No Twitter, apenas 12% dos perfis tentam bombar manifestações do 7 de setembro
Arte: Rodolfo Almeida

Campanha coordenada sobre o protesto está concentrada em poucos usuários, que impulsionaram mais de dois terços dos tweets sobre o ato

A manifestação de 7 de setembro organizada por bolsonaristas (e endossada por Jair Bolsonaro) cresceu em número de menções no Twitter, mas não conseguiu se expandir para além do núcleo duro do presidente nessa rede.

Análise do Núcleo com monitoramento de termos e hashtags associadas à manifestação mostra que apenas 12% dos perfis que tuitaram sobre o assunto impulsionaram mais de dois terços dos tweets a respeito da manifestação.


É importante porque…
  • Embora mostre aumento no número de menções e no peso das manifestações, também mostra que há um limite na adesão de apoiadores no Twitter, uma rede que, embora tenha menos usuários do que Facebook, Instagram e YouTube, por exemplo, consegue pautar o noticiário e serve como termômetro para o debate político.

A conclusão é de que a concentração no compartilhamento e o convite às manifestações são realizadas por um grupo específico no Twitter, que consegue alavancar o número de menções mas não fazer com que muitos outros usuários tenham o mesmo entusiasmo com a campanha.

O Núcleo detectou cerca de 590 mil tweets de 84 mil usuários sobre o 7 de setembro desde o dia 24 de agosto, com as ocorrências crescendo significativamente nos últimos quatro dias.

O Núcleo se baseou em duas linhas de análise para chegar a esse resultado:

  • Número de menções capturadas em buscas e o número de usuários únicos
  • Cálculo do Coeficiente de Gini para verificar a concentração de tweets nos mesmos usuários

A análise não indica que as manifestações serão grandes ou pequenas em número de presentes, mas sim que a conversa nessa rede social está concentrada em poucos atores muito articulados. Chamamos isso de "ação coordenada".

Uma ação coordenada acontece quando membros de uma campanha estimulam suas bases para que elas sejam mais ativas. Isso garante que essas bases façam mais publicações utilizando, por exemplo, uma hashtag – o que resulta em concentração em poucos usuários (daí a desigualdade).

Em geral, métricas de engajamento medem mais apoio ou popularidade de posts e assuntos, mas no caso de manifestações o número de menções é particularmente relevante porque são atos que exigem presença das pessoas como forma de sucesso, e não apenas endosso à pauta.


Matéria do Núcleo em janeiro de 2020 mostrou como a direita faz mais ações coordenadas e menos espontâneas do que a esquerda, mas consegue mais engajamento e menções.

Note que por essa análise não é possível determinar a operação de robôs, apenas a concentração de muitas publicações por poucos usuários da rede social. Bots são recursos que, por exemplo, republicam ou comentam alguma publicação mediante o uso de uma palavra-chave, automaticamente.

grupo usuarios tweets % do total de tweets
1 tweet 46.646 46.646 8.49%
2 a 5 tweets 25.902 75.143 13.67%
6 a 10 tweets 75.32 57.325 10.43%
11 a 50 tweets 9.479 205.229 37.33%
51 a 200 tweets 1.674 139.244 25.33%
+200 tweets 79 26.109 4.75%

ECONOMIA

O bolsonarismo tem dificuldades em extrapolar seu núcleo duro no Twitter. Dentre os motivos, está a série de problemas enfrentados pelo governo na área econômica, como a crise energética, a inflação e o desaquecimento da economia. Não por acaso, a hashtag #EnergiaParaTodos, utilizada por atores da oposição no dia 31/08 se sobrepôs até mesmo a hashtag #Dia07VaiSerGigante nas menções junto ao nome de Jair Bolsonaro.

Segundo dados do Monitor Nuclear, o mês de agosto foi aquele em que os políticos brasileiros mais falaram em inflação. Foram 405 tuítes contendo esta palavra ao longo do mês, sendo que o segundo com maior número de menções foi março (126). Essa tendência também foi observada nas citações a combustíveis e ao ministro Paulo Guedes.

É nítida a dificuldade do bolsonarismo para contornar o tema "custo de vida" em suas tentativas de convocações. Ainda que sem impacto direto nelas, o tema exige que este campo promova a defesa do governo. Uma das linhas adotadas aqui são os ataques contra governadores, a quem responsabilizam pelo preço do gás de cozinha.

COMO FIZEMOS ISSO

O Núcleo detectou cerca de 590 mil tweets de 84 mil usuários sobre o 7 de setembro desde o dia 24 de agosto, com as ocorrências crescendo significativamente nos últimos quatro dias. Veja aqui um exemplo de código para utilização da API do Twitter.

A partir dessa coleta de dados, utilizamos o Coeficiente de Gini para medir a concentração de tweets, conforme fórmula abaixo. O código para esse cálculo e dados anonimizados podem ser encontrados neste link.

O Gini calculado pelo Núcleo sobre as manifestações foi de 0.71. Quanto mais perto de 1, mais concentradas nos mesmos usuários são.

O Coeficiente de Gini é uma das ferramentas mais comuns para avaliar a desigualdade da distribuição de renda entre países. O site Nexo tem uma boa explicação sobre o tema.

No entanto, o Coeficiente de Gini é simplesmente uma medida de desigualdade em uma distribuição qualquer.

Adaptando o cálculo desse coeficiente, substituindo o que normalmente é a renda de cada pessoa para a quantidade de tweets que ela publicou, podemos calcular o resultado para cada um dos movimentos analisados do Twitter, e observarmos qual a distribuição do empenho de cada conta na popularização das hashtags.

Apenas como comparação, são mais desiguais que a renda na África do Sul em 2014 — maior índice já registrado pelo Banco Mundial (0.64).

Quase todas essas hashtags são mais desiguais, por exemplo, do que o Brasil em 2019 (53,4) segundo essa medida — que é apenas dentre várias para medir desigualdade. Para acessar dados sobre índice de Gini de países, acesse esse site de dados do Banco Mundial.

Análise Lucas Lago e Lucas Gelape
Dados Pedro Barciela
Edição Sérgio Spagnuolo e Alexandre Orrico*


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