Elon Musk quer o Twitter
Arte: Rodolfo Almeida

Seria tudo isso apenas mais uma trolagem de Musk?

[Texto especial do Manual do Usuário para o Núcleo]

Deve ser monótona a vida da pessoa mais rica do mundo. O que fazer quando se pode tudo? Elon Musk, empresário sul-africano radicado nos Estados Unidos, ocupa o posto no momento, com uma fortuna estimada pela revista Forbes em US$ 260 bilhões (~R$ 1 trilhão).

Musk comanda empresas visionárias, como a SpaceX e a Tesla, o que já seria trabalho suficiente, mas ainda assim encontra tempo para atividades mundanas, como chamar de pedófilo (sem provas) um voluntário que trabalhava para resgatar crianças perdidas na Tailândia e tweetar memes de extrema-direita.

Esse último passatempo ocupa parte considerável dos dias de Musk que, de tanto postar, passou a enxergar muitos defeitos no Twitter.

Ele confia demais em si mesmo e tem dinheiro de sobra para passar da lucubração, do “e se…”, para a prática. Pessoas com autoestima elevada, entusiasmadas e com dinheiro de sobra sempre disparam um sinal de alerta.

Foi assim que, tal qual o proverbial menino mimado dono da bola, ou que quer sê-lo, no início de abril Musk começou sua investida para tornar-se dono do Twitter.

No dia 4 de abril, Musk declarou ter adquirido 73,5 milhões de ações do Twitter nos últimos três meses num valor de US$ 2,9 bilhões. O volume representa 9,2% da empresa. Musk tornou-se, com isso, o maior acionista único do Twitter.

Elon Musk compra 9,2% do Twitter
Ações do Twitter dispararam ~26% no pré-mercado após o anúncio do negócio.

No dia seguinte, 5 de abril, Musk foi apontado para o conselho de administração do Twitter, o que lhe daria poderes para ditar, junto a outros dez conselheiros, os rumos da empresa (o conselho é uma espécie de “chefe do CEO”), mas impunha um teto à propriedade de ações, de até 14,9%.

Quase uma semana depois, com seu nome já no site de relações com investidores do Twitter, no dia 11, quando estava previsto para assumir seu assento, Parag Agrawal, CEO do Twitter, anunciou que Musk não faria mais parte do conselho.

A desistência teria sido do próprio Musk, mas causou estranhamento a citação, no comunicado de Agrawal, da “verificação do histórico” do empresário. Isso costuma ser mera formalidade e, à primeira vista, a menção ali pareceu fora de contexto. Ninguém sabe ainda os bastidores dessa mudança de curso.

Deve estar relacionada com a notícia desta quinta (14.abr), de que Musk enviou à Securities and Exchange Commission (SEC, espécie de CVM dos Estados Unidos) uma proposta de aquisição hostil de 100% do Twitter por US$ 43 bilhões, ou US$ 54,20 por ação, um prêmio de 54% sobre o preço na véspera de quando começou a adquiri-las, em 28 de janeiro.

[O Twitter] não irá prosperar nem servir ao imperativo social [da liberdade de expressão] em sua forma atual. Precisa ser transformado como uma empresa privada
- Elon Musk, em comunicado à SEC

E deu um ultimato: “Se o negócio [aquisição] não funcionar, visto que não tenho confiança na diretoria nem acredito que consiga fazer as mudanças necessárias no mercado aberto, precisaria reconsiderar minha posição como acionista.”

Em paralelo, Musk está sendo processado pelo investidor Marc Bain Rasella por não ter declarado a compra das ações do Twitter quando atingiu 5% do total delas, uma obrigatoriedade pela lei norte-americana que, ao ser negligenciada, lhe permitiu continuar comprando ações a valores mais baixos e, ao mesmo tempo, prejudicar outros acionistas que negociaram ações nesse intervalo.

O que vem por aí?

Musk faz parte de um clube de bilionários que têm um entendimento torto de liberdade de expressão.

Em sua cruzada contra o “politicamente correto” (seja lá o que isso signifique para ele), está acompanhado de gente como Marc Andreessen, que tem investido pesadamente em startups de criptoativos, e Peter Thiel, fundador do PayPal e da Palantir, financiador de políticos de extrema-direita e sugador de sangue de jovens.

No breve período em que está acionista do Twitter, Musk deu várias ideias na forma de enquetes, algumas operacionais e que até fazem algum sentido, como incluir um botão de editar posts (algo em que o Twitter já vinha trabalhando) e dar selos de verificação a usuários pagantes, até as mais malucas provocações infantis, como tirar o “w” do nome “Twitter” ou transformar a sede do Twitter em abrigo para pessoas sem-teto, numa crítica não tão velada ao trabalho remoto tornado permanente na empresa durante a pandemia.

Logo quem: uma das pouquíssimas pessoas do planeta que poderia resolver a questão — ao menos em São Francisco — sozinha e que, ainda assim, continuaria sendo a pessoa mais rica do mundo por larga margem.

É impossível saber agora se a proposta de aquisição hostil de Musk será vitoriosa. Mais nebulosa ainda é a visão do que seria o Twitter sob as rédeas de Musk.

E, claro, como todo bom hipócrita, a liberdade de expressão só vale quando preservá-la não o afeta pessoalmente. Se funcionários da Tesla reclamam ou um adolescente rastreia o avião particular de Musk usando dados públicos, aí não pode.

De qualquer forma, esse é um problema para o futuro próximo. No momento, o Twitter tem uma dor de cabeça maior: decidir o que fazer.

Se aceitar a proposta de Musk, subjuga a empresa aos caprichos de alguém excepcional nos negócios, mas sem tato algum no social — o que poderia ser desastroso para o Twitter, que anda numa corda bamba desde sempre.

Se recusar, é bem provável que o valor das ações derretam com a venda da cota de Musk e o carimbo de empresa sem futuro do homem mais rico do mundo.

Há quem ache que a proposta é descabida e será recusada — Scott Galloway, que fez tal diagnóstico, também é acionista do Twitter. Seria tudo isso apenas mais uma trolagem de Musk?

Texto Rodrigo Ghedin
Edição Alexandre Orrico


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