrevista em que trocaram afagos.

No fim de 2019, Bolsonaro sancionou o pacote anticrime com uma emenda sobre o juiz de garantias sugerida por Marcelo Freixo (PSOL/RJ). Crítico constante do PSOL e de Freixo, Moura não gostou e acusou o presidente de trair "não só o ministro Sérgio Moro mas TODO o povo brasileiro". A acusação marca o rompimento do maior canal conservador do Brasil com o movimento do presidente. Em janeiro de 2020, o youtuber limpou o próprio canal ao tirar do ar 543 vídeos em que elogiava Bolsonaro.

"Cancelado" pela extrema-direita, o canal de Nando Moura passou a perder assinantes desde então.

ESTRATÉGIA DA MÁQUINA BOLSONARISTA

É nesse momento que a estratégia de Bolsonaro no YouTube muda para evitar novos desentendimentos com canais já consolidados. A estratégia explora dois caminhos: bombar o próprio canal do presidente e  dar projeção a figuras que cerrem fileiras com o governo.

Ninguém representa melhor esse movimento do que o já citado Gabriel Monteiro.

Em março de 2020, Monteiro ganhou projeção ao enfrentar um processo interno na Polícia Militar do Rio de Janeiro que lhe tirou a posse de arma e a farda e ameaçou expulsá-lo da corporação. A causa? Monteiro "se passou por um estudante para conseguir 'simular uma entrevista' com o coronel Íbis, na porta da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), postada sem autorização no YouTube", segundo a revista Época.

Nos dias seguintes, Eduardo Bolsonaro o defendeu no Twitter e o Jornal da Cidade Online, veículo digital bastante alinhado com o bolsonarismo, afirmou que o presidente se encontraria com Monteiro (não existe a confirmação desse encontro). Coincidência ou não, a partir daí o canal do YouTube de Gabriel Monteiro passa a crescer como nenhum outro da extrema-direita no Brasil.

Em maio de 2020, Bolsonaro organizou um encontro de youtubers no Palácio do Planalto com a intermediação da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF). Bolsonaro tinha se encontrado com youtubers no seu primeiro ano de mandato, como Alberto Silva, d'O Giro de Notícias, e Fernando Lisboa, do Vlog do Lisboa, alvos de operações da PF ligadas aos inquéritos do STF.

O encontro em maio de 2020 marca uma nova "geração" de youtubers, nomes como Bárbara Zambaldi Destefani, do canal Te Atualizei, Alan Frutuoso, do Vista Pátria, e Mauro Fagundes, do canal homônimo. Essa passada de bastão simbólica também tinha problemas: Bárbara Zambaldi, por exemplo, foi citada nos inquéritos do STF por atacar a corte.

A estratégia rendeu frutos a Bolsonaro. Em dezembro de 2020, o canal de Jair Bolsonaro passou o de Nando Moura em base de assinantes para se tornar o segundo mais popular da extrema-direita no Brasil. Tudo indica que Gabriel Monteiro, líder em novos assinantes junto ao canal do programa Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan, deverá passar Nando também nas próximas semanas.

À frente de ambos está Sikera Junior, apresentador do programa policialesco Alerta Nacional que ganhou projeção nos últimos anos repetindo bandeiras caras ao bolsonarismo.

É por isso que o banimento do Terça Livre do YouTube é uma perda enorme para Allan dos Santos, mas não para Bolsonaro. O presidente perdeu uma das suas linhas auxiliares mais rábicas e antigas, mas, dado o sucesso da estratégia de bombar o próprio canal e "criar" outros youtubers que repetem seu discurso, o impacto é quase nulo.

Em outras palavras: Bolsonaro continua tendo apoio de youtubers, sem precisar se comprometer com quem está enfrentando problemas na Justiça.

Já do lado de Allan a perspectiva não é positiva. Ainda que tenha um site do Terça Livre e venha veiculando suas lives no Facebook e no Instagram, o canal perdeu sua principal plataforma - somados, o número de seguidores no Facebook (319 mil) e no Instagram (528 mil) não atinge os 1,18 milhão de inscritos no canal banido do YouTube. Allan criou um canal pessoal no YouTube que conta com 71 mil seguidores. Mas no Telegram seu canal tem mais de 110 mil inscritos e continua crescendo rapidamente.

Paira sobre o Terça Livre a sombra de Alex Jones, influenciador de extrema-direita conhecido por espalhar teorias mentirosas sobre vacinas, COVID-19 e massacres escolares. Em 6 de agosto de 2018, Apple, Spotify, YouTube e Facebook baniram Jones de suas plataformas. Um mês depois, o Twitter também o baniu.

"A desplataformização que mais machucou Jones foi provavelmente a do YouTube - seus canais tinham 2,5 milhões de assinantes e seus vídeos tinham ultrapassado um bilhão de visualizações", escrevem os pesquisadores Ethan Zuckerman e Chand Rajendra-Nicolucci, do Knight First Amendment Institute, dentro da Universidade de Columbia, nos EUA.

Na época, Jones argumentou que sua desplataformização o tornaria mais conhecido. Dois anos depois já sabemos que isso não aconteceu. Restou-lhe atuar no próprio site, o InfoWars, e em plataformas de extrema-direita, como o Gab e, principalmente, o Parler.

Apresentado como o “Twitter da alt-right”, o Parler propunha uma plataforma sem qualquer moderação e ganhou projeção a partir do segundo semestre de 2020 quando Facebook, Google e Twitter baniram conteúdo da milícia digital QAnon.

Até agora, a desplataformização do Terça Livre não foi tão ampla como a de Jones.

Sem sua principal ferramenta, porém, caberá a Allan uma série de tarefas: reconstruir sua base de assinantes enquanto se defende dos inquéritos nos quais é investigado - além do focado em fake news, ele também é alvo de outro do Supremo sobre os atos antidemocráticos.

COMO FIZEMOS ISSO

A Novelo Data tem monitorado diariamente canais de extrema-direita do YouTube desde o primeiro semestre de 2019. Atualmente, o monitoramento abarca 174 canais.  Todo dia, um robô raspa e tabula dados sobre seguidores, visualizações e número de vídeos disponíveis para cada um deles. Outro robô baixa informações sobre todos os vídeos publicados pelos canais e compara com dados do dia anterior para entender quais vídeos "sumiram" da base, seja por que foram tornados privados ou excluídos pelo YouTube.

Por se tratar de uma análise histórica de fatos e dados, não se tratando de notícia quente ou denúncias, os canais e envolvidos citados aqui não foram procurados para comentários.

[Nota do editor] O autor é fundador do estúdio de data analytics Novelo Data e escreveu para o Núcleo a pedido.

Reportagem Guilherme Felitti
Edição Sérgio Spagnuolo
Arte Rodolfo Almeida


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