Como a ciência nas redes contribuiu para interesse em máscaras de maior qualidade

Dados do Science Pulse mostram correlação entre aumento das menções a PFF2 nas redes de ciência no Twitter e busca pelo termo no Google Trends

A divulgação científica possivelmente contribuiu para um interesse maior das pessoas em máscaras de melhor qualidade, encorajando aumento por PFF2 em buscas no Google, de acordo com análise de milhões de tweets de cientistas monitorados pelo Science Pulse nos últimos 12 meses.

Apesar de não ser possível determinar com certeza uma relação de causa e efeito – ou seja, de que foram os divulgadores de ciência que geraram o aumento no interesse –  a análise aponta duas evidências da possível contribuição dos divulgadores de ciência nesse assunto.


É importante porque…
  • Sugere que divulgadores nas redes de ciência podem ter pautado e disseminado interesse pela troca de máscaras de pano por máscaras do tipo PFF2 ou N95.
  • O movimento teria ocorrido entre março e abril de 2021, período em que a média móvel de mortes rodeava 2,6 mil mortos por dia.

>> LEIA TAMBÉM: No Twitter, cientistas preencheram vácuo de informações na pandemia

Em primeiro lugar, as menções semanais aos tipos de máscara PFF2 ou N95 e o engajamento desses tuítes nos perfis monitorados pelo Science Pulse tiveram alta correlação com a busca por esses dois termos, segundo dados do Google Trends. Existe a possibilidade, porém, dessa correlação ser espúria, e algum outro fator estar causando esta correlação.

Foi realizado, então, outro teste. Notou-se que entre as contas monitoradas pelo Science Pulse, o uso do termo PFF2 foi superior ao de N95 ao longo de todo o ano, ao passo que no interesse registrado no Google Trends isso passa a ocorrer somente no fim de maio.

A menção frequente a essas máscaras entre os divulgadores de ciência pode ter contribuído para essa mudança na trajetória do interesse.

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Esses resultados estão em linha com outras pesquisas. Em estudo realizado nos EUA, um grupo de pesquisadores mostrou que avisos oficiais do governo aumentaram o apoio ao uso de máscaras e o atendimento a regras sanitárias.

A análise do Science Pulse pode ser encontrada na íntegra no relatório "Um ano de Discussões Científicas no Twitter: Avaliando o Impacto da Divulgação Científica na Pandemia", publicado com apoio do Instituto Serrapilheira e do International Center for Journalists (ICFJ), e distribuído pela Agência Bori.

[Atualização 1]: O relatório é baseado em milhões de tweets em português publicados por centenas de cientistas brasileiros entre setembro de 2020 e agosto de 2021 e tratam dos efeitos que os cientistas tiveram no debate, e não no pioneirismo do assunto nem o tamanho do efeito.

As conclusões do relatório são um passo inicial, não definitivo, para entender essa questão, e outros elementos ajudaram na promoção das máscaras, como perfis com pseudônimos (ex. PFF2 para todos, Estoque PFF, entre outros), que não são monitorados pelo Science Pulse, assim como políticas públicas.

Com que máscara eu vou?

Até o início de 2021, pouco se falava de PFF2 no Brasil, com algumas exceções de vozes um tanto pontuais. Uma delas era a de Vitor Mori, pesquisador na Universidade de Vermont e membro do Observatório COVID 19 BR.

Por ocasião de uma visita ao Brasil que exigiria compromissos em cartórios, o pesquisador, que mora nos Estados Unidos, viu que as redes brasileiras, como outros países no mundo, ainda não davam a devida importância à transmissão de covid via aerossóis.

Então, pensando numa estratégia de redução de risco para si mesmo, o pesquisador viu que poderia acrescentar ao debate das redes ao falar sobre transmissão por ar de covid.

"Eu percebia que a compreensão sobre os mecanismos de transmissão do vírus estava completamente defasada com o que a literatura indicava, então naquela época dava-se basicamente foco total em transmissão por superfície", disse Mori ao Núcleo. "Justamente por sentir que havia falta disso eu decidi entrar no Twitter".

O rápido crescimento de seu perfil no Twitter, hoje com 51,7 mil seguidores, confirmou que havia uma demanda represada por conteúdo que tratasse do tema.

Depois de Mori, em dezembro de 2020 nasceu o perfil Qual Máscara?, no Twitter e no Instagram, tocado pela antropóloga e doutoranda em Saúde Pública e mestranda em Divulgação Científica Beatriz Klimeck junto ao seu colega Ralph Holzmann.

"Ali a gente já falava sobre acreditar e ter evidência de que a PFF2 seria a máscara mais adequada para proteger a população de uma contaminação via aerossóis. Em fevereiro, batemos 10 mil seguidores. No começo de março, foram 100 mil. Isso foi diretamente relacionado com uma procura gigantesca de nós pela mídia. Dávamos 20 entrevistas por semana", disse Klimeck em entrevista ao Núcleo.

Na avaliação de Klimeck, os jornalistas perceberam uma necessidade de falar sobre uma pauta – a PFF2 – que estava acontecendo na internet, tanto no Twitter, quanto no Instagram.

>> LEIA NA BBC BRASIL (abr.2021): PFF2: os voluntários que ajudam brasileiros a encontrar máscaras mais eficazes contra a covid-19

>> LEIA NO NEXO (mar.2021): Quais perfis seguir para achar as melhores máscaras contra covid

>> LEIA NA FOLHA (ago.2021): Mercado de máscara descartável ganha espaço sobre concorrente de pano

PFF2 e #29M

As semanas que antecederam o dia 29 de maio, data do primeiro ato do ano contra o governo de Jair Bolsonaro, foram marcadas por debates e dúvidas sobre quão seguro era ir a uma manifestação em meio à pandemia que, naquela semana, deixava, em média, 1,8 mil mortos por dia.

As redes de ciência não ficaram de fora: as semanas no entorno do dia 29/5 tiveram o 2º e o 3º maior número de menções às máscaras PFF2 e N95 no Science Pulse. Mais especificamente, o dia 29 de maio registrou o quarto maior número diário de menções ao termo PFF2 no período analisado. O dia 30 de maio, após o ato, registrou o segundo maior número de menções.

É também em maio que o interesse por máscaras PFF2 supera aquele por N95 nas buscas do Google Trends: a semana do dia 16/05 é a primeira do ano em que isso acontece.

Esse debate sobre a segurança das manifestações ajudou a furar a bolha e disseminar o entendimento sobre a importância da máscara PFF2 e dos espaços abertos para frear a transmissão do vírus, avaliou Mori.

"É interessante que até uma organização política das pessoas fez a informação da importância da PFF2 e sobre os riscos menores em espaços abertos para chegar a um número maior de pessoas" - Vitor Mori, pesquisador

Maiores menções ao termo PFF2:

  • 23/07: Data da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Tóquio 2020
  • 30/05: Domingo após atos ao redor do Brasil contrários ao governo de Jair Bolsonaro
  • 18/03: Brasil registrou recordes nas médias móveis de mortes e novos casos de COVID (até então)
  • 29/05: Atos ao redor do Brasil contrários ao governo de Jair Bolsonaro

Como fizemos…

O relatório do Science Pulse analisou a relação entre menções a máscaras PFF2 ou N95 e engajamento de tuítes por perfis monitorados pela ferramenta com o interesse por esses perfis em buscas do Google, com dados do Google Trends. Foram feitos testes de correlação entre essas menções e engajamento na semana anterior e na mesma semana que o volume relativo de buscas à PFF2 e N95 no Google. Os testes de correlação indicaram uma correlação forte ou moderada em todos os casos.

Também foi comparada a tendência histórica de menções a cada um dos termos em tuítes monitorados pelo Science Pulse e nas buscas do Google Trends. Ali, foi verificada a predominância do uso de "PFF2" nos perfis monitorados desde o fim de 2020, enquanto isso ocorre nas buscas somente em período mais recente (após maio de 2021). Ambas as evidências não permitem atribuir causalidade à relação entre a divulgação científica e o uso de máscaras, mas são favoráveis à esta hipótese.

Para mais informações sobre o ISP e a análise, acesse o relatório completo (com metodologia). Dados tabelados aqui.

O Science Pulse é uma ferramenta de monitoramento de redes do Núcleo Jornalismo, e conta com apoio do International Center for Journalists (ICFJ) e do Instituto Serrapilheira, além da parceria institucional com a Agência Bori. Nele, são monitorados cerca de 1.500 contas no Twitter de experts e instituições científicas, que publicam prioritariamente em português e inglês.

Análise Lucas Gelape
Reportagem Laís Martins
Arte Rodolfo Almeida
Edição Samira Menezes e Sérgio Spagnuolo

Atualização 1: Texto atualizado às 12h36 de 24.set.2021 para acrescentar contexto sobre os resultados da pesquisa.

Atualização 2: imagem de destaque atualizada às 14:35 de 24.set.2021 para melhor refletir o tipo de máscara de melhor qualidade


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