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Há exatamente um ano, Elon Musk tornava-se o dono do Twitter. Literalmente. O empresário pagou US$ 44 bilhões pela empresa inteira e prometeu transformar a rede em uma espécie de “super app”, ou — como ele diz — um “everything app”.

Um ano é pouco tempo, é verdade, mas a essa altura era de se esperar pelo menos sinais de que uma virada positiva está em curso ou é possível. Os sinais existem, mas no sentido contrário.

Em um ano sob o controle de Musk, o Twitter se deteriorou, ficou irreconhecível. Não só pela troca de nome, para um “X” sem sentido. Vimos em tempo real, dia após dia, o desmonte impiedoso de uma empresa querida, de muito do que foi construído em quase duas décadas.

Musk fez fortuna com startups na virada do milênio e, mais tarde, tornou-se a pessoa mais rica do mundo com a disparada do valor de mercado da Tesla, montadora que ele co-fundou, dirige e que deu a largada à eletrificação dos automóveis, o novo autoengano da indústria no combate à emergência climática.

Os negócios de Musk (ele também é CEO da SpaceX e dono da The Boring Company), até então, meio que blindavam ele do grande público. Vazava apenas a imagem do gênio empresário tomando decisões de negócio arrojadas, por vezes impiedosas, mas que resultavam em soluções inovadoras, futuristas e, mais importante, lucrativas.

Sejamos justos: só alguém muito louco, ingênuo ou genial (ou as três coisas) para fazer apostas simultâneas em carros elétricos e na exploração espacial privada, no início dos anos 2000, e ganhar ambas.

Só que o Twitter é um negócio diferente. Os posts rápidos para uma plateia enorme, com poder de retrucar, amplificar e, às vezes, massacrar o mensageiro, expõem a alma de quem se deixa consumir por essa dinâmica. É um vício. Twitter é o crack digital; Musk é um viciado em Twitter.

Isso vem de antes da aquisição. Algumas das maiores polêmicas em que o empresário se meteu aconteceram na forma de posts irresponsáveis no Twitter.

Como quando chamou (sem provas) de pedófilo um mergulhador envolvido no resgate de meninos presos em uma caverna na Tailândia, ou anunciou que tinha dinheiro para fechar o capital da Tesla (não tinha).

O pragmatismo rude de Musk pode até funcionar para construir carros e foguetes, mas não serve para comunicação e discurso. E o Twitter, antes de ser uma empresa de tecnologia, é uma empresa que promove(ia) relações entre pessoas.

Havia coisas ruins no velho Twitter? Sem dúvida. O Twitter fez e faz sucesso a despeito da direção da empresa. Sempre foi assim, ainda é. Mas, como dizem por aí, nada é tão ruim que não possa piorar.

Listar os desastres da gestão Musk é inviável, deixaria este texto quilométrico. Pesco apenas dois dos mais notórios para fins ilustrativos.

O selo de verificação era emblemático dos problemas do velho Twitter: confuso, incerto, mas em alguma medida funcional. No mínimo, servia para distinguir pessoas de alta visibilidade.

Musk transformou o selo em produto barato. Qualquer um pode tê-lo, basta pagar R$ 42 por mês. Ao virar produto e incorporar uma espécie de “turbo” no algoritmo do Twitter, o sentido do selo se perdeu. Quando passou a ser uma fonte de receita baseada em viralização, o selo virou uma arma.

Hoje, muitos pagam pelo selo para amplificar discursos raivosos e desinformação. Uma pesquisa recente da NewsGuard, por exemplo, descobriu que 74% dos posts mentirosos virais relacionados ao conflito entre Israel e o Hamas foram publicados por perfis verificados.

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Chega a ser engraçado que um dos benefícios da assinatura paga do Twitter, lançado não faz muito tempo, é esconder o selo de verificação no perfil.

O outro desastre foi o da publicidade, que antes de Musk trazia ~US$ 5 bilhões por ano ao Twitter. Muito? Pouco? Tudo é relativo, mas era uma grana que pagava as contas.

O êxodo do mercado publicitário, que é sensível a polêmicas, não foi à toa. Musk readmitiu extremistas, nazistas e outros tipos banidos do Twitter, gente que até então só encontrava espaço nas franjas da sociedade digital.

Nenhuma empresa séria quer correr o risco de ver sua marca ao lado desse tipo de conteúdo.

Com todas as suas falhas, ou talvez por causa delas, o antigo Twitter era uma espécie de alvo da política institucional mais estridente, que vive de brigar com moinhos de vento, dos Trumps e Bolsonaros da vida.

Musk é só mais um desses extremistas barulhentos, provocadores. O que o diferencia dos outros é que ele tem muito dinheiro.

O novo Twitter, ou X, é a realização plena das ideias amalucadas da galera que enxerga pêlo em ovo, uma distopia reacionária sem espaço para nuances, onde o dinheiro se sobrepõe a tudo — exceto ao próprio Musk.

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