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A mãe chega em casa após um dia de trabalho extenuante, incluindo algumas horas no transporte público. Toma um banho e já corre para preparar o jantar para ela e seus dois filhos. Depois da refeição, enquanto assiste à novela, ela saca o celular, abre a Central da Família da Meta e revisa as atividades e configurações dos perfis dos filhos no Instagram.

A história acima aconteceu com aproximadamente zero mães, pais ou responsáveis.

Ok, foi um pouco mais que zero, mas não muito. Segundo fontes próximas da Meta ouvidas pelo Washington Post, no final de 2022 menos de 10% dos adolescentes no Instagram havia ativado a supervisão parental oferecida pela empresa.

O número, baixíssimo, surpreende. Desde 2021, quando as acusações de que o Instagram destrói a saúde mental adolescentes se intensificaram, essas ferramentas formam a principal linha de defesa da empresa para rebater críticas.

Nota-se pelo tanto de remendos e alterações ao longo de poucos anos. Foram tantas atualizações que às vezes leio uma notícia e sinto um déjà vu.

No dia 25 de janeiro de 2024, por exemplo, a Meta apresentou “configurações mais rígidas de mensagens para adolescentes”, com atualizações sutis (e óbvias?) a medidas implantadas em março de 2021.

A distinção é sutil.

Agora, adolescentes não podem ser contatados nem mesmo por outros adolescentes que ele não siga. Antes, a restrição valia somente para adultos.

Se para quem acompanha a Meta de perto é meio difícil manter-se a par dos recursos para pais, imagine para a coitada da mãe fictícia do parágrafo lá de cima.

Mesmo subutilizadas, as ferramentas de controle parental são convenientes à Meta e outras empresas que atraem adolescentes para plataformas sociais inadequadas à idade. Por dois motivos.

Primeiro, fica bem no comunicado à imprensa, nas manchetes dos sites de notícias e nos depoimentos ao Senado estadunidense, como o que aconteceu nesta quarta (31/1). Ora, a Meta está fazendo alguma coisa (pouco) para resolver este grave problema (que ela mesma criou)!

Segundo, e mais importante, porque expia a culpa, joga toda a responsabilidade das tragédias envolvendo adolescentes e Instagram em cima de pais e mães sobrecarregados e, não raro, sem traquejo com o celular. Se sua filha está trocando ideia com um predador sexual, a culpa é sua, que não usou as ferramentas de controle parental da Meta.

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Ferramentas essas que reproduzem o design labiríntico das de privacidade da Meta. Está tudo lá, mas é necessário acompanhar com lupa o noticiário e ter um phD em computação ou área correlata para operá-las.

Para piorar, a maior parte desse aparato depende da anuência e de uma abertura enorme do adolescente — de alguém em uma fase da vida onde a tensão é constante, a desconfiança atinge níveis máximos e a vontade de desbravar o mundo (longe dos pais) é enorme.

Caberia o argumento de que isso é dar agência a pais e filhos para que eles mesmos demarquem os limites da experiência online dos menores? Sim, só que soaria estranho, contraditório até, vindo de uma empresa que diz a toda hora saber o que os usuários querem melhor que nós, do feed algorítmico aos reels.

Sem surpresa, esse super poder desaparece quando controle absoluto se transforma em uma batata quente.

Na melhor tradição homeriana (do Homer Simpson, não do outro Homero), que preconiza que “a culpa é minha e eu boto ela em quem eu quiser”, Mark Zuckerberg disse aos senadores que, na verdade, são as lojas de aplicativos de Apple e Google que deveriam supervisionar o acesso de menores aos aplicativos.

A ironia é que esse recurso já existe. Basta que os pais ativem, configurem e usem as ferramentas de controle parental que Apple e Google oferecem.

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