Bolsonaristas no Telegram insistem em discurso de fraude eleitoral

Monitoramento identifica +2.000 mensagens em grupos que repetidamente aceitam discurso de fraude, inclusive grupo suspenso em maio pela plataforma #NúcleoNasEleições

Incomodados que Jair Bolsonaro não venceu as eleições presidenciais no primeiro turno (apesar do resultado bem mais apertado do que previram pesquisas eleitorais), grupos bolsonaristas no Telegram têm circulado contínuas alegações de fraude eleitoral.

De acordo com monitoramento do Núcleo de mais de 220 canais no Telegram, circulam em diversos grupos mais de 2.000 mensagens que mencionam "fraude" nas eleições, inclusive com chamado à violência.

Essas mensagens já somavam cerca de 240 mil visualizações e 3 mil compartilhamentos monitoráveis (ou seja, que permitem a coleta dessas métricas). Leve em conta que apenas mensagens em canais (e não em grupos) do Telegram possuem dados de views e encaminhamentos – logo, esses números são bem maiores na prática.

O Telegram é tradicionalmente mais permissivo no discurso de fraude eleitoral do que outras redes sociais. Em março, o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou a suspensão da plataforma em solo brasileiro por não cumprir decisões judiciais.

Até as 11h15 de 3.out.2022, grupos com maior número de menções a esse termo eram o Direita Inteligente (~900 mensagens) e o Super Grupo B-38 (~730). O B-38 é o mesmo grupo que chegou a ser suspenso pelo Telegram em maio por conta desse tipo de retórica.

As mensagens de fraude começaram na madrugada do dia da votação (2.out), mas se intensificaram a partir das 20h do mesmo dia, quando resultados mais definitivos começaram a ser divulgados.

WhatsApp

Alegações de suposta fraude eleitoral também têm aparecido em correntes de WhatsApp em grupos monitorados pelo Radar Aos Fatos.

Quatro das cinco principais correntes de baixa qualidade (veja aqui a metodologia) que circularam em grupos públicos de política no WhatsApp no final de semana do primeiro turno mencionam suposta fraude nas urnas — nunca registradas, desde a implantação do sistema eletrônico de votação no Brasil, em 1996.

  1. A que teve mais compartilhamentos (86) acompanha um vídeo descontextualizado de uma briga entre os senadores Ataídes Oliveira (PROS-TO) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), para provar uma suposta "sensação de derrota" na campanha do PT. Na verdade, o vídeo mostra uma discussão que ocorreu no Senado, em 2017, não na direção do partido, e circula fora de contexto;
  2. Em segundo lugar, aparece uma mensagem de um eleitor na Austrália propondo uma estratégia para escancarar a suposta fraude — não votar. “Quando saiu o boletim de urna no final com MUITO MAIS VOTOS REGISTRADOS DO QUE GENTE QUE FOI VOTAR os esquerdistas ficaram DESESPERADOS AQUI!”, relata corrente que circulou em nove comunidades diferentes.
  3. Na terceira posição ficou uma mensagem que negava o resultado das pesquisas de intenção de voto e convocava uma paralisação de caminhoneiros em caso de fraude. A corrente acompanha vídeo de encontro de Jair Bolsonaro (PL) com apoiadores às vésperas da eleição. “Essa é a verdadeira pesquisa”, dizia.
  4. Focando em eleitores cristãos, a quarta corrente mais popular pedia para que eles se unissem em oração às 21h de sábado (1º) para pedir “que quaisquer fraudes nessas eleições não sejam suficientes para derrubar o Bolsonaro. Ele é a última barreira entre a desgraça e a nossa liberdade”.
  5. A única mensagem entre as mais populares que não falava em fraude eleitoral incentivava o voto em Bolsonaro colocando-o em oposição ao candidato do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de “ladrão”. “A pergunta que não quer calar; DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ? Pra que lado você vai votar, pro lado do bem ou do mal?”, questionava.
Por Sérgio Spagnuolo
Reportagem adicional Ethel Rudnitzki (Aos Fatos)
Edição Samira Menezes

Esta reportagem foi feita numa colaboração entre Agência Pública, Aos Fatos e Núcleo Jornalismo para a cobertura das eleições de 2022. A republicação só é permitida com a atribuição de crédito para todas as organizações.

Texto atualizado às 15h40 de 3.out.2022 com dados de WhatsApp.

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