Sem moderação do Twitter, conteúdo antivacina rola solto no Spaces
Arte: Rodolfo Almeida

Plataforma afirma que responsabilidade de moderar Spaces é de cada anfitrião, mas nem todos atuam em conformidade com regras de uso

Acenando com uma descentralização da moderação de conteúdo, o Twitter tomou a decisão de não monitorar ativamente as salas de Spaces – suas cada vez mais populares conversas de áudio ao vivo. Em vez disso, a plataforma considera que a moderação na ferramenta é de responsabilidade de anfitriões e suas respectivas comunidades, inclusive quando o assunto pode ser diretamente nocivo à saúde pública.

Um dos efeitos dessa falta de moderação ativa pode ser constatado na incidência de debates antivacina no Spaces, banidos na maioria das outras redes sociais (e inclusive pelo próprio Twitter).


É importante porque…
  • Mesmo onde atua ativamente usando o sistema híbrido de moderação humana e inteligência artificial, o Twitter tem falhado e deixado passar conteúdos desinformativos
  • É ingenuidade pensar que todos anfitriões de Spaces estejam dispostos a atuar em conformidade com as regras da plataforma

Cabe ao anfitrião de cada fórum atuar sobre os participantes da conversa de uma comunidade, esclareceu em entrevista ao Núcleo Hugo Rodriguez Nicolat, diretor de Políticas Públicas do Twitter na América Latina.

Ou seja, se esse anfitrião quiser fazer um Twitter Spaces promovendo hesitação vacinal ou desinformação sobre vacinas, o Twitter não agirá ativamente sobre o conteúdo e dependerá de denúncias de outros usuários para ser motivado a agir. Durante a apuração, o Núcleo encontrou diversos Spaces com essa temática.


Depois de introduzido em modo beta em dezembro de 2020, o Spaces passou a ser disponibilizado para todos usuários do Twitter com mais de 600 seguidores em maio do ano passado, ganhando mais alcance e escala.

Em nota ao Núcleo, questionado se o Twitter permitia essas salas com desinformação, a rede informou que "nossas equipes de produto, suporte e segurança têm se dedicado ao trabalho para garantir que o recurso não seja usado para amplificar conteúdo que viole as Regras do Twitter."

"Estamos comprometidos em atender melhor os participantes dos Espaços e, embora este seja um produto iterativo, continuaremos aprendendo, ouvindo atentamente e fazendo melhorias ao longo do caminho", disse a nota.

A plataforma informou também que "todos os Espaços podem ser denunciados e analisados por nossas equipes de acordo com as Regras do Twitter. Há uma equipe dedicada para analisar essas denúncias. Priorizamos analisar denúncias de Espaços enquanto eles estão ao vivo."

Adicionalmente, a empresa manterá uma cópia do áudio dos Espaços por 30 dias para analisar violações das regras e, quando constatada uma violação em um Espaços, as cópias serão mantidas por mais tempo.


TERRENO FÉRTIL PARA DESINFORMAÇÃO

Essa isenção por parte da rede preocupa porque abusos e violações nos Spaces devido à falta de moderação têm sido amplamente documentados.

Em dezembro, o Washington Post noticiou que a ferramenta de áudio já teve adesão de apoiadores do Talebã, nacionalistas brancos e ativistas anti-vacina, além de servir de palco para discurso de ódio contra pessoas negras e transgêneras.

Segundo a reportagem, executivos do Twitter sabiam desde antes do lançamento que, devido a essa lacuna, a ferramenta poderia ser usada para comportamento nocivo, mas decidiram seguir em frente ainda assim.

No Brasil, também já houve diversos exemplos de como o Spaces pode ser terreno fértil para desinformação e comportamento nocivo.

Enquanto tuiteiros brasileiros discutiam como o Twitter Brasil estava combatendo fake news contra a COVID-19 no início de janeiro, alguns usuários realizavam um Spaces com conteúdo anti-vacina. O anfitrião de uma dessas conversas era o usuário @ducavendish, que possui inclusive um selo de verificação.

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Nesta semana, houve um Spaces promovido por uma conta anônima que se diz "Di'Direita.  Armamentista. Burrofóbica. Isentofófica. Esquerdofóbica. Pró-Gov. Federal. Pró-Comunidade. NOVAX".

Foram entrevistados o advogado Geraldo Barral e a médica pediatra Fernanda Giovanelli. A médica não possui publicações em sua conta no Twitter, mas em seu Instagram há dezenas de postagens negacionistas e desinformativas, que questionam a eficácia das vacinas e sugerindo que vacinas estão matando crianças.

Barral, por sua vez, é presidente da Ordem dos Advogados Conservadores do Brasil - OACB. A organização é autora de uma ação coletiva contra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que busca suspender a obrigatoriedade do cartão de vacinação. A ação, segundo vídeo postado por Barral em sua conta do Twitter, argumenta que a imposição da vacinação é "ilegal, arbitrária e inconstitucional".

Print de Spaces antivax no Twitter

Mas a prática acontece desde o ano passado. Em agosto de 2021, o usuário Fernando Olivier, que fez publicações colocando em xeque a eficácia das vacinas contra a COVID-19, realizou um Spaces sobre os imunizantes. Olivier se define como de "direita, cristão e conservador". O convidado do Spaces foi Renato Gomes, um advogado e ex-oficial da Marinha Brasileira. Ambos têm mais de 10 mil seguidores.

O Spaces não ficou gravado, mas o convite que foi repassado por um canal bolsonarista no Telegram ainda pode ser visto.

Em setembro de 2021, o médico Alessandro Loiola, que já foi destacado por agências de checagem de fatos como um dos principais atores de desinformação sobre vacina no Twitter, usou seu canal de Telegram para convidar seus 58,3 mil inscritos a participarem de um Spaces.

A conversa também não está mais disponível, mas os comentários no Telegram sugerem que o tema foi vacinas, principalmente sobre a morte de uma adolescente de 16 anos que foi imunizada com Pfizer. Uma investigação concluiu que morte não teve relação alguma com a vacinação.

Dificuldade de Moderação

A moderação de conteúdo em áudio é mais trabalhosa e desafiadora do que conteúdos visuais ou em texto, principalmente para sistemas automatizados. Se textos e imagens permitem buscas e indícios visuais de conteúdo, o mesmo não pode ser dito para conteúdo em áudio.

"Numa plataforma em que a gente não tem gravação das coisas, em que é tudo ao vivo, é muito complicado fazer moderação de conteúdo. A gente depende de que a pessoa que esteja como anfitrião dessa conversa, tenha uma predisposição a interpelar uma pessoa que esteja eventualmente produzindo ou espalhando desinformação", disse a diretora-executiva da Agência Lupa, Natália Leal, ao Núcleo.


O desafio que se apresenta agora para o Twitter já é velho conhecido de outras plataformas que trabalham com conteúdo de voz efêmero, como o Discord e, mais recentemente, o Clubhouse.

Para especialistas que estudam moderação de conteúdo, esse tipo de moderação levanta uma série de questões: como moderadores localizam o conteúdo? Como moderadores removem o conteúdo? Como os moderadores sabem quem é a pessoa falando? Como os moderadores sabem se houve violação de regra em dado momento?

Algumas das estratégias adotadas atualmente por plataformas na moderação deixam de ser aplicáveis para conteúdo em voz. Não é possível, por exemplo, aplicar rótulos e avisos de que aquele conteúdo pode conter desinformação, como o Twitter já faz com tuítes por escrito.

Pesquisadores norte-americanos da Universidade de Washington e de Colorado Boulder entrevistaram 25 moderadores de Discord para entender os desafios e as estratégias adotadas por eles para atuar em suas comunidades. Eles concluíram que além de enfrentarem dificuldades para aplicar regras, os moderadores têm dificuldades também para provar que violações de regras existiram. Uma maneira de parcialmente mitigar isso seria mantendo um arquivo com todas as conversas em áudio, mas essa abordagem levanta outros problemas ligados à privacidade do usuário, por exemplo.

Não existe bala de prata que possa resolver a questão, mas para estes pesquisadores, o caminho passa por uma análise mais cuidadosa pelas plataformas do impacto da tecnologia de infraestrutura nas comunidades e pelo desenvolvimento de tecnologias e políticas que deem suporte aos moderadores.

COMO FIZEMOS ISSO

O Núcleo entrevistou o diretor de Políticas Públicas do Twitter na América Latina, Hugo Rodriguez Nicolat, em dezembro, e a conversa não foi sobre antivax no Spaces, e sim sobre recursos de comunidades da plataforma. No entanto, alguns comentários dele são válidos para essa discussão.

Nossa reportagem também fez pesquisas em busca de Spaces antivacina tanto no Twitter quanto no Telegram (app que serve de distribuição de convites para essa e outras redes sociais).

O Núcleo entrou em contato com o Twitter no começo da semana. Veja a nota do Twitter enviada por email ao Núcleo:

"O Espaços foi criado para ser um lugar para conversas abertas e autênticas. Garantir a segurança das pessoas e incentivar conversas saudáveis, ao mesmo tempo que ajudar os anfitriões e ouvintes a controlar sua experiência, têm sido as principais prioridades desde o início do desenvolvimento do produto. Nossas equipes de produto, suporte e segurança têm se dedicado ao trabalho para garantir que o recurso não seja usado para amplificar conteúdo que viole as Regras do Twitter. Estamos comprometidos em atender melhor os participantes dos Espaços e, embora este seja um produto iterativo, continuaremos aprendendo, ouvindo atentamente e fazendo melhorias ao longo do caminho".

Texto Laís Martins
Edição Sérgio Spagnuolo


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