Twitter confirma 'shadow ban' contra certos usuários
Arte: Rodolfo Almeida

Revelações de comunicações internas mostram como rede reduziu alcance de perfis que considerou nocivos

O Twitter tinha uma lista de perfis considerados indesejáveis e criou obstáculos para evitar a amplificação e descoberta de seus conteúdos, corroborando a existência de uma prática chamada shadow ban – que ocorre quando uma conta é penalizada sem qualquer notificação.

Essas são as mais recentes revelações dos chamados Twitter Files – comunicações e práticas internas divulgadas de maneira bizarra pelo Twitter sob orientação de Elon Musk, em parceria com dois jornalistas.

OPINIÃO DO AUTOR. Antes de você continuar a leitura, vale dizer que, pelo menos o que foi divulgado até o momento, não parece haver algum grande "complô do mal" contra liberdade de expressão.

O que veio à tona foi uma evisceração das políticas e práticas internas do Twitter, com ações tomadas por ex-funcionários preocupados com a integridade da plataforma.

Moderação é algo importante em qualquer rede social, mas é muito fácil se desviar do caminho, e excessos e arbitrariedades podem ter ocorrido.

De toda forma, a confirmação da existência de penalidades não avisadas a usuários (aka shadow ban) é algo notável.

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SHADOW BAN. Muito já se especulou na internet como funciona (ou até mesmo se realmente existe) a prática de shadow banning aplicada pelas empresas de redes sociais contra certos perfis. As novas revelações mostram que, pelo menos no Twitter, não há mais dúvidas sobre isso.

Internamente a prática era chamada de "Visibility Filter" (ou Filtro de Visibilidade, na tradução para o português).

Em um post de 2018 no blog do Twitter, dois altos executivos da empresa haviam afirmado não haver shadow banning. "As pessoas estão nos perguntando se praticamos shadow ban. Nós não praticamos", diz a primeira frase do texto.

COMO FUNCIONA. Segundo a jornalista Bari Weiss, que publicou em primeira mão os achados, o grupo que decidia a limitação dos perfis era o Strategic Response Team - Global Escalation Team (SRT-GET), lidando com cerca de 200 casos por dia.

O SRT-GET, aparentemente, era o grupo de moderadores de fato do Twitter, atuando para aplicar as políticas da plataforma.

GRUPO SECRETO. Mas, continua Weiss, havia ainda outro grupo, acima desse, de caráter "secreto" e composto pelos mais altos executivos da plataforma, operando sob o nome Site Integrity Policy, Policy Escalation Support (SIP-PES).

"É ali que as maiores e mais politicamente sensíveis decisões foram feitas", escreveu a jornalista.

QUEM FOI AFETADO? Ainda não se sabe ao certa a extensão total do shadow ban do Twitter, mas Weiss salientou alguns perfis (a maioria mais à direita do espectro político):

  • Dr. Jay Bhattacharya (@DrJBhattacharya), que disse que o lockdown na pandemia poderia prejudicar crianças. Ele ficou na "Trends Blacklist", que impedia seus tweets de virarem tendência na rede;
  • O influenciador de direita Dan Bongino (@dbongino), que foi colocado na "Search Blacklist", prejudicando os resultados de busca por seu perfil;
  • O ativista conservador Charlie Kirk (@charliekirk11), que recebeu o rótulo "Não amplificar";
  • O perfil @libsoftiktok.

TWITTER FILES. Essa é a segunda leva de revelações do Twitter Files e foi publicada inteiramente no Twitter por Weiss, que trabalhou no Wall Street Journal e no New York Times, e agora tem seu próprio veículo.

A primeira revelação, divulgada pelo jornalista independente Matt Taibbi, teve a intenção de mostrar como o Twitter suprimiu uma história sobre o filho do agora presidente dos EUA, Joe Biden, pouco antes das eleições presidenciais em 2020.

Essas revelações dividiram opiniões da imprensa estrangeira: por um lado foram criticadas por expor nomes e contatos de ex-funcionários do Twitter e por não mostrar novidades além do que já era conhecido, e por outro serviram de munição para a direita nos EUA acusar cerceamento de liberdade de expressão.

Texto Sérgio Spagnuolo
Arte Rodolfo Almeida
Edição Samira Menezes

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