Twitter nunca foi perfeito, mas Musk faz questão de piorá-lo
Arte: Rodolfo Almeida

Com Twitter Files, Musk que atacar administração anterior. Se quisesse mesmo transparência, ele também mostraria como está a rede agora

Sempre tive uma relação ambivalente com o Twitter: é minha rede de preferência, a primeira que eu vejo pela manhã e a última que checo antes de dormir. É a rede dos jornalistas e do jornalismo.

É também a rede que me irrita profundamente ao ver pessoas fazendo praticamente de tudo (plágio, piada escrota, desinformação) pra ganhar engajamento e a rede que ajudou a bombar a extrema-direita no Brasil, e em outros países. É a rede em que perfis de esquerda agora assumiram o papel de guerrilha digital antes explorado principalmente pela direita, e acham isso legal.

Mais recentemente, no entanto, transformou-se na rede cujo novo dono – Elon Musk, tentando ser o bonitão da liberdade de expressão e da moral – tem constantemente destruído as últimas coisas que davam alguma dignidade a essa ferramenta.

O Twitter, sabe-se, nunca foi a empresa perfeita.

Lá nunca houve falta de desinformação, discurso de ódio e divisionista, falta de transparência com algumas decisões, falta de investimento em (e valorização de) jornalismo sério, entre outras coisas. Certamente decisões muito ruins e danosas foram tomadas ao longo dos últimos 16 anos.

Mas uma coisa havia no Twitter: equipes que olhavam para vários aspectos técnicos, de negócio e de impacto, funcionários sérios que se importavam com a repercussão que a rede tinha. Havia equipe de comunicação, de diversidade, moderadores de conteúdo. Tudo isso foi obliterado.

No Núcleo, fizemos diversas reuniões com a boa equipe de comunicação que havia aqui no Brasil. Independentemente se atendiam ou não a demanda da imprensa, as pessoas pelo menos se importavam. Existia um senso de responsabilidade. Agora, aparentemente, nem mais equipe de comunicação existe nessas bandas.

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Musk pode até estar fazendo algumas coisas bacanas em relação ao produto Twitter (há muitas divergências) e até sobre transparência do que já aconteceu na rede social antes dele, mas a plataforma virou um brinquedo para ele fazer e falar o que quiser, sem nenhuma consideração para potenciais efeitos.

Eis uma lista das maiores presepadas arbitrárias de Musk (não vou falar de produto, e sim de políticas corporativas):

  • Demissão de pelo menos 64% dos funcionários da plataforma (incluindo Brasil), exigindo trabalho extra de quem ficou, e volta aos escritórios sem muito tempo de adaptação;
  • Obliteração das equipes de moderação de conteúdo, de comunicação e de diversidade;
  • Bloqueou o IP de 30 empresas de telecom da Ásia sob pretexto de banir bots, deixando milhares de usuários autênticos sem acesso a suas contas;
  • Dissolveu o Conselho de Confiança e Segurança (Trust and Safety), formado em 2016 com membros da sociedade civil, grupos de direitos humanos, entre outros;
  • Fez doxxing e acusações infundadas sobre o ex-chefe de segurança do Twitter, Yoel Roth, a ponto de ele ser forçado a deixar sua casa após ameaças. Também perseguiu a ex-chefe jurídica da plataforma, Vijaya Gadde.

DOXXING

De todos os casos, o que me incomoda mais é a perseguição contra Roth.

Não que Roth seja um anjinho que nunca errou, mas a perseguição de Musk contra ele é tão direcionada, brutal e desinformativa que chega a me dar embrulho no estômago. É o tipo de coisa que a internet permite constantemente, e que o Twitter sempre refletiu: tirar assuntos delicados de contexto, simplificá-los e transformá-los em armas.

Roth, além de suas atribuições anteriores no Twitter, é um pesquisador. Ele tem, inclusive, doutorado pela Universidade da Pensilvânia, cuja dissertação Gay Data aborda o uso de aplicativos de relacionamentos gays como o Grindr.

É assim que Roth descreve seu trabalho: "...argumento que esses serviços constituem um local importante para examinar como corpos, identidades e comunidades são traduzidas por dados, assim como dados se tornam uma ferramenta para formar, compreender e gerenciar relacionamentos pessoais".

Musk pegou um pequeno trecho dessa dissertação (íntegra aqui) para dar a entender que Roth advoga pela sexualização de menores.

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Na verdade, na passagem, Roth diz que como adolescentes vão utilizar esses apps de uma forma ou de outra, em vez de ostracizá-los ou bani-los "os fornecedores de serviços deveriam se focar em estratégias de segurança que possam acomodar uma ampla variedade de casos de uso para plataformas como Grindr – inclusive, possivelmente, seu papel em conectar com segurança jovens adultos queers."

Ele advoga por medidas de segurança para casos que continuarão acontecendo independentemente de qualquer política ou direção corporativa ou até legal. Seria o equivalente a hospitais receberem e tratarem mulheres que passaram por aborto proposital: em vez de deixar essas mulheres desamparadas, criar políticas acolhê-las e tratá-las, porque abortos vão continuar a ser feitos.

E isso nos leva aos chamados Twitter Files – comunicações e práticas internas divulgadas de maneira bizarra pelo Twitter sob orientação de Elon Musk, em parceria com alguns jornalistas.

Apesar de serem relevações dignas de notícia, o peso dado a eles parece muito maior do que realmente deveria.

Pela repercussão, parece que Roth e outros executivos da empresa são grandes monstros criminosos, mas o que o Twitter Files realmente mostra (com prints, inclusive) são complicados e difíceis processos de decisão, que podem muitas vezes ter falhas e injustiças – e Roth de fato liderou esses processos.

Vamos partir das principais alegações:

  • Twitter fazia shadow banning (ou filtro de visibilidade);
  • Executivos do Twitter tinham contato com FBI;
  • Executivos do Twitter são acusados de censura, especialmente no bloqueio do ex-presidente dos EUA Donald Trump;
  • Supressão de figuras de direita.

PRIMEIRO CASO: SHADOW BANNING. É bem relevante pois a empresa sempre negou que fizesse isso, mas é algo que de fato acontecia. Esse foi o único tópico do Twitter Files que o Núcleo achou que valia a pena cobrir.

SEGUNDO CASO: FBI. É preciso ser inocente pra achar que as maiores e mais relevantes empresas dos Estados Unidos não se comunicam e colaboram com autoridades policiais. Isso acontece no muito inteiro e não é novidade, não tem porque achar que seria diferente com o Twitter.

TERCEIRO CASO: SUSPENSÃO DE TRUMP. Eu não vou entrar no mérito da decisão de retirar Trump do Twitter, se foi certo ou errado. Mas pelo próprio Twitter Files fica claro que houve deliberação e discussões internas, com pressão de funcionários e também externa.

QUARTO CASO: SUPRESSÃO DA DIREITA. Uma coisa tem que ficar claro: a direita, e até a extrema-direita, sempre tiveram muita liberdade no Twitter. Trump, Bolsonaro, Carla Zambelli, Filipe Martins e companhia sempre beberam nessa fonte e floresceram com ela.

O que aconteceu é que o ataque de 6.jan.2021 ao Capitólio foi um divisor de águas. Não dava pra ficar sem fazer nada.

As alegações infundadas de fraude eleitoral nos EUA geraram violência de fato com o objetivo declarado de subverter a democracia. Não foi só o Twitter que entrou nessa, outras redes sociais e serviços online também.

Se abusos e erros foram cometidos ou não contra contas específicas, isso aconteceu como consequência de uma insurreição que invadiu o principal símbolo da democracia norte-americana.

Além disso, o Twitter não é um serviço público bancado com dinheiro do contribuinte e sujeito às mesmas regras de estatais e ministérios. É uma empresa que tem regras privadas – tanto antes quanto agora. Gettr, Parler e outras redes usadas pela direita podem fazer o mesmo.

De toda forma, as regras e medidas foram, ao menos, deliberadas internamente no Twitter. Um grupo pequeno poderia decidir coisas importantes, mas havia conversa, inclusive registrada e vindo à tona no Files. Ao passo que, agora, são ordenadas por uma só pessoa, via Twitter, sem qualquer critério ou deliberação.

Musk restituiu o rapper Kanye West, que foi suspenso após fazer comentários anti-semitas nas plataforma. Pouco depois, West tuitou uma imagem com uma suástica. Foi apenas a vontade do dono, sem conversa.

O Twitter Files mostra a preocupação de Musk em atacar a administração anterior. Se fosse transparência o interesse, ele também mostraria como está a empresa agora: quantos funcionários fazem moderação, quanto investe em segurança, quais as políticas de remoção que ele vai implementar, o que vai acontecer com bots do bem, como vai lidar com problemas ainda existentes de desinfomação e discurso de ódio. Só olhar pra trás não é transparência integral.

Eu não estou defendendo o Twitter de antes, ou Roth, ou qualquer um, mas não dá pra achar que é OK o que Musk está fazendo agora nessa rede social.


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