#FacebookPapers: rede social tolera grupo extremista mesmo após alertas de funcionários
Arte: Rodolfo Almeida

Conhecido por disseminar desinformação, rede Ordem Dourada do Brasil tem cunho armamentista e intervencionista

Uma mistura de negacionismo científico, armamentismo e pró-intervencionismo militar. É essa a essência da Ordem Dourada do Brasil, uma rede de páginas, perfis e grupos de Facebook que foi sinalizada internamente com potencial de "dano social" em março de 2021 e que, um ano depois, ainda segue no ar, fazendo lives e propagando mensagens políticas radicais.

A avaliação de que essa rede é nociva foi feita pelos próprios analistas internos do Facebook (que agora se chama Meta), de acordo com apuração conjunta entre Núcleo e Aos Fatos a partir de comunicações internas da rede vazadas para a imprensa nos chamados Facebook Papers.

Documentos do Facebook mostram a existência de redes radicais ao redor do mundo, que praticam o que analistas da empresa entendem como "dano social coordenado", incluindo, nominalmente, a Ordem Dourada do Brasil.

A continuidade das páginas e grupos da ODB acende um alerta sobre o posicionamento da maior rede social do mundo, que, a despeito de sinalizações de próprios funcionários sobre problemas e riscos em determinados grupos, ainda tolera que redes do tipo continuem ativas na plataforma.

Núcleo e Aos Fatos obtiveram acesso aos documentos disponibilizados pela assessoria legal de Frances Haugen, ex-funcionária da equipe de Integridade Cívica do Facebook que relevou os documentos internos em 2021.


É importante porque…
  • Empresa não seguiu recomendação de seus próprios funcionários, que sinalizaram a rede como problemática
  • Em setembro de 2021, Meta alterou políticas visando combater grupos do tipo, mas não tomou ações contra esta rede
  • Conteúdo propagado pela rede vai de negacionismo anti-vacina a golpismo e intervenção militar

Em nota por email, a Meta se esquivou das perguntas diretas enviadas e respondeu:

Nossos times trabalham para equilibrar a proteção ao direito de expressão de bilhões de pessoas com a necessidade de manter a nossa plataforma um ambiente seguro e positivo. Só no ano passado, investimos mais de US$5 bilhões em segurança e hoje temos mais de 40 mil pessoas trabalhando nesses desafios na Meta.

Nós fizemos melhorias significativas no sentido de manter conteúdo nocivo fora das nossas plataformas, mas em toda internet novas redes estão constantemente surgindo e adotando comportamentos abusivos.

Resposta na Íntegra: Facebook sobre permanência de grupo extremista na plataforma
Veja a resposta do Facebook à nossa reportagem

Destacada em março de 2021 num documento interno da plataforma que veio à tona com o escândalo do Facebook Papers, a ODB é uma rede que abarca sob seu guarda-chuva uma série de outras páginas e perfis de cunho militarizado, que "misturam cristianismo evangélico, conteúdo pró-Bolsonaro, teorias conspiratórias, apoio à ditadura militar e conteúdo pró-armas".

No documento, a Ordem Dourada do Brasil é apresentada como um exemplo de "dano social coordenado", ao lado de redes na Etiópia, Índia e outros países do Sul Global, caracterizada por um alto grau de coordenação e postagens em massa a grupos e páginas, além de clusters de SUMAs (sigla usada pelo Facebook para identificar um mesmo usuário que possui múltiplas contas -- Same User Multiple Accounts) usados como amplificadores de mensagens.

Tudo isso levou funcionários do Facebook a sugerirem a remoção ou demoção de conteúdo da Ordem Dourada do Brasil.

Embora não seja possível aferir se houve demoção – quando um conteúdo tem seu alcance reduzido, por exemplo – as páginas da ODB seguem ativas e públicas, podendo ser acessadas por qualquer usuário da rede social.


HÁ ANOS NO RADAR

Essa não é a primeira vez que a ODB entra no radar do Facebook. Há pelo menos cinco anos a plataforma já havia tomado ações contra ela.

Em 2016, de acordo com uma nota publicada no site da Ordem Dourada do Brasil, o Facebook tirou do ar a página "Ordem Dourada do Brasil". Na nota, a ODB dizia que iria acionar a Agência Central de Inteligência [razão social da empresa] para acionar extrajudicialmente o Facebook.

Atualmente não existe uma página central da Ordem Dourada do Brasil no Facebook, apenas o grupo público, o "Ordem Dourada do Brasil", com cerca de 10 mil membros.

Perfis com os nomes dos deputados federais Carla Zambelli e Luiz Philippe de Orleans e Bragança e do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, aparecem como membros do grupo. Desses, apenas o perfil de Luiz Philippe já fez postagens no grupo – todas antes de ocupar cargo público.

Procurada para comentar sobre a participação na rede, Zambelli afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que “desconhece por completo o grupo” e que “até há alguns anos, qualquer amigo ou conhecido no perfil da rede social podia incluir alguém em algum grupo, mesmo sem sua autorização ou seu conhecimento, o que foi o caso ocorrido com a parlamentar". A reportagem não pôde atestar a veracidade dos perfis de Luiz Philippe de Orleans e Bragança e de Carlos Bolsonaro, já que não houve resposta até o fechamento do texto.

Desinformação

Segundo levantamento do Aos Fatos, apenas em 2021, o grupo produziu 525 postagens – das 200 com mais interações, 35 continham desinformação (17,5%). Juntos, elas somaram mais de 500 curtidas e comentários, 12,6% das interações do universo analisado.

A grande maioria dos conteúdos do grupo foi postada pelos próprios administradores.

Os temas mais frequentes foram postagens de apoio a Bolsonaro, ataques a opositores políticos e às instituições, além de conteúdos críticos à esquerda e ao comunismo.

Entre postagens desinformativas se destacaram aquelas que defendiam o "voto impresso" e insinuavam a existência de fraude eleitoral não comprovada ou publicações negacionistas sobre a pandemia de Covid-19, das quais muitas faziam defesa ao tratamento precoce ou eram anti-vacina.

Uma postagem de 8 de julho no grupo divulgava estudo que comprovaria redução de mortes por covid com o uso de ivermectina. O conteúdo, que somou quase 50 interações, foi classificado como falso por agências de checagem e sinalizado na plataforma como desinformativo.

Em 29 de junho, uma publicação que atingiu 27 curtidas e compartilhamentos trazia fala do presidente Jair Bolsonaro na qual ele dizia que o sistema atual de votação permitiria fraudes. A informação é falsa. Não foi registrado nenhum caso de fraude eleitoral envolvendo as urnas eletrônicas desde a implementação do sistema em 1996, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

COMPARTILHAMENTO COORDENADO

A concentração de muitas postagens em poucas pessoas é um dos indicativos de que se trata de publicações coordenadas, que vem de uma estrutura "central" – representada pelos administradores – e são distribuídas para o maior número de pessoas possível, sem a necessidade de uso de automação.

Outros indícios também identificados pela reportagem na rede da Ordem Dourada do Brasil são a coadministração de grupos e compartilhamento coordenado de conteúdos.

"A coordenação é a ideia de um mesmo grupo estar postando uma mesma coisa em vários lugares e estar postando ao mesmo tempo", resume a pesquisadora Luiza Bandeira, do DFRLab. Ela ainda ressalta que esse tipo de comportamento pode vir de perfis orgânicos. "Não tem necessariamente a ver com automação, e muitas vezes passa longe disso."

A coordenação fica mais clara nas postagens da página "Foro Conservador Cristão do Brasil". A comunidade, associada à organização Ordem Dourada do Brasil, faz transmissões ao vivo quase toda semana na plataforma.

Nessas lives, os organizadores – que utilizam a alcunha "Patriota" – comentam acontecimentos recentes do país, quase sempre trazendo argumentos desinformativos.

Em uma das lives mais vistas da página, transmitida em 26 de outubro, eles chamaram as vacinas contra Covid-19 de "experimentais" e "perigosas", além de disseminarem narrativas falsas sobre a origem do vírus, insinuando tratar-se de uma "grande conspiração global". A transmissão foi vista por mais de 1,5 mil pessoas no Facebook.

Parte do sucesso das lives se explica pelo esforço dos moderadores de compartilhar e republicar conteúdo em múltiplas páginas e grupos.

Menos de dez minutos depois da publicação, um único perfil distribuiu a postagem em seis diferentes grupos. Poucos minutos depois, o perfil Priscila Cardoso, publicou em outros três grupos e em sua conta pessoal, seguida pelo perfil Jack Van, que postou em mais sete comunidades. A estratégia também foi repetida em outras lives populares publicadas pela Foro Conservador Cristão.

CONSPIRAÇÃO, INTERVENÇÃO E ARMAMENTISMO

A comunidade é administrada por 11 páginas e perfis, dos quais seis também administram um outro grupo menor, que por sua vez tem outros três perfis como administradores. Cada um deles integra e até modera outras páginas e grupos, compartilhando as postagens de um lugar para outro.

Muitos ainda possuem mais de uma conta na plataforma – prática danosa identificada pela sigla SUMA. Um dos administradores, por exemplo, tem um perfil intitulado "Melo Dilermando", outro com a alcunha "Dilermando Melo" e pelo menos mais um com o nome "Diler Patriota".

A maior destas páginas é a "Foro Conservador Cristão do Brasil", que tem mais de 45 mil curtidas e produziu cerca de 45% das postagens no grupo "Ordem Dourada do Brasil". Há ainda outras três páginas relacionadas: Reação CAC, Agência Central de Inteligência e Ordem Dourada do Brasil Comanda SP-ZL.

Se algumas publicações atacam diretamente a legitimidade do sistema eleitoral brasileiro, alegando fraudes na urna eletrônica, outras defendem intervenção militar e a volta da ditadura. Há ainda as publicações focadas no armamentismo, em especial da categoria CACs (Caçadores, Atiradores Esportivos e Colecionadores).

Há, por fim, posts com desinformação ligada à covid-19, como a promoção de medicamentos que já tiveram sua ineficácia comprovada e informações falsas sobre a vacinação.


PARA ALÉM DO FACEBOOK

Ao olhar para a administração do grupo, fica clara a estrutura em rede e com coordenação.

Por trás do grupo Ordem Dourada do Brasil, há 11 perfis e páginas como administradores. Destes 11, seis administram um outro subgrupo, que possui outros três administradores. Cada um destes usuários participa e atua como moderador em outros grupos, compartilhando publicações do grupo original (ODB).

Mas a organização também existe para além do Facebook, registrada sob a razão social "Agência Central de Inteligência".

Com sede em Ferraz de Vasconcelos (SP), a empresa atua no ramo de investigações particulares. O presidente da empresa era Fernando Maurício Correa, conhecido nas redes como "Nando Patriota".

No Facebook, ele comandava o perfil "Apenas Graveto" – sua 4ª conta na rede, de acordo com a descrição – um dos administradores do grupo "Ordem Dourada do Brasil".

Em outubro de 2021, Nando faleceu devido a uma parada cardíaca, segundo informado em postagens no grupo e página, mas a rede continuou ativa. Sem o líder, foi criado mais um grupo, o "Foro Conservador Cristão" do Brasil, ainda pequeno (pouco mais de 500 membros).

A rede também está presente no Telegram, com um canal com mais de 5,6 mil seguidores e dois grupos com quase 5 mil membros.

DANO SOCIAL COORDENADO

Foi só em setembro de 2021, seis meses após alertas internos, que a Meta anunciou uma nova política para lidar com redes coordenadas de comportamento autêntico e inautêntico que podem causar dano social coordenado (coordinated social harm, em inglês) – nome usado pela Meta para se referir a "atividade [co]ordenada ou direcionada por atores [estatais] [estrangeiros] ou adversariais com intenção de causar ou contribuir para dano social severo."

O dano social severo (severe social harm, em inglês), por sua vez, é operacionalizado pelo FB em uma escala do mais grave ao mais ameno, sendo que o mais grave justificaria uma ação como remoção de contas e páginas e o mais ameno justificaria ações moderadas.

A violação da Ordem Dourada do Brasil se enquadra na categoria 4, o que justificaria ações moderadas pela plataforma, de acordo com a escala. No documento, funcionários recomendam a derrubada ou demoção da rede.

A atualização da política mirava grupos adversariais que vinham operando campanhas de influência e borrando os contornos entre debate público autêntico e a manipulação, tornando a atuação proativa da plataforma mais difícil.

Ao anunciar a atualização, a Meta trouxe como exemplo as ações que tinha tomado contra uma rede de páginas e grupos Querdenken, um movimento alemão negacionista e conspiracionista, anti-vacina e anti-lockdown, que frequentemente leva a violência para fora das redes.

A plataforma removeu contas, páginas e grupos no Facebook e Instagram por repetidas violações às políticas de Comunidade e bloqueou os domínios de serem compartilhados na plataforma.

Em março de 2021, funcionários do Facebook avaliaram que as estratégias de mitigação sendo usadas até então não estavam sendo suficientes. Respostas ligadas ao conteúdo, por exemplo, não eram aplicadas numa escala global, não levavam em consideração a natureza coordenada da atividade e não permitiam uma aplicação contínua das políticas da plataforma contra atores específicos.

Até então, as ações de moderação da empresa se limitavam a comportamento coordenado inautêntico (Coordinated Inauthentic Behaviour, na sigla em inglês), se referindo a contas falsas. Isso se tornou um problema quando o comportamento coordenado passou a vir de contas reais.

Para a plataforma, a importância de combater esse tipo de comportamento vinha da percepção de atividades altamente coordenadas em produtos da Meta por "atores problemáticos, incluindo Estados, atores estrangeiros, e atores com histórico de comportamento criminoso, violento ou de ódio, com intenção de promover violência social, ódio, exacerbar divisões étnicas e de outros tipos, e/ou deslegitimar instituições sociais por meio de desinformação".

Segundo o Facebook/Meta, esse tipo de atividade é particularmente prevalente e problemático em países sob risco (At Risk Countries e Contexts, na sigla em inglês), uma classificação que se aplicaria ao Brasil.

COMO FIZEMOS ISSO

Essas informações fazem parte de documentos revelados à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) e fornecidas ao Congresso dos Estados Unidos de forma editada pela assessoria legal de Frances Haugen, no que ficou conhecido como Facebook Papers.

As versões editadas recebidas pelo Congresso dos EUA foram revisadas por um consórcio de veículos de notícias.

O Núcleo teve acesso aos documentos e publica esta reportagem em parceria com o Aos Fatos.

Esses documentos foram primeiramente noticiados pelo Wall Street Journal, que chamou a série de Facebook Files.

A reportagem coletou, por meio da API do CrowdTangle (ferramenta de monitoramento de redes sociais), todas as postagens do grupo Ordem Dourada do Brasil de 2021. Depois, analisou individualmente as 200 mensagens que somavam mais interações, classificou cada uma delas de acordo com a temática e investigou a incidência de desinformação

Entramos entrou em contato com todos os perfis e páginas cuja relação com a rede Ordem Dourada do Brasil foi identificada.

Entre as principais contas, que configuram como administradores dos grupos no Facebook, nenhuma nos respondeu. Recebemos apenas uma mensagem de um perfil secundário, que não respondia aos questionamentos enviados nem negava a participação na rede.

Reportagem Laís Martins, Ethel Rudnitzki, Débora Ely e João Barbosa
Edição Samira Menezes e Sérgio Spagnuolo

Texto atualizado às 15h34 de 2.fev.2022 com posicionamento da deputada federal Carla Zambelli.


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