Grupos de esquerda ainda ralam para fazer barulho nas redes
Arte: Rodolfo Almeida

Movimentos populares costuram esforço de articulação para ocupar redes com campanhas coordenadas, tática frequente de grupos de direita, que conseguem fazer mais barulho do que adversários políticos

Na quarta-feira passada, 15.set, grupos e figuras da esquerda se organizaram em torno de publicações -- memes, manchetes e artes gráficas -- com a hashtag #BolsonaroLadrão, parte de uma campanha de desafios nas redes com duração de 21 dias organizada pelo Projeto de Articulação de Redes, que dialoga com movimentos populares, centrais sindicais e partidos.

Poderia ser apenas mais uma campanha de pauta política nas redes, mas digno de nota aqui é o reconhecimento da esquerda da estratégia, muito mais comum na direita, de criar ações coordenadas em escala para chamar a atenção – chegando aos trending topics ou com adesão de figuras públicas e influenciadores.

Esse tipo de ação é muito mais frequente nas conversas em torno do presidente Jair Bolsonaro e das pautas defendidas por ele – a exemplo de pedidos de impeachment de ministros do Supremo, defesa em meio a polêmicas, etc. Em janeiro de 2020, o Núcleo mostrou a partir de uma análise de dados como uma campanha da direita nasce no Twitter.


É importante porque…

  • Mostra um esforço coordenação de campanha online por uma organizações de esquerda, que usualmente têm mais dificuldade de pautar debate nas redes do que grupos de direita

A campanha de quarta-feira de fato chegou as trending topics do Twitter com a aderência de figuras políticas como o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) e o deputado Marcelo Freixo (PSB-RJ) e de grupos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

A campanha ocorreu no Whatsapp, Instagram, TikTok e Twitter, disse um porta-voz do projeto de Articulação de Redes ao Núcleo por email.

A ação, embora não tenha sido um fracasso, tampouco pode ser chamada de um grande hit que furou bolhas e pautou o debate.

A pauta em boa parte ficou dispersa, com assuntos que variaram de mortes durante a pandemia até uma brincadeira sobre as coxas do ex-presidente Lula. Além disso, pelo menos no Twitter, a pauta teve contração relativamente alta (índice de Gini de 0.57), mas poucos tweets únicos, indicando baixa adesão geral.

Uma busca na API do Twitter para os últimos 7 dias retornou somente  8.198 tweets únicos (ou seja, exclui RTs), que renderam apenas 23.068 retweets – o maior deles de Guilherme Boulos, com pouco mais de 1k.

No Facebook foram identificados somente 638 posts de páginas, grupos abertos e perfis verificados com essa hashtag no mesmo período, num total de 28,3 mil interações, indicando baixa adesão por lá. No Instagram foram 93 publicações, com 131,6 mil interações. Os dados são da ferramenta CrowdTangle.


INÍCIO DA CAMPANHA

“Iniciamos e finalizamos a campanha com um tuitaço e em ambos alcançamos o primeiro lugar nos TTsBR com apoio de diversos perfis e com adesões espontâneas. O MST, assim como o perfil do Guilherme Boulos, GregNews entre outros, tem uma grande referência nas redes e acaba tendo mais visibilidade que os demais”, explicou.

As artes gráficas, que foram disponibilizadas publicamente em um link no Google Drive, são assinadas pelo Projeto de Articulação de Redes, que se define como "inciativa dos movimentos populares com o objetivo de incentivar a atuação da militância nas redes, contribuir na organizar ações nas redes e na articulação do campo progressista com a linha mestre de fazer a disputa ideológica neste terreno de forma qualificada".

Contas suspensas
A conta principal do grupo [@ArticulaRedes] atualmente está suspensa por violar as políticas de uso da plataforma, segundo a mensagem exibida na tela. A ação da plataforma, que atingiu também outros coletivos e militantes, ocorreu após o ato de 7 de setembro, informou o projeto ao Núcleo. De acordo com o jornal Brasil de Fato, ao menos 14 contas foram derrubadas.

Segundo o porta-voz do Projeto, a suspensão envolveu também “contas de militantes que não atuaram de forma massiva nas redes no #7SForaBolsonaro/#ForaBolsonaro”.


“Vimos essa atitude como uma forma de censura, um movimento feito para calar a esquerda na plataforma. Nenhum dos envolvidos obteve resposta ainda e as contas seguem suspensas” disse o projeto em email ao Núcleo.

Em resposta a questionamento feito pelo Núcleo, o Twitter informou que “as contas suspensas sofreram essa medida por violação à nossa política contra spam e manipulação da plataforma, especificamente o seguinte trecho: você não pode amplificar artificialmente ou prejudicar conversas pelo uso de várias contas ou ao combinar com outras pessoas de violar as Regras do Twitter.”

A ação do Twitter se referiu ao 7 de setembro.

Reportagem Laís Martins
Colaboração Lucas Lago
Edição Sérgio Spagnuolo

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