No Twitter, 60% dos perfis de políticos omitem partidos na bio
Arte: Rodolfo Almeida

Prática é mais uma prova de que partidos são meramente formalidade para eleger parlamentares

Mais de 60% das contas dos principais políticos brasileiros no Twitter omitem seus partidos na biografia de seus perfis, transpondo para as redes sociais um comportamento do mundo real no qual boa parte das legendas são meramente uma formalidade necessária para eleger parlamentares, em vez de um norte ideológico. O Brasil tem 33 partidos.

Entre aqueles que declaram, predominam figuras de siglas da esquerda, mostrou análise inédita do Núcleo com dados extraídos do Monitor Nuclear, que monitora ministros, governadores, senadores e deputados federais na rede social.


É importante porque…
  • Com o uso intenso de Twitter por muitos políticos, esconder legenda de filiação piora transparência partidária
  • Redes sociais não foram capazes de inverter o racional político de partidos de aluguel

Análise com base em 642 contas monitoradas pelo Monitor Nuclear, ferramenta do Núcleo que monitora as publicações de políticos brasileiros nas redes sociais, mostrou que a prática de omissão ou ocultação de partidos, histórica no Brasil, se transpôs para redes sociais e envolve principalmente figuras de partidos menores.


"Não é um fenômeno causado pelas redes digitais, já existe e foi apenas transportado naturalmente", disse ao Núcleo Emerson Urizzi Cervi, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

"O que a gente pode dizer é que as redes digitais não foram capazes de gerar uma mudança no comportamento, até porque, se gerasse, seria ao sentido contrário ao que é comum nas redes digitais que é a personalização", explicou.

Apenas cinco partidos têm mais da metade de sua base declarando o partido na bio [a descrição da conta no Twitter]: Novo, PSOL, PCdoB, PDT e PT. Com exceção do Novo, são todos partidos à esquerda do espectro ideológico.

"Partidos com mais força ideológica tenderiam a se esconder menos", explicou Flávia Bozza Martins, pesquisadora em Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

"[Aqueles] mais programáticos, que têm um alinhamento mais claro, um posicionamento mais claro em termos de programa e que também fazem com que a sua base parlamentar se comporte de acordo com o programa do partido, tendem a ter parlamentares mais orgulhosos de fazer parte daquele partido".

Em conversa com o Núcleo, ela complementou que  “o que vem acontecendo é que partidos à esquerda têm estado mais nesse lugar de serem partidos programáticos, que têm uma pauta fechada e que têm cobrado de seus parlamentares mais fidelidade partidária no cumprimento de algumas pautas”.

A tendência entre partidos de esquerda se repete ao olharmos para a maneira como políticos falam de seus partidos em seus tuítes.

Neste ponto, o levantamento do Núcleo considerou o percentual de políticos de um partido que o mencionaram ao menos uma vez no mês, em relação ao total daqueles que tuitaram nesse mesmo período.

Os partidos que têm as maiores médias desse percentual são PSOL, PT, PCdoB e Solidariedade.

O Novo volta a aparecer nessa análise como o 5º partido com mais menções se considerarmos menções a "Partido Novo" e ao @ da sigla no Twitter.

Vale destacar que esse valor subestima as menções dentre políticos do Novo, ao desconsiderarmos citações a “Novo”, dado o seu alto índice de falsos positivos (veja mais detalhes na seção “Como fizemos isso”). .

.


"O que faz o político expor o partido é se o partido for um ativo, se o partido lhe trouxer votos, se o partido lhe trouxer capital político e alguns partidos fazem isso para alguns políticos", disse Cervi.

Dentre os dez perfis que proporcionalmente mais falaram de seus partidos no Twitter, sete ocupam ou ocuparam posições de destaque na atual legislatura, como a presidência nacional ou regional de seus partidos ou a liderança da bancada do partido na Câmara.

Quanto os políticos mencionam seus partidos?

N. tuítes que citam os partidos em relação ao total daquele político. Considera apenas aqueles que citaram partidos mais de 10 vezes.

Gráfico Interativo

ALUGUEL PARLAMENTAR

Para compreender o apagamento dos partidos da comunicação de políticos, é preciso olhar para a ausência das siglas na formação dos políticos no Brasil, pontuou o professor da UFPR.

Com algumas exceções, partidos políticos não formam militância, e, portanto, não formam candidatos, dado que é da militância que saem candidatos. Com isso, políticos têm sua formação em outros ambientes e instituições, como a mídia, o esporte, instituições religiosas e, mais recentemente, pelos ambientes digitais (no caso de influencers) ou por ONGs não-partidárias.

SAIBA MAIS: O Pindograma fez um raio-x dos 33 partidos brasileiros

Como a legislação brasileira exige que, para se candidatar, uma pessoa precisa estar filiada a um partido com registro no TSE, após essa formação em outro ambiente, ela deve buscar um partido, que funcionará quase como uma 'legenda de aluguel', uma vez que, após eleita, a pessoa continuará defendendo ideias trazidas do ambiente de formação.

"Isso explica porque não há uma relação mais explícita e contínua entre o político e o partido no Brasil", disse Cervi.

Também há uma espécie de 'incentivo' por parte da população, que vê mais facilidade em se conectar com pessoas do que com partidos, explicou Martins, da Unirio.

"As pessoas não veem os partidos com bons olhos, elas veem os partidos como máquinas auto-interessadas em se promoverem, em buscarem somente cargos para terem acesso ao dinheiro público para proverem interesses privados", disse a pesquisadora.

Uma demonstração disso, segundo ela, é a vitória de Bolsonaro em 2018 pelo PSL sem ter nenhuma grande identificação com seu então partido.

"Bolsonaro passou por inúmeros partidos e, por acaso, calhou daquele ano ele estar no PSL, mas não foi o partido sequer que ele mais ficou na vida dele e logo ele saiu do PSL e hoje não está em nenhum partido. Ao que me consta, isso não parece ser um grande problema para a população", explicou.

Há também que se contabilizar o impacto da Operação Lava Jato na identificação partidária, disse Martins. Se antes já existia uma desconfiança com relação aos partidos políticos, a hiper judicialização trazida pela investigação acabou minando o sistema partidário como um todo.

"Não sei se por querer, não sei se sem querer, mas [a Lava Jato] acabou atacando mais do que se previa e assim sobreviveram aqueles candidatos que pessoalmente já tem a sua base eleitoral, que já gozavam de credibilidade, que conseguiram manter a suas relações com o seu eleitorado", explicou a pesquisadora.


COMO FIZEMOS ISSO

Analisamos as descrições dos perfis (bios) e todos os tuítes (excluídos RTs e replies) entre 01/01/2020 e 06/10/2021 das contas de políticos atualmente incluídas no Monitor Nuclear, que acompanha todas as publicações de 666 perfis de políticos no Twitter. Desses, identificamos partidos de 642 deles, que efetivamente compõem nosso universo de análise.

Checamos correspondências da sigla, nome completo e arroba da conta do partido do político nas descrições/bios ou em tuítes desses políticos. Na análise dos tuítes, excluímos RTs e replies, e contamos o número de políticos para os quais encontramos essas correspondências em relação ao total de indivíduos desses partidos que tuitaram no mês (por exemplo, se de um total de 6 políticos que fizeram publicações, 3 mencionam o partido ao menos uma vez no mês, o percentual é de 50%). Em seguida, tiramos a média desses percentuais para o período analisado.

Levamos ainda em conta a migração partidária dos atuais deputados e senadores (mas somente deles) nesse período. Os dados de migração partidária são do Banco de Estudos Legislativos do Cebrap, complementados de informações obtidas pela equipe do Núcleo Jornalismo.

Além disso, políticos do Patriota, Rede e Podemos não foram incluídos na análise dos tuítes, devido a uma alta taxa de falsos positivos (todos acima de 20%, identificados manualmente) em amostras aleatórias de 100 tuítes que indicavam uma citação ao partido. Nesses casos, provavelmente estaríamos superestimando muito o número de menções a esses partidos.

Menções à “novo” dentro do universo de tuítes do Partido Novo também ultrapassaram o limite de 20% de falsos positivos. Devido ao protagonismo do Novo nas menções em descrições, exploramos os resultados caso essas menções a “novo” fossem retiradas da nossa análise. Mesmo subestimando seus valores, ele ainda se mantém em 5º lugar da média mensal de políticos que mencionam o partido. Portanto, optamos por mantê-lo na análise, mas sem a categoria que levava a um alto número de falsos positivos.

A classificação ideológica dos partidos foi adaptada do artigo “Uma nova classificação ideológica dos partidos brasileiros”, de Bruno Bolognesi, Ednaldo Ribeiro e Adriano Codato. Os autores estimam essas posições a partir de um survey realizado com 519 cientistas políticos brasileiros em 2018, no qual os entrevistados deveriam classificar cada partido brasileiro no eixo esquerda-direita numa escala de 0 a 10.

Agregamos as categorias Extrema-Esquerda, Esquerda e Centro-Esquerda como Esquerda, mantivemos o Centro, e agrupamos as categorias Extrema-Direita, Direita e Centro-Direita como Direita.

Acesse os dados da análise aqui.

Análise Lucas Gelape
Reportagem Laís Martins
Arte e gráfico Rodolfo Almeida
Edição Sérgio Spagnuolo



Faça parte da conversa

Reações de apoiadores
carregando reações...

Apoie o Núcleo para publicar seu comentário, reagir à matéria e participar da conversa. Caso já seja apoiador ou apoiadora, faça login abaixo sem senha, usando apenas seu email.


Veja nossas publicações abertas

Você se inscreveu no Núcleo Jornalismo
Legal ter você de volta! Seu login está feito.
Ótimo! Você se inscreveu com sucesso.
Seu link expirou
Sucesso! Veja seu email para o link mágico de login. Não é preciso senha.
Por favor digite ao menos 3 caracteres 0 Resultados da busca