Robôs ajudaram a bombar “manifesto alternativo” à Carta pela Democracia

Além de perfis automatizados, políticos e blogs bolsonaristas são os maiores divulgadores do abaixo-assinado.
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Reportagem Laura Scofield

Essa reportagem foi originalmente publicada pela Agência Pública e faz parte do Sentinela Eleitoral, projeto que investiga e analisa as redes de manipulação do debate público (fake news) nas eleições em parceria com o Berkman Klein Center for Internet & Society da Universidade de Harvard.


Para se opor ao manifesto em defesa da democracia que foi lido nesta quinta-feira (11.ago.22) na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro criaram seu próprio abaixo-assinado. O texto está sendo divulgado nas redes por grandes nomes da extrema-direita como as deputadas Carla Zambelli (PL-SP) e Bia Kicis (PL-DF), além de blogs investigados por propagação de desinformação, como o Jornal da Cidade Online, líder de audiência no bolsonarismo.

Investigação da Agência Pública identificou que perfis com indícios de automatização estão sendo usados no Twitter para incentivar que as pessoas assinem o manifesto de autoria do Movimento Advogados de Direita Brasil (ADBR), hospedado na plataforma americana Change.org. Além dos robôs, blogs e influenciadores da base do governo estão engajados em bombar a petição e aumentar o número de assinantes. A Pública também revelou que os bolsonaristas estão investindo dinheiro para “turbinar” o texto, o que levou a própria Change.org a indicar o manifesto para quem assina outras petições.

No Twitter, entre as 20 contas que mais publicaram sobre o manifesto bolsonarista entre 28 de julho e oito de agosto, metade apresenta indícios de automatização — mais de 60% de chance de serem robôs ou ter parte de seus tuítes publicados de forma automatizada — , de acordo com a ferramenta Botometer, do Observatório de Mídias Sociais da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos.

Considerando outra ferramenta, a brasileira Pegabot, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), 13 das 20 contas que mais tuitaram sobre o tema apresentam evidências de comportamento automatizado. Dessas, nove perfis têm mais de 80% de chance de não serem utilizados apenas por humanos.

Campanha no Facebook e Telegram

No Facebook, o post mais compartilhado sobre o tema é de autoria da deputada Carla Zambelli e chegou a mais de 35 mil interações, 25 mil curtidas e 1.600 comentários. “Você já assinou? Se ainda não, bora!”, pede a deputada. Para convencer seu público, Zambelli compartilha trecho da Jovem Pan News que repete trechos do manifesto, como a afirmação de que “há em nosso país a gravíssima tentativa da ditadura do pensamento único, que vem impondo a censura e a desmonetização dos meios de comunicação independentes e de perfis em redes sociais”.

A reportagem também identificou que existem ao menos dois anúncios pagos no Facebook que sugerem a assinatura do texto bolsonarista, feitos pelas páginas Professor Paschoal e Paulo Amorim & Simpatizantes do Liberalismo Econômico. Também foram veiculados anúncios divulgando o manifesto da USP.

Anúncio pago no Facebook feito pela página Professor Paschoal/Reprodução

Já no Telegram foram identificadas 109 publicações sobre o texto da extrema-direita. A maior parte delas apenas reproduz o link para o manifesto e chama o público para assiná-lo. Por outro lado, a busca pelo termo que nomeia o manifesto da USP na rede identifica a propagação de desinformação. Um post do canal @bolsonaro2022forte, que tem 944 inscritos, foi o mais visualizado da base do Sentinela Eleitoral: chegou a 744 visualizações e foi encaminhado cinco vezes.

“É simples explicar a revolta dos banqueiros com o presidente Jair Bolsonaro: há um grupo que sonha com o ex-presidiário Lula vencendo as eleições e revogando o Pix”, afirma a publicação.

O canal diz que os banqueiros aderiram ao manifesto pela democracia “porque os bancos perderam R$ 40 bilhões por ano com a criação do Pix”. O argumento já foi desmentido por agências de checagem.

“Bolsonaro desde o início de seu mandato trata a narrativa como uma arma. Ganhar a guerra da narrativa é fundamental para o bolsonarismo”, explica Jonatas Varella, mestre em ciência política e pesquisador de comunicação política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele considera ser uma estratégia eleitoral criar uma “contranarrativa” ao movimento da USP. “Isso é importante para municiar a sua base [de Bolsonaro] e manter ela ativa e engajada”, diz.

Os números de assinantes nos manifestos da USP e do bolsonarismo estão alternando na liderança do ranking. Até o dia em que esta matéria foi publicada, o texto feito pelos ex-alunos da Faculdade de Direito tem 874.714 assinaturas, enquanto o texto do ADBR soma 845.818.

Robôs bolsonaristas

No Twitter, as 20 contas que mais tuitaram sobre o manifesto bolsonarista entre 28 de julho e oito de agosto foram responsáveis por 259 publicações, quase 5% do total. Ao todo, nesta data foram feitas mais de cinco mil publicações que citaram o título do abaixo-assinado do ADBR, postadas por 4.243 perfis. Enquanto a média geral de tuítes por perfil se aproxima de 1,25, as 20 contas mais ativas fizeram em média 13 postagens — algumas chegaram a 31.

Um dos perfis apontados tanto pelo Botometer quanto pelo Pegabot como possivelmente automatizado é o @Graca64269806. A conta pontua 3.8 de 5 em chance de ser um robô pela primeira ferramenta, e é classificada pela segunda como com 99% de possibilidade de ser automatizada.

Criada em 14 de junho de 2021, o perfil tem mais de 67 mil tuítes e uma taxa de retuítes de 98% do publicado, de acordo com a Botometer. Nos 12 dias analisados, fez 31 tuítes sobre o abaixo-assinado do ADBR, que somaram 98 curtidas, 41 retuítes e foram citados quatro vezes.

“Em apoio à nossa liberdade e ao presidente @jairbolsonaro”, escreveu em 28 de julho ao compartilhar o link da petição. No dia seguinte, fez outro tuíte: “O Brasil precisa de nós, não queremos nos transformar na Venezuela, Chile, Nicarágua, Argentina e afins”, escreveu, copiando novamente o link para o abaixo-assinado.

Metade dos perfis que mais tuitaram sobre o manifesto bolsonarista têm indícios de automatização/Reprodução

Outra conta possivelmente automatizada é a @Gisaieira, que em seu nome de usuário indica um perfil na GETTR, rede trumpista que patrocinou congressos pró-Bolsonaro. A conta foi criada em abril de 2010 e fez quase 370 mil tuítes, dos quais 78% são retuítes. Marcou 4.1 de 5 pontos no Botometer e, de acordo com o Pegabot, tem 70% de chance de ser automatizada. Gisa tuitou 18 vezes sobre o abaixo assinado e somou 56 curtidas e 37 retuítes com suas postagens.

Além dos dois perfis, outros seis contam foram considerados com evidências de automatização pelas duas ferramentas, e sete foram apontados como possíveis robôs apenas por uma delas.

De acordo com os termos de uso do Twitter, a existência de robôs não é proibida na rede, mas sim sua utilização para “amplificar artificialmente ou prejudicar conversas”. A rede proíbe a operação de “várias contas com propósitos sobrepostos, como personas idênticas ou semelhantes ou conteúdo significativamente semelhante” e a coordenação para a publicação de “conteúdo duplicado ou criar engajamento falso”.

Em retorno à reportagem, o Twitter afirmou que “ferramentas de terceiros que tentam adivinhar se contas são automações indevidas só têm acesso a dados públicos muito limitados e não levam em consideração uma série de outros sinais, podendo gerar falsos-positivos”. A rede também acrescentou que “não teve tempo hábil para investigar as contas em questão e está conduzindo as análises”.

Políticos e blogs bolsonaristas são os maiores divulgadores

No Facebook, depois do post da deputada Carla Zambelli, a segunda publicação no ranking de audiência é do Jornal da Cidade Online, que também aborda o abaixo-assinado em seu site. Com mais de 12 mil interações, o post foi feito no dia 30 de julho e divulga matéria cuja manchete é “Manifesto pela Liberdade atinge número avassalador de assinaturas e impõe derrota fulminante na esquerda”. Um minuto depois do conteúdo aparecer no Facebook, o post foi replicado no Twitter, onde chegou a mais de 8 mil curtidas e 2.2 mil retuítes.

Bolsonaristas como a deputada Bia Kicis, o youtuber Gustavo Gayer, e o Professor Paschoal — que pagou por anúncios sobre a petição — também entraram no top 10 dos posts sobre o tema que mais circularam no Facebook. Entre as 10 postagens, oito são de páginas e duas são de grupos públicos, mais especificamente do Aliança pelo Brasil, nome do partido que Jair Bolsonaro tentou fundar, que ultrapassa 469 mil membros. No total, 746 páginas e grupos publicaram sobre o assunto.

“Vamos continuar divulgando!”, pediu Bia Kicis marcando o link da petição, no dia 29 de julho. O post da deputada ultrapassou 6 mil curtidas e chegou a quase 2 mil compartilhamentos. “Pare o que vc (sic) está fazendo agora e assine a NOSSA carta”, escreveu Gustavo Gayer, pré-candidato a deputado por Goiás, no mesmo dia.

Bia Kicis e Gustavo Gayer também apoiaram o manifesto/Reprodução

O blog Conexão Política, citado por agências de checagem como um propagador de desinformação, também fez posts de destaque sobre o tema. “O intitulado “manifesto à nação brasileira — defesa das liberdades” ultrapassou a marca de 600 mil assinaturas na noite deste sábado”, escreveu numa postagem no Facebook. “O documento foi aberto para a adesão do público na quinta-feira, 28, após grupos e simpatizantes de esquerda lançarem uma mobilização em torno da chamada ‘Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito’”. A publicação somou mais de 1.300 curtidas, 910 compartilhamentos e 95 comentários.

Varella considera bem sucedida a estratégia de Bolsonaro nas redes sociais. “A capacidade da rede pró-Bolsonaro identificar um tema, criar uma contranarrativa e rankear nos algoritmos das redes sociais é bem sucedida do ponto de vista pragmático”, diz.

Quando essas contranarrativas conseguem ter tração, diz o pesquisador, “isso nada mais é do que sua estrutura funcionando em sua melhor forma, o que é fundamental para manter o Bolsonaro combativo e conseguir pautar o debate”.

Este conteúdo faz parte do Sentinela Eleitoral, projeto da Agência Pública que investiga e analisa as redes de manipulação do debate público (fake news) nas eleições em parceria com o Berkman Klein Center for Internet & Society da Universidade de Harvard. https://apublica.org/sentinela/

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