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Perfis falsos estão usando anúncios da Meta para impulsionar vídeos e links do "golpe do saque social". A fraude circula desde o fim de outubro e mais de 240 anúncios do golpe já foram impulsionados no Facebook, no Messenger e no Instagram.

Nessas publis, golpistas sugerem que o governo federal teria liberado à população um novo benefício que paga cerca de R$ 3 mil. Em seguida, direcionam usuários a um site que imita a plataforma gov.br e cobram uma "taxa transacional" de até R$ 70 para o saque do valor "retido", a pretexto de "custos de transferência".


É importante porque...

Meta segue veiculando dezenas de anúncios fraudulentos do golpe do saque social, promovidos por perfis com poucos seguidores e recém-criados

Meta não tem uma política clara de verificação de anunciantes para prevenir fraudes e conta com as denúncias dos usuários para coibir atividades suspeitas

Golpistas usam vídeos para atrair usuários a páginas que imitam sites governamentais e enganam usuários no Facebook, Messenger e no Instagram


Novos anúncios da fraude seguem sendo criados diariamente, conforme consulta ao termo "saque social" na biblioteca de anúncios da Meta. Até 11. dez, mais de 130 seguiam ativos. No Reclame Aqui, dezenas de usuários relatam ter caído na fraude.

Mesmo pós ser contatada pelo Núcleo, a Meta não desativou as publis vinculadas ao golpe.

A plataforma não respondeu quais verificações adota para prevenir que anunciantes impulsionam golpes em suas redes sociais e pediu que os usuários denunciem atividades que considerarem fraudulentas.

Veja as perguntas que enviamos à Meta

1) Quais verificações de identidade a Meta faz antes de permitir que alguém anuncie em suas plataformas? Ou qualquer perfil anônimo pode impulsionar conteúdos nas redes da empresa?

2) Quais passos a Meta adota para prevenir que golpistas impulsionem conteúdo malicioso na plataforma e eventualmente removê-lo? Há proatividade neste rastreio ou a plataforma atua apenas com base em denúncias recebidas?

Em seguida, após o retorno da empresa, reforçamos um pedido de esclarecimento sobre como a Meta verifica a identidade de anunciantes, que não foi respondido.

Leia a resposta da Meta na íntegra

“Atividades que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidas no Facebook e estamos sempre aprimorando a nossa tecnologia para combater atividades suspeitas. Também recomendamos que as pessoas denunciem quaisquer conteúdos que acreditem ir contra os Padrões da Comunidade do Facebook e os Padrões de Publicidade da Meta através do próprio aplicativo".”, Porta-voz da Meta.

Adicionalmente, segue o passo a passo para denunciar uma publicação ou perfil por golpe ou fraude:

Para denunciar uma publicação no Facebook:

· Clique no canto superior direito da postagem;

· Clique em Denunciar publicação ou Denunciar foto;

· Selecione a opção que melhor descreva o problema e siga as instruções na tela.

Para denunciar um Perfil ou uma Página no Facebook:

· Vá para o Perfil ou a Página que deseja denunciar;

· No canto inferior direito da foto da capa, clique e selecione Denunciar;

· Siga as instruções na tela."

Páginas falsas que imitam plataformas governamentais são usadas para veicular anúncios fraudulentos
Anúncios impulsionados em redes sociais da Meta direcionam a páginas que imitam um chatbot do governo federal
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Não há atendimentos do gov.br via aplicativos de mensagens ou chatbots, segundo o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. A pasta orienta que a população consulte seus serviços digitais oferecidos somente por meio de canais oficiais.

PERFIS VAZIOS. Ao menos 44 páginas diferentes do Facebook foram usadas para veicular anúncios do golpe do saque social. Todas têm poucos seguidores e a maioria foi criada por volta de outubro.

Algumas publis caíram automaticamente porque o algoritmo da Meta considerou que o conteúdo carecia do rótulo de temática social. Segundo as estimativas disponíveis na biblioteca da empresa, os golpistas teriam gasto em média de R$ 100 em nesse tipo de anúncio, com alcance superior a mil usuários cada.

Além de imitar perfis governamentais, essas páginas também se passam por escritórios de advocacia, jornais, empresas de serviços financeiros e também por mulheres. Nos vídeos promovidos, pessoas não identificadas dão depoimentos de como descobriram o valor retido pelo governo e "ensinam" os usuários a como sacá-lo.

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Os vídeos anunciados mostram pessoas "ensinando" usuários a sacarem o suposto benefício e linkam para páginas enganosas

A Meta não esclareceu ao Núcleo qual tipo de verificação de identidade faz antes de permitir esse tipo de impulsionamento em suas redes sociais. A plataforma se limitou a dizer que está "sempre aprimorando" suas tecnologias no combate a "atividades suspeitas".

À reportagem, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, o responsável pela plataforma gov.br, disse que "já fez denúncia de sites semelhantes" e "fará uma nova comunicação para as autoridades competentes sobre estes novos casos".

Veja a íntegra da resposta do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos

1) Há alguma orientação do Ministério para ajudar cidadãos a não caírem em golpes que usem a marca e logotipo da plataforma Gov.br? Recomendamos aos cidadãos o uso do site ou aplicativo GOV.BR para verificar os serviços digitais oferecidos pelo governo federal, uma simples pesquisa pode ajudar a população a não cair em golpes. É importante acompanhar também as redes do @digitalgovbr no X, Instagram e LinkedIn. Nestes canais, a secretaria divulga todas as novidades do GOV.BR e os novos serviços ofertados. 

A Secretaria de Governo Digital informa, ainda, que não faz atendimento referente ao GOV.BR via aplicativo de mensagens e nem por meio de chatbot. Todo o atendimento em tempo real do GOV.BR é realizado na página gov.br/chat, por humanos. Além disso, o atendimento é realizado somente para dúvidas em relação à conta GOV.BR. Neste caso, é possível acessar o gov.br/conta e tirar suas dúvidas sobre a plataforma. 

Para complementar, lembramos que o Banco Central do Brasil disponibiliza o serviço “Valores a Receber”, cujas informações e contato da assessoria de imprensa constam na seguinte página: https://www.gov.br/pt-br/servicos/consultar-e-solicitar-a-devolucao-de-valores-a-receber

2) Quais medidas o Ministério da Gestão toma para evitar ou reprimir fraudes que envolvam a marca ou o uso da plataforma Gov.br? A Secretaria de Governo Digital reforça que utiliza o próprio GOV.BR, por meio de releases e páginas informacionais, e suas redes sociais para orientar a população. É importante a utilização dos canais oficiais do governo para conhecer os serviços digitais oferecidos e não cair em golpes. 

Em relação às fraudes, a secretaria esclarece que já fez denúncia de sites semelhantes e informa que fará uma nova comunicação para as autoridades competentes sobre estes novos casos. O contato e o trabalho em conjunto da secretaria com essas outras instituições é constante para evitar fraudes.

Golpistas usaram "anúncios dinâmicos" para enganar usuários
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Segundo a Meta, anúncios dinâmicos podem ser usados para o "redirecionamento de público amplo para alcançar as pessoas que talvez não tenham visitado o seu site ou aplicativo anteriormente".

FRAUDE PAY. Na hora de cobrar uma "taxa transacional" dos usuários, os depósitos para as páginas golpistas direcionam para contas de ao menos duas intermediadoras de pagamento, Pepper e Abmex.

No Reclame Aqui, ambas as empresas são alvo de dezenas de reclamações de usuários que caíram na fraude e pedem estorno. Nas páginas de respostas, a reportagem verificou que muitos desses usuários tiveram o pagamento feito aos golpistas devolvido por estas empresas de pagamento.

À reportagem, a Pepper disse que bloqueou "o produtor e o produto" relacionados à fraude. A empresa também disse não ser responsável pelos produtos ofertados por meio de sua plataforma, que funciona de forma equivalente à de uma "maquininha" de cartões de crédito, mas afirmou estar à disposição das autoridades para fornecer os dados cadastrais usados pelos golpistas.

Já a Abmex disse que "apenas participou do ato negocial, todavia não integrou a relação obrigacional específica de compra e venda do produto". Em nota, a empresa afirmou que "sua obrigação limita-se a intermediar o pagamento, ou seja, receber os valores da Autora/Consumidor" e "reter o montante por prazo certo e determinado".

Página fraudulenta cobra uma taxa que varia entre R$ 50 e R$ 70
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Em vídeo anunciado na Meta, golpista diz que "não acreditou" no suposto saque social até ver o marido sacar o valor

Veja a íntegra da resposta da Pepper

A Pepper informa que é uma plataforma de pagamento online que permite a comercialização de infoprodutos e serviços digitais por terceiros, esclarece que sua atuação se restringe à intermediação de transações. A atividade empresarial é equivalente à exercida por uma “maquininha” de cartão de crédito, instrumento de pagamento das transações realizadas em lojas físicas.

Recentemente, a empresa tomou conhecimento de atividades fraudulentas envolvendo terceiros de má-fé e agiu prontamente bloqueando o produtor e o produto relacionados ao mencionado golpe, tendo em vista que repudia veementemente tais práticas.

É importante ressaltar que a Pepper não possui gerência sobre os produtos oferecidos, sendo responsável apenas pelo processo de "checkout". O website mencionado (https://mundoconectado.site/bemvindo/ e https://mundoconectado.site/dados/?cpf=77098562092) não estão hospedados em nossa plataforma e não possuem qualquer relação com a empresa, sendo de propriedade e administração exclusiva de terceiros.

Com relação aos dados cadastrais solicitados, por se tratarem de informações sigilosas, a Pepper destaca que estará à disposição das autoridades, caso seja necessário fornecer os dados.

A empresa possui uma equipe antifraude dedicada a rastrear e bloquear produtos digitais que violam os termos de uso, reafirmando seu compromisso com a segurança e a integridade das transações em sua plataforma e repudia qualquer tipo de golpe.

Por fim, a Pepper afirma que está à disposição para esclarecer dúvidas e fornecer assistência aos consumidores."

Veja a íntegra da resposta da Abmex

Como uma startup relativamente jovem com apenas três anos de operação, a Abmex tem experimentado um crescimento significativo e, consequentemente, temos trabalhado incansavelmente para aprimorar nossos processos de atendimento e serviço ao cliente. Estamos comprometidos em oferecer a melhor experiência possível aos nossos usuários e estamos constantemente otimizando nossos procedimentos para garantir um serviço de qualidade.

Entre as iniciativas recentes para fortalecer nossos padrões operacionais, destacamos a implementação da ouvidoria, a atuação proativa em compliance e a implementação de melhorias no processo de suporte. Essas medidas foram adotadas com o objetivo de elevar a qualidade do atendimento e endereçar as preocupações dos nossos usuários de maneira mais eficaz.

Além disso, é importante destacar que, como uma startup em ascensão, ainda estamos construindo nossa identidade no mercado. Sabemos que essa falta de reconhecimento pode gerar equívocos quanto ao nosso papel, motivo da grande maioria das reclamações.

Para esclarecer, os clientes das empresas que contratam a Abmex entram em contato conosco, o gateway de pagamento, para resolver questões relacionadas à entrega de seus produtos, por exemplo. Mesmo quando se trata de responsabilidades da empresa vendedora, nos colocamos à disposição para ajudar a solucionar essas e outras eventuais questões em um prazo de 48 horas, caso a empresa não retorne o contato com o cliente final.

De acordo com o inciso VIII, do artigo 2º, do Regulamento anexo à Circular do Banco Central nº 3.682/2013, atividade empresária exercida pela Abmex é definida como subcredenciamento, senão vejamos:

VIII - subcredenciador: participante do arranjo de pagamento que habilita usuário final recebedor para a aceitação de

instrumento de pagamento emitido por instituição de pagamento ou por instituição financeira participante de um mesmo

arranjo de pagamento, mas que não participa do processo de liquidação das transações de pagamento como credor perante o emissor. (Incluído pela Circular do Banco Central nº 3.886, de 26/3/2018.)

A atividade desenvolvida pela Abmex consiste em uma ferramenta tecnológica cuja função é realizar a gestão de meios de pagamento e recebimento online e gerenciar os referidos pagamentos e recebimentos. Apenas para ilustrar e esclarecer a forma como a ABMEX (Abmex) atua, convém colacionar demonstrativo abaixo mostrando o fluxograma da plataforma de pagamentos:

Desta forma, sempre que o vendedor disponibilizar o sistema de recebimento de pagamento da Abmex a um comprador, estará nomeando a Abmex como seu fiel depositária para receber o pagamento em nome do vendedor, devendo a Abmex, para o fiel cumprimento desse mandato, empregar a melhor técnica e tecnologia com vistas à preservação dos direitos e interesses do vendedor.

Logo, evidente que a Abmex em questão não participa da cadeia de consumo, pois apenas participa do arranjo de pagamento, somente intermediando o pagamento entre o produtor/Co-produtor e o consumidor final, em outras palavras, desenvolve atividade parecida com uma máquina de cartão de crédito.

De um lado, temos que a Abmex apenas participou do ato negocial, todavia não integrou a relação obrigacional específica de compra e venda do produto. Sua obrigação limita-se a intermediar o pagamento, ou seja, receber os valores da Autora/Consumidor, reter o montante por prazo certo e determinado.

Agradecemos pela oportunidade de esclarecer esses pontos e reafirmamos nosso compromisso em aprimorar constantemente nossos serviços para proporcionar a melhor experiência possível aos nossos usuários.

Estamos abertos ao diálogo e disponíveis para fornecer informações adicionais, se necessário.

Att.

COMO FIZEMOS ISSO

Após consulta à biblioteca de anúncios da Meta, o Núcleo usou os filtros de busca da página para verificar as quantidades de publis, os perfis anunciantes e, em alguns casos, consultar dados genéricos da veiculação do anúncio, como estimativa de valor gasto ou da quantidade de usuários atingidos.

Em seguida, a reportagem refez a "jornada" da vítima que visualiza esse anúncio em uma rede social da Meta e clica no link patrocinado para identificar quais as páginas fraudulentas e verificar quais contas bancárias são recipientes do dinheiro.

Por fim, contatamos governo federal, Meta e meios de pagamento ligados à fraude para tentar entender quais vulnerabilidades levaram à facilidade com que golpistas impulsionaram páginas fraudulentas no Facebook, Messenger e Instagram.

Reportagem Pedro Nakamura
Arte Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico

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Texto atualizado em 15.dez.2023 às 9h30 para incluir uma nota enviada pela Abmex. A reportagem havia sido publicada sem o posicionamento da empresa.

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