"Médicos pela Vida Covid19" promove hesitação vacinal no Instagram como se não houvesse amanhã
Arte: Rodolfo Almeida

Perfil, com quase 50 mil seguidores, generaliza casos que precisam de avaliação médica pessoal

Com quase 50 mil seguidores no Instagram, o perfil Médicos pela Vida Covid19 segue forte na disseminação de informações de baixíssima qualidade e sem o contexto adequado sobre vacinas contra Covid e os supostos benefícios do "tratamento precoce".

Frequentemente associadas a elementos políticos, essas informações podem causar hesitação na hora de alguns grupos se vacinarem.

No perfil, argumentos médicos e jargão técnico são usados para extrapolar casos muito específicos e raros sobre a vacina que, na prática, devem ser abordados e analisados individualmente.


É importante porque…
  • Há um predominante consenso médico de que as vacinas anti-Covid são seguras.
  • Perfis, como Médicos pela Vida Covid19, usam argumentos médicos e jargão técnico para extrapolar perigos muito específicos e raros da vacina que deveriam ser avaliados individualmente.
  • A presença online de perfis como esse atrapalha o alcance da vacinação anti-Covid, dificultando o combate à pandemia e colocando vidas em risco.

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Um dos motivos para perfis como esse continuarem ativos nas redes sociais é o fato de eles não necessariamente difundirem mentiras -- embora, fora das dimensões corretas, essas informações possam desinformar. Essa é uma das explicações que, coincidentemente, o chefe do Instagram, Adam Mosseri, deu na semana passada, em um vídeo sobre buscas na plataforma e a facilidade com que o usuário encontra um determinado perfil.

De fato, no mecanismo de busca do Instagram, as primeiras opções de perfis para a pesquisa por "médicos pela vida" não foi a do "Médicos pela Vida Covid19". Ainda assim, o engajamento dele é alto.

Respondendo a um pedido de posicionamento feito pelo Núcleo, o Instagram informou que os conteúdos apontados (selecionamos dois entre vários: esse e esse) não iam contra as políticas da plataforma.

"Em resposta à pergunta sobre violações cometidas pela conta citada pela reportagem, não divulgamos informações sobre contas de terceiros. Sobre os conteúdos indicados pela reportagem, eles não violam as nossas políticas."

A plataforma, no entanto, afirmou que "alegações sobre as vacinas contra a COVID-19 que contribuem para a rejeição à vacina violam as nossas políticas", sem dar detalhes sobre por que considerava que esse caso específico não se encaixava.

"Especificamente, estamos tomando medidas adicionais para reduzir a distribuição de determinados conteúdos no Feed de Notícias e limitar a visibilidade desse conteúdo nas nossas superfícies de recomendações", afirmou o Instagram por email via assessoria de imprensa.

Operando pelo dissenso

No caso específico do "Médicos pela Vida Covid19", o perfil atua pelo "dissenso", ou seja, usa exceções, interpretações forçadas e estudos preliminares ou de baixa qualidade para promover suas teses, como a dos medicamentos contra Covid.

Há suspeita de interesses financeiros. Um anúncio contendo desinformação veiculado pela Folha de S.Paulo em fevereiro foi pago pela empresa farmacêutica Vitamedic, que produz ivermectina, conforme revelou o próprio diretor-executivo da empresa em agosto à CPI da Pandemia. Esse é um dos medicamentos ineficazes contra Covid-19 promovidos pelo grupo.

O conteúdo do perfil não chega a ser abertamente antivax, mas, certamente, abre a interpretações do tipo ao promover tratamentos ineficazes e ao colocar em dúvida a eficiência da vacina, promovendo a hesitação vacinal. Há um consenso médico de que as vacinas são seguras e necessárias.

Em vez de tratar a medicina como uma questão de deliberação médica baseada em evidência, o perfil a trata como uma questão de "livre arbítrio" do paciente, que em geral não sabe nada sobre tratamentos ou como as vacinas funcionam.

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Um vídeo diz que o paciente vai sofrer as "consequências" de sua decisão, qualquer que seja. Também diz que o paciente não pode "ser obrigado", como se médicos tivessem poder judicial.

Um levantamento do site Metrópoles mostrou que o grupo possui pouca expertise para falar sobre vacinação em massa e epidemias, com apenas 2 de seus 209 médicos afiliados sendo infectologistas. O perfil também é investigado pelo Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul.

Em julho, o Núcleo publicou sobre grupos no Telegram que, similarmente, dão pareceres genéricos e atendem gratuitamente pessoas em busca de tratamentos para Covid-19, os quais ainda não existem de maneira segura e comprovada.

Outra característica do conteúdo do "Médicos pela Vida Covid19" é a mistura desse conteúdo médico de baixíssima qualidade com panfletarismo político de extrema direita. Não raro a página traz clipes de comentaristas políticos alinhados com o bolsonarismo, por exemplo.

Alta no engajamento

Mesmo com todo esse perfil, o grupo tem crescido no Instagram em número de seguidores a uma taxa média de 46% ao mês desde novembro de 2020 -- com picos em março (logo após a publicidade na Folha) e após junho, provavelmente por conta das menções na CPI da Pandemia.

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Segundo dados da ferramenta de análise de dados CrowdTangle, com pouco menos de 50 mil seguidores, o Médicos pela Vida Covid19 conseguiu ultrapassar até o Ministério da Saúde (2,8 milhões de seguidores) e o Instituto Butantan (1 milhão de seguidores) em taxa de interação por seguidores, métrica que mostra a influência da página para quem a segue.

O perfil também consegue rivalizar diretamente em número bruto de interações (likes + comentários), apesar de ser bem menor.

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Em um post específico, com mais de 5 mil engajamentos, o grupo apresenta "doenças que isentam da vacinação de Covid-19", como se pudesse ser aplicado a todo mundo.

O que dizem especialistas

Especialistas consultados pelo Núcleo reforçam que a vacinação é segura e que, nos raros casos nos quais pode haver qualquer complicação, apenas um médico pode determinar a contraindicação da vacina após análise individual e diligente.

Após tomar conhecimento do post do Médicos pela Vida Covid19 sobre as doenças que isentam da vacinação, a médica pneumologista e pesquisadora clínica Letícia Kawano-Dourado, atualmente na Universidade de Paris, disse que isso é "ABSOLUTAMENTE FALSO" (em maiúscula mesmo).

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"Há expressa indicação de vacinação, e agora de revacinação (3ª dose) oficial por parte do FDA norte-americano para imunossuprimidos, que naquela tabela são pessoas com doenças autoimunes em tratamento", disse ao Núcleo via WhatsApp. "O resto é PURA BALELA da pior qualidade, sem nenhum respaldo na literatura."

Kawano-Dourado enviou links de estudos de qualidade que desbancam vários dos itens citados no post:

A professora Melissa Markoski, doutora em biologia celular e molecular e pós-doutora em imunologia e câncer, associada à Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, falou especificamente sobre esse post em webinar do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde, do ICFJ. Veja a partir dos 30 minutos:

"Quando a taxa de cobertura vacinal é calculada, ela considera grupos que não é que não pode tomar a vacina, na grande maioria dos casos, mas que você não vai ter uma resposta eficiente da vacina porque seu sistema não é capaz de ser fortalecido por ação da vacina, isso pode acontecer (como imunodeprimidos)", disse a especialista.

Segundo ela, para essas pessoas não é um problema tomar a vacina. "Se pode acontecer uma resposta inflamatória e exacerbar algum problema, quem pode determinar isso é um médico, um infectologista, um hematologista, uma pessoa que faça uma análise... É muito muito raro, [mas] pode acontecer."

Em sua fala, Markoski ressaltou que a população com problemas de saúde que impedem a vacinação é muito pequena e que a grande maioria em absoluto pode e deve se vacinar.

Como fizemos

Vimos diversos posts do grupo "Médicos Pela Vida Covid-19" no Instagram e consultamos especialistas médicos e de vacinação para colocar esses posts no contexto de desinformação.

Para dados de seguidores e engajamento, utilizamos a ferramenta CrowdTangle, do Facebook (dono do Instagram). [Acesse aqui]({{ site.baseurl }}/img/instagram/medicos/CrowdTangle_report_medicospelavidacovid19.pdf) o relatório completo com dados da ferramenta sobre este perfil.

Entramos em contato com a assessoria de imprensa do Instagram com as seguintes perguntas:

  • Qual a política do Instagram sobre posts que promovem tratamentos sem comprovação científica para covid-19?
  • Qual a política do Instagram sobre posts que promovem informações que colocam em dúvida ou criam hesitação acerca da campanha de vacinação atualmente em curso?
  • Denúncias feitas por usuários possuem algum efeito nesse tipo de post?
  • O Instagram já tirou alguma publicação (stories ou post) de esse perfil do ar por violação das políticas da plataforma?

Abaixo, a reposta do Instagram na íntegra:

Para encontrar e remover conteúdo que viole as nossas políticas, tanto em contas públicas quanto em privadas, usamos uma combinação de revisão humana, tecnologia e denúncias de usuários, e incentivamos as pessoas a denunciarem conteúdo violador sempre que o encontrarem.Lembramos que posts e contas não são removidos pelo número de denúncias que possuem. Conteúdos que violam as Diretrizes da Comunidade do Instagram são removidos. Contas que violam as Diretrizes da Comunidade repetidas vezes podem ser removidas e contas que compartilham desinformação repetidas vezes podem ter sua visibilidade reduzida.

Em resposta à pergunta sobre violações cometidas pela conta citada pela reportagem, não divulgamos informações sobre contas de terceiros. Sobre os conteúdos indicados pela reportagem, eles não violam as nossas políticas.

Alegações sobre as vacinas contra a COVID-19 que contribuem para a rejeição à vacina violam as nossas políticas. Mais detalhes e exemplos no item "Desincentivo a boas práticas de saúde" de nossas Proteções e atualizações da política em relação à COVID-19.

Abaixo o trecho dos Padrões do Facebook, que se aplicam ao Instagram, que fala sobre como lidamos com conteúdos relacionados a tratamentos alternativos para Covid-19:

*"Como parte de nossos esforços para melhorar a qualidade do conteúdo sobre saúde e vacinas a que as pessoas têm acesso durante a pandemia da COVID-19 e conforme o conselho dos especialistas de saúde independentes, também tomaremos *medidas adicionais para reduzir a distribuição de outros conteúdos sobre vacinas que não violam nossas políticas listadas acima. Além disso, removeremos determinadas Páginas, Grupos e contas do Instagram que compartilharam conteúdo que viola nossas políticas sobre COVID-19 e vacinação e que têm como objetivo disseminar informações desencorajadoras sobre vacinas na plataforma.

Especificamente, estamos tomando medidas adicionais para reduzir a distribuição de determinados conteúdos no Feed de Notícias e limitar a visibilidade desse conteúdo nas nossas superfícies de recomendações (saiba mais aqui). Isso inclui conteúdo, descrito abaixo, sensacionalista ou alarmista sobre vacinas ou que desacredite as pessoas em relação às escolhas delas de vacina, também trabalhamos para limitar a visibilidade desse conteúdo, bem como de conteúdo que promova recusa à vacina ou alternativas a ela ou que compartilhe depoimentos sobre acontecimentos adversos ou efeitos colaterais que sejam apresentados de maneira chocante ou exagerada a fim de desmotivar a vacinação. Também podemos reduzir a distribuição de Páginas, Grupos e contas do Instagram que têm como foco desmotivar a vacinação disseminando esses tipos de conteúdo.

Além disso, Páginas, Grupos e contas do Instagram podem ser removidos caso compartilhem conteúdo que viola nossas políticas sobre COVID-19 e vacinação e tenham como objetivo compartilhar informações desencorajadoras sobre vacinação na plataforma. Especificamente, esse tipo de conteúdo inclui:

(...)

3. Promover recusa à vacina ou alternativas a ela: Conteúdo que não viola nossas políticas sobre COVID-19 e vacinação acima, mas que implicitamente desencoraja a vacinação, defendendo alternativas ou parabenizando aqueles que se recusam a tomar a vacina. Isso inclui promover tratamentos alternativos ou imunidade natural, parabenizar aqueles que se recusam a tomar a vacina e incentivar recusas sem mencionar razões ou orientações médicas."

*Lembramos que este ano lançamos um novo selo para publicações que discutem alguns tratamentos para COVID-19, especialmente quando debatidos como alternativas à vacinação. O selo diz que "Tratamentos para a COVID-19 sem comprovação científica podem ser prejudiciais à saúde. (Fonte: Organização Mundial da Saúde)" e leva o usuário para a nossa Central de Informações sobre o COVID-19.

Você pode encontrar mais detalhes sobre as atualizações das nossas políticas em relação à COVID-19 neste link.

Desde o início da pandemia causada pelo COVID-19, o Facebook e o Instagram têm trabalhado próximo às autoridades globais de saúde para conectar as pessoas com informações seguras, verificadas e atualizadas sobre prevenção e vacinas.

Mais de 2 bilhões de pessoas, em 189 países, já se conectaram a informações confiáveis sobre o coronavírus por meio do Centro de Informações sobre o COVID-19 no Instagram e no Facebook, e por mensagens informativas nos feeds das pessoas.

Desde o começo da pandemia, removemos mais de 20 milhões de peças de conteúdo do Facebook e do Instagram em todo o mundo por violar nossas políticas sobre desinformação relacionada ao COVID-19. Conteúdos com alegações comprovadamente falsas sobre a doença e com potencial de causar danos no mundo real, como por exemplo, que o vírus foi criado por humanos e que pegar o COVID-19 é mais seguro do que tomar a vacina, não são permitidos no Facebook ou no Instagram.

Além disso, contamos com agências verificadoras de fatos parceiras que analisam conteúdos que, quando marcados como falsos, são rotulados no Facebook e no Instagram e têm seu alcance reduzido.



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