A cada clickbait do seu site um panda morre na China

Caça-clique no jornalismo perdura há uma década e ainda permeia sites de notícia, minando a credibilidade do jornalismo

O jornalismo – e não apenas o brasileiro, diga-se – sofre de uma doença crônica chamada clickbait, que nada mais é do que colocar títulos enganosos e escalafobéticos em uma publicação que à primeira vista promete muito e entrega pouco ou nada. O famigerado caça-clique.

Esse é um problema do jornalismo digital discutido há pelo uma década e que, por motivos comerciais, até agora continua a permear sites de notícia a torto e a direito e a prejudicar a credibilidade do jornalismo como um todo. O debate foi bem mais forte lá pros idos 2015-18, quando o Facebook ainda era uma plataforma útil para distribuição de notícias, e agora é bem menos discutido nas rodas de jornalismo.

Mas o problema não foi embora.

Existe um abismo intransponível entre um bom título e um clickbait. Bons títulos podem ser atraentes e até chamativos, mas no fim o jornalismo que representam é bom e informativo, ao passo que clickbaits são traiçoeiros e envelopam um conteúdo frequentemente pobre e insatisfatório.

Tenho vergonha alheia de colocar esse exemplo de título aqui, mas vamos lá:  

A impressão que qualquer ser humano do mundo teria ao ler esse título (do site TV Foco) é que uma participante do reality show Big Brother Brasil 2022, ou seja, da edição atual, teve um AVC e morreu, certo?

Mas ao clicar nesse link a pessoa vai pra um conteúdo que leva na direção oposta: o atual reality atual está sem novidades e as anteriores que foram interessantes, como naquele caso do AVC de uma participante em 2005.  

Essa nojeira nada mais é do que pura lógica comercial.

Publicações orientadas somente por volume de audiência recorrem a manchetes chamativas para fazer o leitor ocasional clicar naquele link esperando uma grande revelação, mas no fim é apenas um grande amontoado de palavras empilhadas, que nada informam ou acrescentam. É a antítese do jornalismo.

O leitor vai embora irritado, decepcionado ou indiferente e a publicação ganhou uma fração de centavo com aquele par de olhos que viu um ou dois anúncios do Google Ads ou redes publicitárias afins. Repita isso milhões de vezes e dá pra ganhar uma boa grana, ainda mais se o post receber um empurrãozinho de notificação push do Google, como foi o caso do bait desonesto acima.

A lógica de volume de audiência é conhecida em inglês como eyeballs, ou, em tradução literal, "globos oculares". Trata-se de um conceito grosseiro que trata leitores e leitoras como commodity, mas nesse caso seu emprego é perfeito, porque é exatamente isso o que as publicações fazem com clickbait: reduzem seus leitores ao par de olhos que têm.

Reduzem também seus jornalistas e colaboradores.

Em 2015, uma reportagem da Columbia Journalism Review revelou que a Slant, uma já extinta publicação alimentada por eyeballs, pagava a seus jornalistas US$100 (cerca de R$530 no câmbio atual) fixos por mês e então US$5a cada 500 clicks que seus artigos recebiam.

Em vez de priorizar por qualidade, a prioridade passou a ser a publicacão de conteúdos chamativos, irrelevantes e, frequentemente, desinformativos. Claro, é o que dava dinheiro.

Não é à toa que a Slant fechou as portas em 2016, assim como o Gawker, que foi à falência após perder um processo judicial milionário por divulgar o vídeo de uma subcelebridade americana tendo relações sexuais com a esposa de seu melhor amigo.

Muitos veículos brasileiros, grandes e pequenos, seguem essa lógica -- especialmente, mas não apenas, aqueles orientados pra fofocas e notícias de celebridade. As redes sociais ajudam a recompensar esse tipo de material com engajamento e impressões, tendo em vista que muita gente não clica em links, só lê a manchete.

E os links caca-cliques não apenas perduram como florecem, disfarçados de notícia, prontos para o próximo leitor inadvertido.


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