No Twitter, cientistas preencheram vácuo de informações na pandemia

Relatório mostra como profissionais ciência foram reativos ao noticiário para atender a demandas em episódios centrais da pandemia

Municiados de suas contas no Twitter, cientistas brasileiros ajudaram a preencher um vácuo de informações qualificadas relacionadas à pandemia em 2021 deixado pelo Ministério da Saúde e outros órgãos públicos em qualquer nível de governo, fornecendo análises e esclarecimentos em momentos de grande interesse público relacionados à crise sanitária e fazendo contraponto a políticas públicas por vezes confusas ou falhas.

Uma análise do Science Pulse, projeto do Núcleo de monitoramento da ciência nas redes, sugere que profissionais da ciência foram, principalmente, reativos ao noticiário e a eventos importantes em 2021, aquecendo o debate e conquistando alto engajamento para atender a demandas por informação sobre covid-19, campanha de vacinação e até temas políticos.


É importante porque…
  • Ressalta a demanda da população por informação clara e confiável sobre a covid-19.
  • Destaca a participação da audiência na construção da comunicação científica nas redes sociais.
  • Demonstra adaptabilidade por parte de divulgadores e comunicadores científicos para somarem, com expertise, aos assuntos em pauta no momento.

>> LEIA TAMBÉM: Como a ciência nas redes contribuiu no interesse por máscaras de melhor qualidade

A análise pode ser encontrada na íntegra no relatório "Um ano de Discussões Científicas no Twitter: Avaliando o Impacto da Divulgação Científica na Pandemia", publicado pelo Science Pulse com apoio do Instituto Serrapilheira e do International Center for Journalists (ICFJ), e distribuído pela Agência Bori.

O relatório é baseado em milhões de tweets em português publicados por centenas de cientistas brasileiros entre setembro de 2020 e agosto de 2021.

Principais eventos da ciência no Twitter

Em março, reportagem do Núcleo já havia identificado picos de engajamento de cientistas no Twitter frente o agravamento da pandemia no Brasil, mas os dados agora conseguem traçar um panorama bem mais preciso sobre a atividade da divulgação científica na rede, marcando os principais momentos do último ano no Twitter.

Valendo-se de um indicador que serve como termômetro para o debate científico nas redes, o Science Pulse conseguiu identificar quando as redes de ciência qualificaram mais o debate e engajaram mais suas comunidades frente a eventos externos, destacando-se principalmente em responder aos assuntos (mais do que em pautá-los – com notáveis excessões).

Esse indicador, o Índice Science Pulse (ISP), varia de 0 (menor valor) a 100  (maior valor) e combina o número de tuítes, de usuários que publicam e engajamento dessas publicações em intervalos de 12h medidos a cada hora do dia.

TEMPERATURA

Índice Science Pulse no período (de 0 a 100)

35

2020

Set

32

OUT

34

41

29

Nov

40

44

DeZ

48

35

46

29

2020

Jan

56

65

83

Aplicação da primeira vacina

71

FeV

45

51

58

45

Mar

66

Escalada na média móvel de mortes depois do carnaval

76

79

ABr

75

49

48

MaI

41

54

69

Copa América no Brasil

Jun

51

Depoimento dos irmãos Miranda na CPI da Covid-19

68

Jul

46

52

41

AgO

47

39

37

SET

TEMPERATURA

Índice Science Pulse no período (de 0 a 100)

35

2020

Set

32

OUT

34

41

29

Nov

40

44

DeZ

48

35

46

29

2020

Jan

56

65

83

Aplicação da primeira vacina

71

FeV

45

51

58

45

Mar

66

Escalada na média móvel de mortes depois do carnaval

76

79

ABr

75

49

48

MaI

41

54

69

Copa América no Brasil

Jun

51

Depoimento dos irmãos Miranda na CPI da Covid-19

68

Jul

46

52

41

AgO

47

39

37

SET

Alta demanda de usuários

Ausência de liderança, políticas públicas falhas e negacionismo por parte de governos contribuíram para essa atitude proativa da população em buscar informações, e por consequência, da reação dos comunicadores e divulgadores científicos.

"Nesse vácuo apareceu a importância dos pesquisadores como pessoas físicas falando nas redes sociais, e da imprensa tradicional", disse ao Núcleo Vitor Mori, pesquisador na Universidade de Vermont e membro do Observatório COVID-19 BR.

Inserir fatos e evidências científicas em um contexto que esteja em pauta pode ser, inclusive, estratégia de comunicação. Um dos grandes aprendizados sobre comunicação científica na pandemia foi que a forma de se comunicar, dando contexto aos fatos, é tão, ou mais, importante, do que o conteúdo, explicou Mori.


Um bom exemplo dessa ponte sólida entre a ciência e a população em geral é o projeto Qual Máscara, que tem perfis mais ativos no Twitter e no Instagram.

Tocado pela antropóloga, mestre e doutoranda em saúde coletiva e mestranda em divulgação científica Beatriz Klimeck, junto ao administrador público Ralph Holzmann, o projeto traz informações não apenas sobre especificidades dos tipos de máscaras e seu uso correto, por exemplo, mas também sobre aerossóis e a contaminação por embalagens.

Hoje, o Qual Máscara tem cerca de 290 mil seguidores (somadas as duas redes), que continuam em busca de esclarecimentos.

“A gente era muito solicitado para falar, por exemplo, sobre as máscaras utilizadas na CPI, sobre as máscaras que os senadores estavam usando. Tem uma demanda. Não é uma coisa que parte só da gente em direção às pessoas. Elas demandam também muitas discussões, nos apresentam coisas”, explicou Klimeck ao Núcleo.

Tem uma demanda. Não é uma coisa que parte só da gente em direção às pessoas. - Beatriz Klimeck (Qual Máscara)

Para ela, essa forma de comunicação, utilizando algum assunto ou tema que já gerou mobilização no Twitter, para somar com conhecimentos de uma área específica, como a biossegurança, por exemplo, funciona muito bem.

“O que eu mais vejo são os divulgadores todos os dias trazendo discussões ali. Acho que os (temas) que mais furam de fato a bolha são aqueles que têm a ver com a pauta do momento no Twitter. E aí também tem um pouco de sagacidade de entender como que a gente pode amplificar essa mensagem. Então, geralmente acontece mesmo quando é um assunto que está ali sendo muito falado”, acrescentou Klimeck.

Como fizemos…

O relatório do Science Pulse se baseou em um índice criado para medir a temperatura das redes, o Índice Science Pulse (ISP). O índice leva em consideração todos os intervalos finalizados no mesmo horário em dias com o mesmo perfil (considerando ele e o dia anterior serem úteis ou não).

A análise do relatório se baseou no ISP e os tuítes realizados entre 01 de setembro de 2020 e 31 de agosto de 2021. Para identificar os principais momentos do ano, foram selecionados os picos diários do ISP e, a partir deles, calculada a média móvel de 7 dias deste valor. Em seguida, foram selecionadas as cinco datas com a maior diferença entre um pico e o vale prévio desta média móvel.

Para mais informações sobre o ISP e a análise, acesse o relatório completo com metodologia. Dados tabelados aqui.

O Science Pulse é uma ferramenta de monitoramento de redes do Núcleo Jornalismo, e conta com apoio do International Center for Journalists (ICFJ) e do Instituto Serrapilheira, além da parceria institucional com a Agência Bori. Nele, são monitoradas cerca de 1.500 contas no Twitter de experts e instituições científicas, que publicam prioritariamente em português e inglês.

Análise Lucas Gelape
Reportagem Laís Martins
Arte e Gráficos Rodolfo Almeida
Edição Samira Menezes e Sérgio Spagnuolo



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