Sites de apostas entulham redes para entrar na mente dos brasileiros

Sem regulamentação clara, mas com movimentação bilionária, sites de apostas esportivas crescem sem gerar riqueza para o país

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Galvão Bueno é um dos maiores narradores da história da TV brasileira. Conhecido internacionalmente, ele tinha um contrato com o Grupo Globo que o impossibilitava de fazer propaganda.

Após um acordo de redução salarial em 2019, o mercado publicitário soube que uma das vozes mais conhecidas do Brasil estava liberada para fazer ações de marketing e emprestar sua credibilidade para marcas interessadas.


É importante porque...

Mercado de sites de apostas movimentou R$2 bilhões em 2018 e passou para R$7 bi em 2020;

Publicidade massiva nas redes sociais procura, além de atrair apostadores, normalizar o ato de apostar;

Sem regulamentação, sites de apostas on-line se hospedam no exterior e não geram riquezas para o país


Entre as empresas que conseguiram fechar um contrato publicitário com Galvão estavam multinacionais como Ambev e Visa, e a Pixbet, site de apostas esportivas que vem ganhando destaque no Brasil. Segundo o portal Notícias da TV, o acordo foi firmado por cerca de R$1 milhão.

Mas por quê um site de apostas procurou Galvão Bueno?

Em 2018, o então governo de Michel Temer legalizou os jogos de azar de quota fixa – entre esses jogos estão as apostas esportivas. A lei 13.756 liberou, inclusive, que as casas de apostas pudessem fazer publicidade dos seus negócios:

Art. 33 - As ações de comunicação, publicidade e marketing da loteria de apostas de quota fixa deverão ser pautadas pelas melhores práticas de responsabilidade social corporativa direcionadas à exploração de loterias, conforme regulamento.

No entanto, a mesma norma determinou que num prazo de até quatro anos o Governo Federal regulamentasse a atividade, o que ainda não aconteceu por divergências políticas – a bancada evangélica é contra o avanço dos jogos de azar.

Ou seja, sem regras definidas, os sites se hospedam fora do Brasil, principalmente em países como Curaçao (uma ilha holandesa no Caribe) e Grécia, enquanto investem pesado em nomes de peso ligados ao futebol, como Vinícius Júnior, atleta do Real Madrid e da Seleção Brasileira, e Ronaldo, ex-atacante da seleção e empresário, para publicidade focada em redes sociais, principalmente no Instagram.

Esse marketing é fator importante para o boom das casas de apostas no Brasil, que hoje patrocinam todos os 20 times da série do Campeonato Brasileiro.

QUEM PATROCINA QUEM


América-MG, Avaí, Flamengo, Goiás, Juventude e Santos: Pixbet
Athletico-PR: Betsson
Atlético-MG e Fluminense: Betano
Atlético-GO: Amuletobet
Bragantino: Betpix365
Ceará e Fortaleza: Betcris
Corinthians: Galera.bet
Coritiba: Dafabet
Cuiabá: Lucksports.bet
Internacional: Estrela Bet
Palmeiras: Betfair
São Paulo: Sportsbet.io

Segundo pesquisa de mercado do Grupo Globo, 51% dos entrevistados começaram a apostar após serem impactados por alguma publicidade, sendo que a internet é o principal meio para captar novos apostadores.

Ainda de acordo com a mesma pesquisa, o mercado de sites de apostas movimentou R$2 bilhões em 2018 e passou para R$7 bi em 2020.

Em entrevista ao podcast Patrocinei, o especialista em marketing esportivo Angelo Alberoni falou sobre sua experiência no site Betmotion e disse acreditar que o segmento vê o Brasil como um grande mercado a ser explorado. Para isso, o investimento em nomes que passam credibilidade e estão na boca do povo são fundamentais.

Para Renato Mader, mestre e doutor em comunicação e professor de Publicidade Digital e mobile Marketing na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), esse tipo de ação, ancorado na credibilidade de embaixadores, ajuda moldar a visão sobre os sites de apostas, arrefecendo o estigma dos jogos de azar.

“No caso de atrelar a propaganda com nomes de atletas e ex-atletas, técnicos, comentarista e jornalistas esportivos, a intenção também é passar uma mensagem de conhecimento teórico, quase como se não fosse um jogo onde a sorte predomina e, sim, o conhecimento sobre aquele esporte”
- Renato Mader,  mestre e doutor em comunicação e professor de Publicidade Digital na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)

"Toda vez que você faz uma campanha com um formador de opinião, você se atrela à imagem dele. No caso de pessoas com carreiras consolidadas, se pretende passar uma imagem de segurança e confiabilidade, o que é importante nesse mercado, que é passar credibilidade”.

Os números corroboram a importância dessa estratégia.

Usemos de exemplo a Pixbet, maior patrocinadora do futebol brasileiro: o site é o quinto mais buscado no Google para apostas esportivas no Brasil, ficando atrás apenas de sites globais como sportingbet e bet365 e, em março deste ano, após as primeiras ações com Galvão no Instagram, a conta da empresa passou de 59.000 para 239.000 seguidores, segundo números da plataforma SocialBlade.

A reportagem do Núcleo entrou em contato com os sites Pixbet, Bet Nacional e Betano para entender melhor as estratégias dessas casas. Só a Pixbet retornou contato, mas nenhuma das empresas topou falar.

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Os sites de apostas investem bastante em publicidade, mas muito pouco em transparência. Em nenhum dos sites há informação sobre quem são os donos desses sites ou qual a relação (direta ou indireta) com o Brasil, por exemplo.

Por se tratar de jogo de azar, os sites de apostas são destinados para maiores de 18 anos e alguns contam com dispositivos para evitar depósitos atípicos e mensagens orientando os perigos do vício na atividade.

Uma reportagem recente do Intercept contou a história do CEO da Pixbet, Junior Dantas, e seu histórico com apostas e a falta de clareza nos seus negócios.

Receba???

Iran Ferreira, o Luva de Pedreiro, conhecido por seus chutes no TikTok e o bordão "Receba", vem participando de uma disputa judicial com seu ex-empresário, Allan Jesus, por conta do seu antigo contrato que o influenciador considerava abusivo.

Além do contrato, um dos pontos de discussão era contratos de publicidade que Iran deixou de fechar.

Entre esses acordos está uma parceria de publicidade com o site de apostas F12Bet, que pertence ao seu atual empresário, o ex-jogador de futsal Falcão.

Allan disse que não topou fazer negócio com a 12Bet pois acreditava que não seria uma boa decisão vincular a imagem de Iran com um site de apostas esportivas pois é um "mercado complicado".

Os valores do possível acordo não foram divulgados.

INSTAGRAM CAPTA, TELEGRAM ENGAJA

Se o Instagram serve para captar novos apostadores, o Telegram é o principal fórum para quem já aposta e quer receber dicas.

É o caso do apostador Vitor Antunes, 26. Graças a sugestão de amigos, ele começou a apostar por lazer. Fã de futebol, Antunes faz parte do grupo Dupla Aposta no Telegram, que conta com mais de 90 mil inscritos.

Além do grupo aberto, que conta com dicas diárias, ele também faz parte do grupo VIP, que cobra uma mensalidade de R$70 por mês para fornecer mais informações e dicas dos mais variados esportes.

"Aposto valores pequenos, mas sempre procuro informações para algo mais certeiro. Acredito numa questão de probabilidade envolvida. No grupo VIP, o volume de informação é maior e vai além do futebol, tem de outros esportes e e-sports".

Nos grupos, administradores mostram o resultado das dicas (Reprodução // Telegram)

Os sites de apostas esportivas oferecem as mais variadas possibilidades de apostas. Quantos escanteios acontecerão na partida, quem marcará o primeiro gol, qual será o resultado no intervalo, se um jogador tomará um cartão amarelo. E quanto menor a probabilidade do evento acontecer, mais dinheiro você pode ganhar.

É nessa hora que as dicas são importantes. As apostas podem ser por puro entretenimento ou feeling, mas também podem ser uma tentativa de ciência exata. Com a possibilidade de canais públicos, o Telegram é usado também por sites e influenciadores/traders esportivos, que compartilham os scouts (dados) de times e atletas.  

GLOSSÁRIO DAS APOSTAS 


Banca: É a quantia em dinheiro que você tem disponível no site de apostas para aplicar nos jogos.

Green: Termo utilizado para a aposta acertada. Se você apostou e ganhou, deu green. E no caso de uma aposta errada, o termo é red. Ou seja: Deu bom, é verde. Deu ruim, é vermelho.

Handicap: É o tipo de aposta que visa igualar a superioridade. Exemplo: se o líder do campeonato vai enfrentar o último colocado da mesma competição, você pode fazer uma aposta de handicap com a equipe favorita entrando em campo com -1 gol ou o azarão com 1 gol de vantagem.

Múltipla: A múltipla é o tipo de aposta em que você seleciona vários eventos. Por exemplo: você pode apostar o resultado final, número de escanteios e quem marca o último gol de uma mesma partida ou os resultados de todos jogos de uma mesma rodada. E, para você vencer a aposta, todos os eventos precisam acontecer. Se der ruim em um, é red.

Odd: é a probabilidade do evento acontecer e, sendo assim, quanto a casa de aposta te pagará. Por exemplo: na partida do time A x time B, a odd é de 1.6 para vitória do time A. Então, caso você aposte R$10 e o time A vença, você receberá R$16.

Mader faz um paralelo com o jóquei: mesmo o apostador sabendo que seu dinheiro está atrelado a fatores externos (desempenho do cavalo, por exemplo), ele crê que os dados podem ser fator determinante no resultado.

“A intenção [no marketing dos sites de apostas] é tratar como se fosse algo racional. A tática é gerar condições pelas quais você vai acabar aplicando a racionalidade. No caso do jóquei, o apostador lia jornais, analisava os páreos e tentava fazer uma avaliação dos dados”.

Os traders esportivos são profissionais que atuam de maneira parecida com os traders da bolsa de valores, mapeando notícias e estatísticas, e indicando possibilidades nos principais sites de apostas. Nesse caso, a "fézinha" não é mais um entretenimento que pode ser lucrativo, é uma profissão.

Fábio Bampi, que tem o apelido de Nettuno, e Danilo Pereira são dois dos principais traders esportivos do país. Juntos, eles têm quase de 200 mil inscritos em seus canais de Telegram, além de mais 400 mil inscritos no YouTube.

O Núcleo tentou contato com Fábio, mas não obteve resposta. Já Danilo agradeceu o contato, mas disse que entraria de férias com a família e não poderia conceder entrevista.

Tanto no Telegram, quanto no YouTube, Bampi e Pereira dão dicas para quem quer fazer uma aposta mais assertiva e também compartilham conhecimento para quem deseja se tornar um trader esportivo, oferecendo, inclusive, cursos.

E se você tiver interesse em se tornar um trader, existem cursos on-line que variam de R$50 a R$400 reais, oferecendo certificado e ferramentas para análise de dados e variáveis.

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MAS PODE OU NÃO PODE?

Como já falamos, as apostas esportivas não são regulamentadas no Brasil. Isso quer dizer que, mesmo que seja legal fazer apostas no país, não há regras específicas para atividade, o que, segundo especialistas, gera um limbo jurídico e um prejuízo financeiro para o Estado, que não consegue ter informações sobre os fluxos de dinheiro e não arrecada impostos sobre as quantias movimentadas.

Marcello Vieira de Mello é sócio da GVM Advogados e especialista em loterias e jogos de azar. Ele destaca que um mercado regulamentado pode ser um gerador de emprego e renda para o país.

"É um mercado bilionário e que não gera riqueza ou empregos para o Brasil. Existe uma questão política envolvida que atrapalha a regulamentação, mas a aposta esportiva já é muito disseminada no Brasil, virou algo popular. É como o jogo do bicho no passado. E falta um mecanismo legal para você impedir abusos e crimes".

Com mais de 400 sites buscando o público brasileiro, há um debate sobre o quão sérios são alguns deles e a preocupação com lavagem de dinheiro, além do impacto direto na manipulação de resultados. Segundo o site ge.com, essa é uma das preocupações da FIFA para a Copa do Mundo de 2022, que será disputada no Catar.

No Brasil, os sites de apostas dominam os patrocínios nas camisas dos times e também as placas de publicidade que ficam nas laterais do gramado nas principais competições.

Recentemente, após uma suspeita de manipulação de resultado na partida entre Santos e Bragantino, pelo Campeonato Feminino, o presidente do Santos, Andrés Rueda, comentou sobre a falta de regulamentação na área.

"Existe uma máxima: não tinha coisa mais séria que a banca do jogo do bicho. Quem é da velha guarda sabe. Isso vale para as apostas. Gira tanto dinheiro que não faz sentido quem organiza participar [das apostas]. Eu fico mais preocupado com os apostadores", disse o presidente.

O Regulamento Geral de Competições da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) além de proibir que pessoas envolvidas nos jogos apostem em suas próprias partidas, também classifica como conduta ilícita o ato de encorajar a participação de outras pessoas em apostas:

Art. 55 – Com o objetivo de evitar a manipulação de resultado de partidas, considerar-se-á conduta ilícita praticada por atletas, técnicos, membros de comissão técnica, dirigentes e membros da equipe de arbitragem e todos aqueles que, direta ou indiretamente, possam exercer influência no resultado das partidas, os seguintes comportamentos:

I – apostar em si mesmo, ou permitir que alguém do seu convívio o faça, em seu oponente ou em partida de futebol;

II – instruir, encorajar ou facilitar qualquer outra pessoa a apostar em partida de futebol da qual esteja participando ou possa exercer influência;

Enquanto no Brasil, todos os clubes da Série A têm patrocínio de casas de apostas, a primeira divisão da Inglaterra, a Premiere League, discute um acordo para que os clubes troquem seus patrocínio, de forma voluntária, até até 2025. Caso não haja consenso, o governo estuda um banimento compulsório.

A falta de clareza na legislação deixa os apostadores preocupados sobre onde estão apostando. É comum encontrar na internet publicações informando se um site é, ou não, confiável. Mas a certeza para quem investe seu dinheiro vem com outros sinais.

"Hoje, tem muita propaganda de site. Quando eu vejo um site que patrocina um time, tem alguém famoso fazendo propaganda, tenho mais confiança", diz Vitor.

Reportagem Guilherme Lúcio da Rocha
Arte Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico



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