Com Pix, pedintes virtuais se amontoam no Twitter e no Instagram
Arte: Rodolfo Almeida

Análise do Núcleo de centenas de posts elaborou um panorama sobre principais motivações de quem pede dinheiro nas redes

Com o movimento nas ruas diminuído no último ano devido à pandemia da Covid-19, sem mencionar os problemas econômicos do Brasil, as redes sociais se transformaram nos novos cruzamentos entre vias para quem pede doações em dinheiro contando apenas com a caridade de desconhecidos e uma chave Pix.

Análise do Núcleo de centenas de posts no Instagram e no Twitter durante apenas quatro dias em junho de 2021 elaborou um panorama sobre principais motivações dos perfis que decidem pôr a cara na rede para pedir por auxílio financeiro, encontrando nessas plataformas um novo tipo de "semáforo" no qual podem pedir dinheiro para o máximo de pessoas possível.

Ali são feitos pedidos de doações para compra de comida ou de remédio, para auxílio com animais abandonados ou para levantar recursos para causas e projetos. Interessados em ajudar nem precisam sair do sofá: é só fazer um Pix – o formato de transferência e pagamento instantâneos que funciona a qualquer dia e hora entre bancos diferentes.


É importante porque...
  • PIX tem facilitado pedidos de doações online
  • Crise econômica força pessoas a recorrerem a novos recursos e métodos de pedir dinheiro via redes sociais

Segundo o levantamento, o comportamento de quem pede é diferente entre quem trafega no Twitter e quem circula pelo Instagram. Enquanto no Twitter a maior parte dos pedidos de ajuda é voltada para apoiar pessoas e até o próprio usuário que se encontra em situação financeira difícil, no Instagram uma parte significativa dos pedidos é voltada para o resgate de animais de estimação, como gatos ou cachorros em situação de abandono ou com problemas de saúde.

Em abril, o Núcleo mostrou como as redes sociais estavam popularizando o Pix e facilitando a viabilização de projetos e a monetização de perfis.

Agora, no entanto, é abordando um aspecto mais triste e delicado do assunto, que, de um lado, envolve pessoas potencialmente em situação de vulnerabilidade que perderam emprego, auxílio médico ou até mesmo segurança alimentar. E, de outro, usuários de redes sociais que podem não confiar em pedidos de desconhecidos a ponto de ajudar.

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Na rabeira de posts mais populares

Após analisar 3.607 tuítes entre os dias 27 e 28 de junho de 2021, buscando por menções simultâneas das palavras "pix" e "ajuda", foi possível perceber que quem faz pedidos de doações no Twitter tem uma tendência muito maior em pedir um auxílio para benefício próprio ou para terceiros -- 90% dos tuítes analisados eram de pedidos para esses fins.

O desemprego encabeçava a lista das justificativas mais comuns.

E, consequentemente, falta de verba para compra de alimentos, necessidade de pagamento de contas básicas (como água, luz e gás), compra de medicamentos, de cadeiras de rodas, assistência médica, tratamentos específicos, entre outros.

Outro comportamento dos pedintes analisados no Twitter foi a tentativa de se conectarem aos assuntos mais falados do momento, como se estivessem buscando uma audiência maior para pedir uma doação. Em geral, os tuítes com pedidos pessoais de doações via Pix, que se assemelham à mendicância, podem ser percebidos nos fios que seguem algumas das postagens mais populares do Twitter.

Foi comum encontrar pedidos que incluíam hashtags populares ou até embrenhados em conversas de outros usuários. Como o tuíte de Fernanda Gibara, que fez seu pedido em resposta a um tuíte de um usuário que questionava uma doação de US $10 mil do investidor e filantropo húngaro-estadunidense George Soros à Associação de Juízes Federais, no Brasil.

Gibara foi uma dos 12 pessoas que se dispuseram a conversar com a reportagem -- todos com uma narrativa semelhante. A maioria estava passando por uma situação difícil e inédita com a pandemia quando recebeu de algum conhecido a dica de que pedidos de doações postados nas mídias sociais poderiam ajudar a pagar as contas -- afinal, o Pix é imediato e a caridade pode realmente acontecer.

Em entrevista via chat, a moça, que disse ter 24 anos e morar no Rio de Janeiro, contou que já há algumas semanas vinha pedindo doações de Pix (primeiro pelo Instagram e depois pelo Twitter) e que já havia arrecadado R$ 400, apesar de continuar com dois meses do aluguel de R$ 500 atrasados.

No Twitter, que não tem uma política de uso em relação a pedidos de doação, a motivação dos pedintes vai além de contas de aluguel. Em um tuíte do dia 16 de julho, Francisca @DeusA4Grade, postou um vídeo mostrando parte de um cômodo e de sua bebê para pedir esmola.

Outra entrevistada, que preferiu não ser identificada, relatou que havia passado por dificuldades na obtenção de morfina para aplacar a dor. Segundo ela, o remédio era fornecido pelo SUS como parte do seu tratamento de câncer de boca, mas, diante das impossibilidades impostas pela quarentena, o fornecimento foi cessado e ela passou a fazer no Twitter alguns pedidos de auxílio por meio de depósitos via Pix.

O tuíte original, publicado no dia 28 de abril, teve dezenas de retuítes e uma doação de R$40 -- publicada pelo próprio doador com foto do comprovante do Pix. Assim que conseguiu recursos financeiros suficientes para a compra das doses que a atenderiam por alguns meses, a entrevistada tuitou agradecendo a generosidade de quem havia feito as doações e suspendeu novos pedidos.

Dificuldade ou trapaça?

Para comprovar a veracidade e não serem confundidos com golpistas, muitos pedintes chegam a publicar fotos ou vídeos de suas geladeiras, despensas e até de comprovantes de residência, assim como expõem receitas médicas e contas de luz ou água. No entanto, na lógica da esmola, o destino do dinheiro é, na maioria das vezes, uma incógnita.

Um dos editores do Núcleo, por exemplo, relatou ter se sensibilizado com uma resposta dada em um de seus tuítes populares, remetendo R$50 para uma usuária que havia feito um pedido de ajuda via pix. Após a doação, o editor não acompanhou mais o desfecho da história, e a beneficiária da doação removeu seu perfil da rede.

Apontada por outros usuários da rede como um perfil fraudulento, Fernanda Gibara negou a acusação. "Isso não é verdade. Outras pessoas estão postando minhas fotos como se fosse delas. Eu tinha pedido antes no Instagram, aí botava as fotos da minha geladeira e do meu armário. Eu botei aqui no Twitter porque vi outras pessoas botando, aí botei também pra poder conseguir meu aluguel atrasado."

Apesar de seu nome bater com o nome identificado pelo Pix informado -- o que aconteceu com todos os entrevistados --, Gibara e mais dois usuários encerraram a comunicação e bloquearam a reportagem quando foram convidados a dar uma entrevista ao vivo. As contas continuam a fazer pedidos de doação na rede.

Apelos por doações para cães e gatos

O mesmo tipo de análise retornou resultados bastante diferentes no Instagram, mídia social que tem as fotos e vídeos como seu principal carro-chefe. Por lá, as 185 postagens com pedidos de doações via Pix analisadas entre os dias 14 e 15 de junho de 2021, tiveram outro foco: o auxílio no pagamento de contas relacionadas a cuidados com animais de estimação em situação de vulnerabilidade.

A maior parte dos pedidos mencionava a falta de ração para animais abrigados temporariamente, apoio no pagamento de contas em clínicas veterinárias para animais resgatados e para o pagamento de tratamentos de saúde de cães e gatos.

Mais de 54% das postagens analisadas no Instagram tinham relação com o cuidado de pets, fosse para complementar os recursos dos tutores que buscavam mantê-los saudáveis ou para apoiar o cuidado dado por protetores a animais resgatados.

Muitos dos pedidos expunham fotos e vídeos dos animais, em alguns casos com cenas fortes.

Mais engajados, os pedidos de ajuda para animais abandonados, como os da ONG Paraíso dos Focinhos, chegam a reunir quase 10 mil visualizações, 5 mil likes e 300 comentários. No total, os posts com esse tipo de pedido somaram mais de 4 milhões de interação no período de análise.

Já os pedidos de ajuda para causas pessoais, fossem elas divulgadas pelos próprios beneficiários ou por terceiros, somaram no Instagram pouco mais de 22% das postagens.

Causas mais amplas representaram cerca de 12% das postagens. Entre elas, combate à fome, campanhas do agasalho ou doações para abrigos infantis ou da terceira idade, bem como a busca por apoio para projetos realizados por indivíduos ou institutos, como o apoio para bares e restaurantes que passaram por apuros durante a quarentena, projetos de reciclagem, campanhas políticas, entre outros.

Entre as outras postagens, destacam-se as feitas por lojas online, que apareceram em cerca de 6% dos resultados ao pedirem para que os pagamentos fossem feitos por meio da modalidade Pix.

Como fizemos isso

Para esta reportagem, usamos duas ferramentas para fazer a raspagem de dados no Twitter e no Instagram: o CrowdTangle, que é uma ferramenta do Facebook para analisar conteúdo público nas redes sociais, e o Tags para analisar os posts no Twitter.

No Instagram, foram analisadas 185 postagens, entre os dias 14 e 15 de junho de 2021. Para o levantamento no Twitter, foram analisados 3.607 tuítes entre os dias 27 e 28 de junho de 2021.

Para manter a brevidade da análise, foram consultadas apenas essas duas redes. Elas não foram contatadas para comentários sobre o assunto por não envolver políticas ou ações diretas dessas plataformas.

Reportagem Jacqueline Lafloufa
Edição Samira Menezes e Sérgio Spagnuolo


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