Em 2021, colaboração destacou ciência no Twitter brasileiro
Arte: Rodolfo Almeida

Tuítes de cientistas, pesquisadores e divulgadores científicos sobre a covid-19 supriram lacuna de informação deixada pelo governo.

Conversas e debates sobre a pandemia de Covid-19 entre pesquisadores e cientistas brasileiros no Twitter, em 2021, foram marcadas por colaboração e construção de um conhecimento comum, algo que diferenciou a rede brasileira do cenário internacional.

Essa é a principal conclusão de uma análise do Science Pulse, ferramenta do Núcleo, feita em parceria com o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD), com apoio do Instituto Serrapilheira.

O estudo – construído em cima de milhares de tweets dos +1.500 perfis monitorados pelo Science Pulse e que mapeou a discussão sobre divulgação científica no contexto da pandemia nas rede – sugere que essa construção colaborativa aconteceu através de um alto número de respostas, menções e retuítes, principalmente a partir dos 15 perfis mais influentes na conversa sobre o vírus, a doença e a vacina – sendo 10 pessoas e 5 instituições, seguindo os critérios de autoridade, articulação e popularidade.


É importante porque…
  • Trabalhando em colaboração, pesquisadores foram capazes de suprir lacuna de informação deixada pelo poder público
  • Em quase dois anos de pandemia, alguns perfis foram capazes de furar a bolha da comunidade científica e levar esse tipo de conteúdo para meios como rádio e TV

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Veja abaixo os perfis resultado da amostra (em ordem alfabética):

Cientistas e divulgadores científicos Instituições
Atila Iamarino Agência Fiocruz
Daniel A. Dourado Fiocruz
Denise Garrett Instituto Butantan
Isaac Schrarstzhaupt Observatório COVID 19 BR
Luiza Caires Universidade de São Paulo (USP)
Mellanie Fontes-Dutra
Natalia Pasternak
Otavio Ranzani
Pedro Curi Hallal
Vitor Mori

FONTES SEGURAS

Para o pesquisador Isaac Schrarstzhaupt, coordenador na Rede Análise COVID-19, a colaboração veio como resposta à lacuna de informação deixada por autoridades e agentes públicos, que demandou que pesquisadores e cientistas das diferentes especialidades se unissem para oferecer conteúdo.

"Cada um tinha a sua área. Por exemplo, eu faço análise de dados e storytelling através de informações, só que ali nós temos dados de saúde pública, de epidemiologia, e isso não é muito a área específica que eu trabalhava antes", disse Schrarstzhaupt ao Núcleo.

"Nisso eu precisei dessa colaboração e o pessoal ajudou muito e aí vice-versa, quando alguém ia falar de infectologia ou doenças infecciosas e precisava de um painel mostrando a curva de determinado país, contava com o meu painel".


A colaboração não ficou restrita às paredes virtuais do Twitter. Segundo a biomédica Mellanie Fontes-Dutra há até uma organização em grupos no WhatsApp, onde os envolvidos combinam ações colaborativas no Twitter, como Spaces e campanhas.

Para Schrarstzhaupt, esse ambiente de troca permitiu que ele se aproximasse e colaborasse com cientistas que até então admirava à distância, como o divulgador científico Átila Iamarino, com quem o pesquisador diz interagir bastante atualmente.

Iamarino, aliás, foi um dos perfis científicos que manteve a produção de conteúdo de interesse do público ao longo do período da pandemia, se consolidando como importante referência na conversa sobre a covid após quase dois anos de pandemia – não apenas no Twitter, mas tambem no YouTube.

Disclaimer

Átila é um dos gratees do Instituto Serrapilheira, apoiador do estudo, mas isso não teve nenhuma interferência no estudo.

Mas nomes mais recentes no debate virtual, como o de Pedro Hallal, professor, epidemiologista e ex-reitor da Universidade de Pelotas, também adentraram a conversa nas redes, principalmente após serem trazidos como fontes confiáveis pela imprensa. Em março de 2021, Hallal foi entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura.

O movimento contrário também ocorreu, com cientistas e divulgadores de ciência furando a bolha da comunidade científica nas redes e marcando presença frequente em outras mídias como televisão e rádio.

É o caso do Átila e da microbiologista Natália Pasternak. A análise identificou que no caso desses pesquisadores, nota-se uma adaptação na linguagem, saindo de um discurso técnico para um mais simples e de fácil compreensão para o público em geral.

VACINA JÁ

Sem surpresas, um tema forte na rede brasileira de ciência em 2021 foi a vacinação contra a covid , com 53% dos tuítes de divulgadores científicos coletados entre novembro de 2020 e novembro de 2021 fazendo alguma menção a vacinas.

Das contas que tuitaram sobre covid no período, 97% falaram pelo menos uma vez sobre vacinas. As conversas sobre a imunização focaram em três temas principais, segundo a análise:

  • Pesquisa e desenvolvimento: conversas em torno dos testes e níveis de eficácia da vacina e, num segundo momento, sobre proteção contra variantes e doses de reforço.
  • Campanhas: publicações centradas no cenário político e no papel do governo federal na aquisição, distribuição e divulgação dos imunizantes.
  • Esperança no futuro: posts com comemorações e mensagens de apoio à ciência, ao SUS e ao desenvolvimento científico.

À medida que a vacinação foi avançando, as conversas foram mudando e as demandas trazidas por usuários também, explicou ao Núcleo a biomédica Mellanie Fontes-Dutra.

Vemos que as pessoas estão querendo se informar agora também com um objetivo muitas vezes prático, de ter uma ideia do que é mais adequado fazerem – Mellanie Fontes-Dutra, biomédica

"Também vemos ainda muita dúvida com relação à própria vacinação. Diminuiu por conta de todo o conhecimento que foi acumulado ao longo desses dois anos, mas sempre tem pessoas que a gente ainda pode conscientizar", disse a biomédica, cujo perfil foi eleito um dos mais influentes.

Para Schrarstzhaupt, o interesse e demanda do público por informações acompanha a gravidade do momento epidemiológico. Ele percebeu que quanto mais grave o momento, mais impressões registrava em seu Twitter.

"A gente nota que a curva estava quase alinhada com a curva da pandemia. Aumentam as impressões e as buscas por informações conforme aumentam os casos e óbitos", disse ao Núcleo, acrescentando que o engajamento em temas não-COVID, no entanto, permanece alto.


CENÁRIO INTERNACIONAL

Enquanto a rede brasileira de ciência se destacou pelo caráter colaborativo e de construção conjunta entre pesquisadores e divulgadores, na rede global, também monitorada separadamente pelo Science Pulse, o destaque ficou por conta das instituições.

O prestígio e a credibilidade dos periódicos é confirmado pelos dados. Dentre as cinco principais instituições influenciadoras internacionais, figuram três revistas científicas: a Nature, a Science e a Lancet.

Cientistas e divulgadores científicos internacionais Instituições internacionais
Ashish K. Jha @Nature
Carl T. Bergstrom NIH
Dr. Angela Rasmussen Science Magazine
Dr. Tom Frieden The Lancet
Eric Topol World Health Organization
John Burn-Murdoch
Michael Mina
Akiko Iwasaki
Tedros Adhanom Ghebreyesus
Trevor Bedford

COMO FIZEMOS ISSO

Foram analisadas 450.906 publicações sobre a covid-19 feitas no Twitter entre os meses de novembro de 2020 e novembro de 2021 por 1.088 cientistas, especialistas e organizações científicas do Brasil e do mundo, monitorados pelo Science Pulse.

A partir dessa coleta, a base foi tratada para identificar os perfis de origem, menções e retuítes. Além disso, foi aplicado um filtro com 56 palavras-chave para analisar apenas as publicações que falavam sobre a covid-19. Com a base tratada, os nós e arestas identificados foram trabalhados a partir de um algoritmo de compreensão de redes, para elaboração da distribuição espacial e cálculo de métricas.

A análise das interações e mapeamento dos principais influenciadores foi feita pelo IBPAD, utilizando as métricas de autoridade, articulação e popularidade. A métrica de autoridade demonstra quais são os perfis centrais na difusão de informações na rede e, por consequência, os mais respeitados e/ou com maior prestígio. A de articulação avalia quais perfis são a ponte entre diferentes grupos, com a maior capacidade de difundir suas mensagens. Já a popularidade reflete o possível alcance de determinado perfil na rede. Ou seja, diz respeito à quantidade de seguidores que um perfil possui.

Os principais influenciadores foram selecionados levando em consideração os fatores de autoridade e articulação na rede, sendo popularidade o último critério de desempate. O relatório, que teve apoio de realização do Instituto Serrapilheira e apoio institucional do International Center for Journalists (ICFJ), também detalha quais foram os 15 perfis de destaque em cada uma dessas métricas.

Todos os nomes estão listados no arquivo do relatório completo, que pode ser acessado neste link (via Agência Bori) ou aqui.

Texto Laís Martins
Colaboração Lucas Gelape e Jade Drummond
Arte e gráfico Rodolfo Almeida
Edição Samira Menezes e Sérgio Spagnuolo



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