Simone Tebet e Soraya Thronicke viram alvo de ofensas inspiradas por Bolsonaro
Arte: Rodolfo Almeida

"Você é uma vergonha" e “mimimi”: como ofensas a candidatas reproduzem falas de Bolsonaro e recebem milhares de menções misóginas no Twitter após o primeiro debate na TV

Reportagem Lu Belin (AzMina)
Edição Julianna Granjeia (Núcleo)

O MonitorA é um observatório de violência política online contra candidatas(os) a cargos eletivos.O projeto é uma parceria entre AzMina, o InternetLab e o Núcleo Jornalismo. A iniciativa é financiada por Luminate e Reset. A metodologia pode ser consultada aqui e aqui.


⚠️Atenção: A reportagem abaixo mostra trechos explícitos de conteúdo misógino e racista. Optamos por não censurá-los porque achamos importante exemplificar como o debate é violento na internet, como a violência política contra mulheres se espalha pelas redes e é sexista em suas formas, quais termos são frequentemente direcionados às candidatas ofendidas e como podemos identificá-la.

As candidatas à Presidência da República Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil) foram alvo de 6.661 mil ofensas no Twitter em apenas dois dias. Expressões como “você é uma vergonha” aparecem em 1.050 tweets no levantamento do MonitorA, projeto desenvolvido por AzMina, InternetLab e Núcleo Jornalismo.

Foram analisados quase 10 mil tweets que mencionaram as candidatas nos dias 28 (domingo) e 29.ago.22 (segunda-feira). No domingo (28.ago), foi exibido o primeiro debate entre presidenciáveis, promovido por uma parceria de veículos de imprensa composto por Band, TV Cultura, UOL e Folha de São Paulo.

Os resultados mostram que os ataques às duas trazem algumas diferenças com relação às demais candidatas monitoradas pelo projeto.

Misoginia domina ofensas a candidatas nessas eleições
Na primeira semana de campanha, 97 mulheres na disputa receberam quase 4,5 mil ataques e/ou insultos pelo Twitter.

No caso do pós-debate, a narrativa de envergonhar ou intimidar uma mulher repete a frase dita pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) à jornalista Vera Magalhães na noite de domingo.

Duas semanas depois, em 13.set, a mesma expressão foi usada pelo deputado Douglas Garcia (Republicanos-SP) para assediar Magalhães novamente, após o debate entre candidatos ao Governo do Estado de São Paulo.

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No Twitter, aparecem variações como “que vergonha você é para o MT”, “a senhora é uma vergonha no Senado” e “você envergonha as mulheres”, que inferiorizam ou desvalorizam as candidatas.

Parte dos ataques que questionam a representação das senadoras usam o próprio gênero para autorizar a crítica: “sou mulher e você não me representa, você é uma vergonha para as mulheres”.

O apelo à vergonha não é novidade nos discursos misóginos, segundo Sarah Sobieraj, presidente do Departamento de Sociologia da Universidade de Tufts, nos Estados Unidos, e professora associada do Berkman Klein Center for Internet and Society, de Harvard.

Em artigo científico de 2017, ela identificou o shaming [envergonhar] como uma das três principais materializações de violência de gênero online, somado ao descrédito e à intimidação - principalmente de cunho sexual.

Enquanto a intimidação explora o medo de estupro e violência física, o descrédito aparece no emprego de estereótipos sexistas que desvaloriza as ideias e contribuições da mulher.
Fonte: AzMina, InternetLab e Núcleo Jornalismo

Também taxam de vitimistas as que falam em feminismo ou citam questões como igualdade de gênero e combate à violência contra a mulher.

Quase 1.000 tweets usam mimimi, vitimismo ou mimizenta para ofender ou deslegitimar as candidatas, frequentemente comparadas a mulheres que desafiam estereótipos de feminilidade na política - Margaret Thatcher e Angela Merkel, por exemplo.

Nem mesmo a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), que costuma ser alvo do mesmo tipo de ataque, escapa de ser usada como figura que não “fazia drama”: “pelo menos a Dilma não fazia mimimi”.

Reação em cadeia

As ofensas misóginas - que vêm principalmente de apoiadores do presidente Bolsonaro - incorporam a retórica de seu grupo político. Parte significativa dos tweets que atacam as candidatas menciona jornalistas.

Em 31% das publicações ofensivas, há menção à Vera Magalhães, mas, em alguns, os usuários também criticam outros nomes como Míriam Leitão e Eliane Cantanhêde, que publicaram tweets em solidariedade à colega. Magalhães é diretamente atacada com adjetivos pejorativos e trocadilhos em pelo menos 215 tweets.

Além disso, algumas postagens se repetem, com o mesmo texto e alterações mínimas de grafia, ou somente com mudanças de emojis, indicando uma atuação coordenada para  intimidar e constranger as presidenciáveis.

Ataques em sequência

Nos dois dias analisados pela equipe do MonitorA, 63.863 tweets mencionaram as @s de Simone Tebet e Soraya Thronicke. Entre eles, 9.952 trazem palavras consideradas potencialmente ofensivas (veja a metodologia de análise ao final da matéria), e foram analisadas uma a uma por uma equipe de jornalistas e pesquisadoras.

Fonte: AzMina, InternetLab e Núcleo Jornalismo

São recorrentes as tentativas de desqualificação, descrédito intelectual e ofensas morais, além de tweets que demonstram “nojo” ou que desumanizam as candidatas. Neste caso, o que mais aparecem são as palavras “jumenta” e “onça”.

9.952 tweets mencionam Tebet e Thronicke; 52,7% atcam ou insultam as candidatas e 1.125 tweets contém mais do que uma ofensa/insulto

Para Soraya Thronicke, 278 das menções usam as palavras traíra ou traidora. A candidata apoiou Bolsonaro em 2018, e agora compete com ele pela presidência. Outros 171 tweets  questionam sua competência ou preparo, enquanto 161 usam as palavras fraca ou fracassada.

Para Simone Tebet, 273tweets demonstram um discurso hostil ou violento, mas sem empregar nenhum termo específico. São 169 os posts que a chamam de despreparada ou desqualificada, enquanto 113 incluem fraca ou fracassada.

Diferente do que o MonitorA notou ao analisar ataques a quase cem candidatas na primeira semana de campanha, referências às políticas como louca ou maluca foram pouco frequentes. Psicofobia e capacitismo, etarismo e ideologia política somam pouco mais de 2% das publicações.

Categorias de classificação


Usamos a categoria “psicofobia e/ou capacistimo” para classificar comentários que colocam as candidatas no lugar de pessoas com transtornos psicológicos ou problemas psíquicos, além de comentários sobre deficiências físicas ou intelectuais. 

É comum que sejam feitas insinuações ou menções explícitas em que as candidatas são colocadas como “doentes”, “borderlines”, “bipolares” e “aleijadas”. 

Além disso, a demarcação da idade das candidatas é algo bastante presente. Em alguns momentos, Simone e Soraya são chamadas de “velhas”, como se a idade pudesse qualificar a atuação política das mulheres. 

Por fim, os ataques à ideologia política das candidatas as coloca como indignas de ocuparem o cenário público devido ao que acreditam politicamente. 

Gênero como argumento de ataque

No padrão misógino identificado na análise, pessoas de grupos minorizados são frequentemente atacadas por suas próprias identidades, cuja presença é indesejada em posições de poder, segundo a professora Sarah Sobieraj.

O recurso aparece em uma série de tweets que usam termos como muié, mulherzinha ou mulher, entre aspas, de maneira pejorativa.

“A identidade é tão proeminente no abuso que os ataques são quase intercambiáveis ​​entre mulheres de origens semelhantes. Há tão pouco envolvimento com as ideias e propostas das mulheres, que muitas vezes você nem consegue dizer de quem o agressor está falando, a menos que você olhe”
- Sarah Sobieraj, pesquisadora

Para ela, a violência política de gênero é perigosa porque afasta as mulheres da política.

“Se você é uma jovem que considera uma carreira na política, no ativismo e até mesmo no jornalismo, estes parecem cada vez mais trabalhos de alto risco que provavelmente é melhor evitar. Isso prejudica a todos – não apenas as pessoas que são atacadas.”

Reação das candidatas

Via assessoria de imprensa, Simone Tebet afirmou que a campanha tem recebido agressões online e “lidado com cuidado” com todas.

“Para assegurar a segurança digital da campanha, uma equipe especializada fica em alerta dia e noite. Quando detectamos a agressão ou fake news, elas são direcionadas para o portal do TSE imediatamente. Já conseguimos derrubar inúmeros perfis falsos e publicações violentas que tentam me atingir como mulher e como política”.

Já Soraya Thronicke afirma que as ofensas pioraram neste período de campanha eleitoral, e que grande parte delas são ataques pessoais, que colocam seu caráter em xeque. Segundo ela, o procedimento padrão é bloquear os perfis agressores.

“A depender do teor, o conteúdo é encaminhado para a equipe jurídica verificar a necessidade de alguma medida judicial, ou mesmo para a equipe de segurança da Polícia Federal (PF) para análise de risco e a tomada de providências”, diz o comunicado enviado pela assessoria de imprensa.

COMO FIZEMOS


O MonitorA 2022 acompanha 200 perfis de candidatas e candidatos - 175 mulheres e 25 homens - no Twitter. Em 28 e 29 de agosto, um filtro somente para as menções a Simone Tebet e Soraya Thronicke chegou a 63.863 tweets (Simone Tebet com 38.633 citações e Soraya Thronicke com 25.230).

Destes, 12.137 trazem palavras possivelmente ofensivas, listadas em um léxico composto de palavras ofensivas, misóginas, sexistas, racistas, lesbo, trans e homofóbicas.

A planilha passou por uma limpeza para exclusão de repetições e resultou em 9.952 tweets, analisados um a um para identificar se eram, de fato, insultos ou ataques às candidatas, considerando o contexto.

As porcentagens apresentadas na matéria são referentes a estes 9,9 mil tweets analisados qualitativamente. Para saber mais sobre a diferenciação entre insultos e ataques, clique aqui.

OUTRAS REFERÊNCIAS

Sarah Sobieraj (2017): Bitch, slut, skank, cunt: patterned resistance to women’s visibility in digital publics, Information, Communication & Society, DOI: 10.1080/1369118X.2017.1348535

Para acompanhar os levantamentos realizados pelo MonitorA, acesse aqui a página do projeto ou siga o Núcleo nas redes sociais.

Reportagem Lu Belin
Arte Rodolfo Almeida e Revista AzMina
Edição Julianna Granjeia




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