Motoboys planejam novo Breque dos Apps em setembro
Arte: Rodolfo Almeida

Entregadores de vários estados usam grupos de zap e canais no YouTube para articular nova paralisação nacional; mobilização pela morte de Vinícius Oliveira, motoqueiro de 21 anos, fortaleceu a articulação interestadual

Um ano após o Breque dos Apps

Breque dos Apps foi uma paralisação nacional de motoboys e entregadores de aplicativo que ocorreu em 2020. Foram dois atos, um no dia 1º de julho e outro em 25 de julho.

houve uma semana de intensa mobilização de entregadores e motoboys em todo o Brasil. Em São Paulo, no dia 2 de julho, e em Goiânia (GO), Curitiba (PR) e Campo Grande (MS), no dia 4 de julho, foram articuladas manifestações e paralisações de entregadores de aplicativo de caráter apartidário, por fora do aparelho sindical e com articulação entre vários estados.

Movimentações e conversas nos grupos de WhatsApp da categoria, com apoio de outras redes, indicam um próximo Breque Nacional para 11 de setembro.


É importante porque...
  • Motoboys e entregadores são uma categoria importante e disputada no cenário político nacional
  • Articulação nacional deles pode dar dor de cabeça a aplicativos e ter consequências políticas

Em um domingo, 27 de junho de 2021, o motoboy Vinícius de Oliveira, 21 anos, foi atingido por uma BMW desgovernada na Zona Sul de São Paulo e faleceu após o choque. O veículo arrastou pelo menos dez motos e hospitalizou outro motoboy que estava estacionado junto a colegas em frente a uma empresa de delivery. De acordo com dois motoboys presentes no momento, o marido da motorista tentou pagar R$2 mil reais a alguns dos presentes para que não fosse registrado boletim de ocorrência. O pagamento foi recusado.

A motorista da BMW, a dentista Danielle Diniz, foi liberada após pagamento de fiança de R$22 mil reais. A liberação da motorista indignou os colegas de trabalho de Vinícius de Oliveira, que se articularam pela internet para organizar uma mobilização. A intenção era chamar atenção para o caso e exigir justiça para os familiares e amigos do falecido e do hospitalizado.

Foram criados dois grupos de mensagens pelo WhatsApp de motoboys por iniciativa de colegas de trabalho de Vinícius que estavam presentes no momento do acidente. Esse grupo foi o núcleo a partir do qual se reuniram os motoboys que aderiram à causa do protesto. Dentro dele, os trabalhadores decidiram que o melhor era fazer um protesto com as motos em frente ao prédio de Danielle.

Um deles é Francisco Bruno, o FB Revolução, 27 anos. FB é dono de um canal pequeno de YouTube, com pouco mais de mil inscritos, mas com influência na categoria. No dia 2 de julho, sexta-feira, cerca de 250 motoboys se reuniram no local do acidente.

“Fizemos uma oração no local onde ele faleceu e onde tinha sangue. E a árvore estava lá. Colocamos flores no local. Nos organizamos e fomos direto para a frente do condomínio da dentista”, disse FB. Em frente ao condomínio, com a presença da polícia, os motoboys fizeram uma oração e gritaram por justiça. Os moradores saíram de seus apartamentos para filmar o acontecimento.

BREQUINHOS E BOLSÕES DE ESPERA

O protesto em SP sobre o caso de Vinícius mobilizou motoboys de outros Estados. No Rio de Janeiro, o canal de Ralf Mt, que tem 16 mil inscritos, fez uma live para acompanhar a manifestação. Ralf disse que, desde o Breque dos Apps do ano passado, está mais conectado com acontecimentos de outras cidades.

Entregadores de Goiânia

Em Goiânia, a mobilização foi feita principalmente pelo WhatsApp e a pauta principal dos entregadores era pautada pela hashtag #ForaAgendamento. O agendamento é um sistema experimental que está sendo implantado em Goiânia, Ribeirão Preto e Belém pela iFood. O “parceiro entregador” disponibiliza os horários em que vai trabalhar durante a semana para a iFood “ organizar a escala”, de acordo com os comunicados oficiais.


A empresa alega que a adesão ao agendamento é opcional e não interfere no desempenho do entregador. No entanto, os entregadores alegam que quem não adere ao agendamento não consegue realizar entregas e tem seu desempenho prejudicado. Além dessa queixa, os entregadores colocaram em pauta a apresentação do código de confirmação em todas as entregas, o fim dos bloqueios indevidos e o aumento das taxas de entrega.


que se organizavam para um ato no dia 4 de julho também declararam seu apoio ao movimento em memória de Vinícius de Oliveira em um vídeo que circulou nos grupos de WhatsApp dos motoboys envolvidos na mobilização. O MEU (Movimento Entregadores Unidos), da Paraíba, de caráter apartidário e não sindical, também se mobilizou em solidariedade aos que se movimentaram por Vinícius. Essa conexão fortaleceu a articulação interestadual entre motoboys e pode ser importante para a organização do novo Breque Nacional, planejado para setembro.

Os motoboys, claro, usam muito WhatsApp como ferramenta de trabalho, mas também como forma de se orientar e sobreviver no espaço urbano.

Com frequência os grupos de zap se formam a partir dos bolsões de espera de motoboys, que surgem em frente à mercados e restaurantes movimentados. É comum que cada bolsão tenha seu próprio grupo para orientações comuns sobre segurança, trânsito e ajuda mútua. Esses grupos também servem para mobilizações políticas como serviram no dia 4 de julho.

Foram recebidos salves de apoio de São Paulo, Campo Grande e Curitiba.

Em Campo Grande, a mobilização também foi realizada sobretudo pelo WhatsApp, Facebook e Youtube. De acordo com o motoboy JP, a mobilização não tem partidos nem sindicatos. No domingo (4), houve uma pequena motociata que fez um Breque estadual. De acordo com Washington Guedes, entregador que ajudou a organizar a mobilização, entre as reivindicações estão: tarifas dinâmicas em dias atípicos (chuva, frio e noite/madrugada); aumento da taxa mínima e pagamento integral das taxas quando a rota tiver dois ou mais pedidos.


Em Curitiba, de acordo com Wesley Gonzales, cerca de 200 motoboys se reuniram nos shoppings da região para que fosse realizada a "manifestação contra a exploração das plataformas digitais dos entregadores”. A pauta deles era a seguinte, de acordo com o motoqueiro conhecido como “Sidney o Velho": taxa de entrega mínima de R$ 10, desbloquear todos os trabalhadores que não tiveram direito de defesa e código para finalizar o pedido.


A mobilização foi protagonizada por entregadores independentes, sem partido nem sindicato, que se articularam por grupos de WhatsApp e grupos de Facebook. A articulação também teve salves de apoio de Goiânia, Campo Grande e São Paulo. Houve mobilização por meio de panfletagem nos bolsões de entregadores, adesivagens e produção de faixas pelos entregadores.
Eles denunciam que foram impedidos de continuar o breque por multas de trânsito da Polícia Militar. Também houve uma paralisação em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.




Entregadores da iFood também organizaram uma paralisação em Campo Grande (bairro da zona oeste do Rio de Janeiro) desde domingo

A paralisação teve como principal bandeira o fim das sub-praças de Operador Logístico. Lá, os entregadores que são "nuvens", isto é, são ligados ao aplicativo sem uma rotina operacional pré-determinada, estão reclamando que estão tendo poucas entregas e os Operadores Logísticos estão sendo priorizados. Por isso foi feita essa paralisação que "brecou" todos os shoppings da cidade. Em live transmitida pelo Ralf Mt, os entregadores denunciam que foram ameaçados pelos líderes Operadores Logísticos (OL) da iFood.


. Essa mobilização foi vista como um passo em relação à mobilização nacional de 11 de setembro.

Apesar da heterogeneidade das reivindicações locais, existe uma clara articulação e coordenação entre as mobilizações que acontecem nas capitais e um direcionamento para que haja uma nova mobilização nacional no dia 11 de setembro. Essa já conta com a adesão de Goiânia, Curitiba, Campo Grande e São Paulo e Paraíba.

De acordo com Ralf Mt, as principais reivindicações nacionais no ano passado eram: melhores taxas, seguro acidente e fim dos bloqueios sem defesa. Hoje são, além das do ano passado: código de verificação do pedido e fim da entrega com ida e hora marcada.

COMO FIZEMOS ISSO

O repórter acompanhou grupos de motoboys no WhatsApp, grupos no Facebook e perfis do Instagram e fez pesquisas por palavras como “greve”, “mobilização” e “breque” ou eventos chave como “comboio do Vini”. A partir dessa pesquisa conseguiu entrar em grupos de mensagem e conversar com as pessoas que estavam fazendo a mobilização.

Reportagem Victor Silva
Edição Alexandre Orrico e Samira Menezes
Arte Rodolfo Almeida


Faça parte da conversa

Apoie o Núcleo para publicar seu comentário, reagir à matéria e participar da conversa. Caso já seja apoiador ou apoiadora, faça login abaixo sem senha, usando apenas seu email.


Veja nossas publicações abertas

Você se inscreveu no Núcleo Jornalismo
Legal ter você de volta! Seu login está feito.
Ótimo! Você se inscreveu com sucesso.
Seu link expirou
Sucesso! Veja seu email para o link mágico de login. Não é preciso senha.
Por favor digite ao menos 3 caracteres 0 Resultados da busca