Com motociatas, bolsonarismo tenta se apropriar de rolezinhos de motoboys e entregadores
Arte: Rodolfo Almeida

Organizado pelas redes de forma agressiva, com táticas que incluem cooptação de lideranças, bolsonarismo tenta ganhar em cima de fenômeno cultural espontâneo da categoria

A motociata de Bolsonaro no dia 23 de maio deste ano não foi um ato espontâneo. Foi um evento construído durante semanas, em redes distintas, com o objetivo de se aproximar de motoqueiros e entregadores de baixa renda em busca de apoio político.

Com participação de oportunistas políticos, os chamados rolezinhos

Os rolezinhos são mobilizações que ocorrem geralmente na madrugada, muitas vezes sem autorização e são um fenômeno importante da cultura de muitos motoboys.

, fenômeno cultural da categoria, ajudaram a bombar o evento presidencial.


É importante porque...
  • Dá pistas sobre como será parte da estratégia bolsonarista de campanha para 2022;
  • Expõe, mais uma vez, a imensa efetividade de movimentos organizados por redes sociais

A cronologia começa em 9 de maio, dia das mães, quando Bolsonaro participou de uma motociata em Brasília.

O youtuber e entregador Rodolfo Delmond publicou um vídeo em que anunciava a passeata como um grande momento coletivo. Delmond costuma acompanhar as mobilizações da categoria em seu canal de 10.500 inscritos, que mistura vídeos de apoio a Bolsonaro com discussões sobre pautas específicas como direitos dos trabalhadores de aplicativos, mobilizações de greve e dicas técnicas para os colegas. Os vídeos de apoio ao presidente começaram a surgir apenas em abril deste ano em seu canal.

Foi uma primeira aproximação com a categoria.

No Rio de Janeiro, a coisa toda começou logo após o evento em Brasília, quando Bolsonaro anunciou, em 10 de maio, a motociata no Twitter, marcando o evento carioca para o dia 23 do mesmo mês.

O grupo Motoboys e Entregadores do RJ, no Facebook, repercutiu o post do presidente. O espaço discute problemas cotidianos e foi um local importante de conversa da categoria durante o Breque dos Apps em 1º julho do ano passado, conhecido como a primeira greve nacional dos entregadores, mas naquele momento reverberava a mensagem do mandatário.

Nos comentários estava um link com convite para o "🇧🇷 Patriotas de Moto 🇧🇷", grupo de WhatsApp que tinha um ritual de entrada incomum: "se apresente aí com uma foto e suas máquinas". O post no Facebook foi apagado pouco tempo depois para evitar polêmicas e intrigas, mas ficou no ar tempo suficiente para reunir uma bolha de entregadores que se identificavam com a ideia de participar da motociata.

O controle de entrada pode ter servido para tentar uniformizar a identidade ideológica do grupo num primeiro momento, quando começaram a circular também imagens e propostas do governo Bolsonaro as quais os articuladores dessa comunidade consideravam pontos comuns da categoria, como a redução dos pedágios federais para motos.

Esse cenário de articulação para participar do evento do presidente não caiu como uma luva para todos. Em geral, nos grupos de entregadores, ficou no ar um impasse sobre ir ou não ir. A questão não foi consenso nem antes, nem depois, sendo alvo de uma disputa intensa.

"Ficou um racha generalizado", conta um entregador que ajuda a organizar mobilizações de esquerda na categoria e pediu para não ser identificado.

Rolezinho

Nesse contexto entra outro braço da disputa de Bolsonaro pelos motoboys de baixa renda no Rio de Janeiro: a apropriação dos rolezinhos -- mobilizações que ocorrem geralmente na madrugada, muitas vezes sem autorização e são um fenômeno importante da cultura de muitos motoboys.

Várias das publicações e mensagens que circulavam em grupos de WhatsApp diziam "rolezinho com Bolsonaro", de certa forma atribuindo ao presidente um status de insider dessa categoria.

A coisa esquentou mesmo quando o perfil de Instagram Rolezinho ZN1, com 17.400 seguidores, cuja descrição na bio vangloria que "toda quinta param o RJ" com os rolês, colocou a pauta em seus stories.
Os rolês da RZN estão entre os mais populares do Rio de Janeiro, como se pode ver neste vídeo.

Mas apesar de ter pautado o debate, no final das contas o RZN não só decidiu pular o evento como criticou quem foi.

Mesmo assim, muitos motoboys ficaram com vontade de participar da motociata. Seria uma oportunidade única de fazer um rolê com escolta policial e respaldo oficial.

Um dos grupos de motoboys presentes nas ruas do Rio no dia 23 foi o Rolezinho 100 limites, figurinha carimbada em mobilizações coletivas dos entregadores e que em fevereiro fez parte de uma manifestação contra o aumento dos combustíveis, em conjunto com um sindicato de petroleiros.

Essa cronologia de eventos e conversas mostra como Bolsonaro e seus aliados têm tentado novas estratégias frente a uma queda de popularidade, possivelmente de olho no apoio político de uma categoria importante, antes das eleições de 2022.

Estratégia nova mesmo: o termo "motociata" foi adotado apenas recentemente pelo bolsonarismo. Segundo análise do Núcleo, das cerca de 8.200 menções entre 28 de maio de 2020 e 26 de maio de 2021 em grupos abertos e fan pages do Facebook, quase metade foi publicada no dia da moticiata no Rio de Janeiro neste ano, sendo quase inexistente muito antes disso nessa rede.

Dos 20 posts com mais interações no Facebook contendo o termo nos últimos 12 meses, 19 são de organizações ou políticos bolsonaristas, como os deputados federais Carlos Jordy, Bia Kicis, Marco Feliciano, Bibo Nunes e Anderson Moraes, além do senador Flavio Bolsonaro, e todos foram feitos entre os dias 23 e 24 de maio deste ano.

nucleo_bolsonaro_motociata

Oportunismo político

Outra frente de mobilização da motocada desde o dia 10 de maio foi o Conselho de Lideranças de Direita do Rio de Janeiro (COMLID-RJ). A entidade tem Instagram e Twitter com poucos seguidores, mas parece operar bem nesse ecossistema de baixa intensidade, mais confortável e próximo das pessoas. Alega ainda ter conexão com figuras no entorno do presidente.

A COMLID reivindica a organização original do evento, embora ressalte que a coisa toda saiu do controle nas redes sociais. Uma mensagem no grupo criado pelo conselho dá uma ideia do que aconteceu.

ofício COMLID-RJ ofício COMLID-RJ

Note as assinaturas da mensagem. Waldir Ferraz é ex-assessor do presidente Bolsonaro e amigo dele há 30 anos. Monica Cury foi candidata a deputada estadual pelo Novo por São Paulo, e hoje se diz "motociclista, piloto de competição de enduro e a mulher pioneira nos Enduros no Brasil".

Para ver o tipo de ação e mobilização em que a COMLID se envolve e a forma como vai constituindo alianças, este vídeo de Eduardo Pacheco, youtuber de direita com 1.390 seguidores, é bastante revelador. Pacheco conta como foi importante a movimentação das pessoas em solidariedade a ele, que está sem emprego. Fizeram uma vaquinha coletiva para ajudá-lo financeiramente e garantir sua presença na motociata.

Para Pacheco, o seu desemprego é culpa do lockdown orquestrado por governadores e prefeitos. O sentimento e a mobilização remetem às manifestações contra o lockdown que acontecem desde dezembro de 2020 e envolvem também pessoas de baixa renda.

Pelo canal e referências de Eduardo Pacheco é possível perceber um acanhado ecossistema de microyoutubers que se organizam mediante essas pequenas relações de solidariedade e projetos "sociais" de médio e longo prazo, como Janaina Correia, do COMILD.

Ao final do vídeo, se reproduz a chamada da motociata de Bolsonaro, que alegadamente foi chamada originalmente pelo COMLID com as seguintes pautas:

Pautas do Rally Mundial pela Liberdade.

🌎 Contra o lockdown

💉 Contra experimentos de vacinas

😷 Contra uso obrigatório de máscaras

Contra a Prisão domiciliar

Contra a Tirania do Estado

📺 Contra o Holocausto midiático

🧬 Contra falsa ciência genocida

🖲 Contra o grande reset

A discussão desses temas não colou na pauta entre os rolezinhos de motocicleta ou entre os entregadores.

Ressonâncias

Tudo o que foi relatado acima indica que a motociata de Bolsonaro foi resultado de combinação entre uma mobilização e articulação centralizada original e uma mobilização descentralizada que "saiu do controle".

Esse movimento mostra que o bolsonarismo vem investindo de forma estratégica em novas formas de engajamento, como a apropriação dos fenômenos culturais espontâneos das próprias categorias-alvo, a exemplo dos rolezinhos de motoboys.

Letícia Cesarino, professora de antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz que Bolsonaro não é um político que tem propostas convencionais.

"O tipo de política que Bolsonaro faz não é uma política propositiva, não é uma política programática nos moldes da democracia liberal, então ele convence as pessoas no nível da moralidade, dos afetos, uma coisa mais intuitiva. A ideia de ressonância pode nos ajudar a entender isso porque tem a ver com as coisas que a pessoa gosta, um tipo de atitude, é uma coisa que não passa por um convencimento consciente, mas algo que passa por um olhar e ver 'que esse cara é igual a eu', mas uma coisa afetiva, passa por uma coisa pré-consciente."

Cesarino explica que as plataformas digitais constroem um espaço que faz com que pessoas então achem que têm plena liberdade, mas na internet o ambiente é estruturado de forma a tornar as pessoas mais influenciáveis.

Como fizemos isso

O repórter acompanhou grupos de motoboys no Facebook e perfis do Instagram. Também observou alguns dos grupos de WhatsApp de sociabilidade dos entregadores que foram abertos para a organização das motociatas, tanto em Brasília quanto no Rio.

Foram entrevistadas algumas pessoas que fazem ativismo político junto aos entregadores e a antropóloga e professora da UFSC Letícia Cesarino. Os dados sobre a COMLID vieram de investigação de fontes abertas.

Sobre os dados do Facebook, utilizamos o CrowdTangle para buscar menções ao termo "motociata" nos últimos 12 meses, e agregamos isso por dia. Os termos de uso dessa ferramenta não permitem o compartilhamento de dados tabelados, nem mesmo agregados.

Reportagem Victor Silva
Edição Alexandre Orrico


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