Com maçonaria e satanismo, esquerda parte pra guerrilha nas redes contra Bolsonaro
Arte: Rodolfo Almeida

Video antigo de Bolsonaro em uma loja maçônica deu início a uma enxurrada de posts com informações duvidosas e ironias à pauta moral bolsonarista #NúcleoNasEleições

A ressaca dos resultados do primeiro turno das eleições não tinha passado ainda quando começou um bombardeio com vídeos antigos do presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu vice, Hamilton Mourão (Republicanos), em lojas maçônicas.

Alguns eleitores do ex-presidente Lula (PT) apontaram, nas redes sociais, como as igrejas evangélicas foram responsáveis pela votação expressiva do atual presidente e pela eleição de muitos dos seus aliados no Congresso e nos estados.

Fazia-se necessário, então, uma contraofensiva para apelar a esse público.


É importante porque...

A agenda de moral e costumes de Bolsonaro não deve arrefecer no segundo turno, ou seja, a conquista do voto dos evangélicos continua em alta

A tática de guerrilha dos petistas pode confundir os eleitores e criar mais fake news e desinformação

Mais do que nunca é preciso estar atento às informações veiculadas nas redes sociais


Assim, a associação de Bolsonaro com a maçonaria, satanismo e até canibalismo desceu como uma enxurrada nas redes sociais que dominou diversas redes na terça-feira (4.out.22) e avançou para o dia seguinte (5.out).

O tsunami de posts trata da exploração de vídeos com declarações reais do candidato conservador com o objetivo de prejudicar o adversário, muitas vezes tirando as falas de proporção, contexto ou exagerando o impacto de declarações.

Se você já conhece essa estratégia, é porque já cansou de ver a mesma tática usada por bolsonaristas contra Lula e outros adversários.

O volume de menções ao termo "maçonaria" pode ser visto em três grandes redes sociais:

  • Entre 9h e 14h de 4.0ut.2022, foram publicados cerca de 500 mil tweets e retweets (73 mil desses são posts originais – ou seja, desconsiderando RTs) com o termo "maçonaria" no Twitter, totalizando 2.657.646 interações (likes + RT + citações + comentários) – mais do que suficiente pra manter o assunto nos trends da rede social o dia todo;
  • No Facebook, houve uma avalanche de menções em fan pages, grupos públicos e perfis verificados: no dia 3.out foram apenas 46 menções (1.600 interações), mas no dia seguinte o número disparou para 2,600 (840 mil interações);
  • No Instagram, foram 211 posts no dia 4.out (ante apenas 3 no dia anterior) e surpreenderes 1,45 milhão de interações no mesmo dia.

Mobilização

Embora não seja possível identificar quais conteúdos vieram da campanha oficial do petista, era patente a mobilização da militância petista nas redes.

A campanha de Lula avalia, inclusive, utilizar o vídeo em inserções de propaganda política, de acordo com a Folha de S.Paulo. A ideia é usar as imagens caso o presidente suba o tom da campanha, insistindo na pauta religiosa.

A estratégia da esquerda nesse caso foi tão eficiente e coordenada (muito semelhante a algumas campanhas da própria direita), que bolsonaristas foram para a defensiva e ficaram até desnorteados.

Outra reportagem da Folha mostrou como, no Telegram, muitos eleitores de Bolsonaro chegaram a expressar decepção e arrependimento por causa da associação do presidente à maçonaria.

Acompanhamento do Núcleo de 220 grupos (esquerda e direita) de Telegram retornou 361 mensagens com 311 mil visualizações mensuráveis (é apenas possível medir views de canais) e 3.528 encaminhamentos.

A maçonaria é apenas uma ordem composta de várias fraternidades com presença mundial, composta em seu núcleo principalmente por homens.

Seus rituais secretos lhe renderam muitas teorias da conspiração, ao passo que políticas do século 18 da Igreja Católica lhe concederam uma reputação ruim entre religiosos, embora não tenha nada de ilegal ou demoníaco sobre ela.

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Mamadeira de piroca vs maçonaria

Reportagem do Valor Econômico de terça-feira à noite (4.out) informa que aliados do presidente Bolsonaro estão preocupados com a repercussão do vídeo.

Ainda de acordo com o Valor, o temor na campanha do presidente é que o vídeo se torne a “mamadeira de piroca” de Bolsonaro. A maçonaria tem forte rejeição entre católicos e evangélicos.

A mamadeira de piroca - fake news que deveria ser óbvia - foi usada contra Fernando Haddad, candidato à Presidência do PT em 2018, mostrava um objeto com o bico em formato de pênis, enquanto um narrador dizia que o petista pretendia distribuir o objeto em creches para combater a homofobia.

A mentira ajudou a aumentar a rejeição ao Haddad no eleitorado conservador. O vídeo de Bolsonaro na Maçonaria, no entanto, é verdadeiro, embora, oficialmente, o Planalto e a campanha de Bolsonaro não comentem o assunto.

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OUTRAS PEÇAS DA ESQUERDA

A maçonaria não é a única peça no tabuleiro da esquerda: uma planilha com links e argumentos para justificar o voto em Lula e não voto em Bolsonaro, assinada por um grupo de Mulheres de Ciência, Tecnologia e TI tem sido distribuída em grupos de WhatsApp.

Também resgataram uma declaração da pastora e cantora gospel Ana Paula Valadão a favor da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e uma foto de 2013 da pastora abraçando a petista.

Também colaram em Bolsonaro associações como "satanista" e ao símbolo pagão de Baphomet.

Mesmo veneno

A empreitada da esquerda é uma resposta à estratégia bolsonarista de associar Lula a figuras demoníacas – combater desinformação com contra-desinformação.

Na terça-feira (4.out), o PT entrou com uma representação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contra um autointitulado satanista e contra apoiadores próximos de Bolsonaro.

Segundo publicação da Folha de S.Paulo, a conta @vicky_vanilla, no TikTok, tem diversos vídeos de satanismo e apoio ao ex-presidente que estão sendo explorados nas redes sociais como propaganda negativa pelo senador Flávio Bolsonaro, os deputados federais Carla Zambelli e Gustavo Gayer, o músico Roger Rocha Moreira e influenciadores como Leandro Ruschell, Bernardo Kuster e Bárbara Destefani.

Embora essa estratégia de contra-ataque petista usando a mesma linguagem bolsonarista gere questionamentos, muitos militantes da esquerda estão eufóricos.

O troco da esquerda também veio com um alívio por conta da utilização de imagens exageradas e descontextualizadas por parte da direita para tentar prejudicar Lula, inclusive por autoridades do governo federal.

A coordenação para um contra-ataque chegou até ao Reddit, num post que reuniu material para ser compartilhado tem o seguinte comentário de um dos usuários: "É isso, não se ganha uma guerra com rodinha de poesia e florzinha na ponta do fuzil".

Se você é cristão, explore ao máximo essa história do Bolsonaro com a Maçonaria from brasil

A preocupação dos bolsonaristas pode ser constatada no Twitter. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, publicou em sua rede um vídeo de satanista declarando apoio ao candidato do PT e fazendo críticas a Bolsonaro. O influenciador, conhecido como Vicky Vanilla, desmentiu o apoio a Lula.

O vereador Carlos Bolsonaro, responsável pelas redes sociais da campanha de seu pai, reclamou, quem diria, de fake news envolvendo o presidente em seu perfil no Twitter.

O pastor Silas Malafaia, um dos principais líderes religiosos apoiadores de Bolsonaro, também entrou em ação e publicou vídeo minimizando o assunto.

Malafaia afirma que "o presidente é presidente de todos" e tudo bem "ir na igreja evangélica, na igreja católica, outras religiões ou na maçonaria, que é uma sociedade, isso é questão dele". O pastor diz ainda que o vídeo de Bolsonaro é de 2017, "quando ele nem era candidato a presidente ainda".

O site Fuxico Gospel, de grande audiência entre os evangélicos, repercutiu o caso dizendo que o vídeo de Bolsonaro teria assustado os religiosos, sinalizando que o contra-ataque furou a bolha progressista.

Em um dos maiores grupos bolsonaristas do Telegram, o B38, o vídeo também foi assunto. O site bolsonarista Pleno News publicou um post para desmentir um print falso de apoio de Bolsonaro à Maçonaria.

Nesta quarta-feira (5.out), circulam ainda trecho de uma entrevista de Bolsonaro - de 2016 - ao New York Times, onde ele fala sobre comer carne humana, e trecho de uma entrevista concedida à revista IstoÉ Gente, em fevereiro de 2000, resgatada pelo livro "O Negócio de Jair", da jornalista Juliana Dal Piva, onde ele defende o direito ao aborto.

CONTRA- ATAQUE

As redes criadas pela campanha petista para tentar dialogar com o público evangélico estão mais ativas nesse início do segundo turno.

A @RestituiBR, que utiliza as cores azul e amarela em sua identidade visual, começou a usar a hashtag #LivrePraVotar, que teve grande engajamento orgânico entre evangélicos progressistas no final do primeiro turno.

Em vídeo que circula por diversas redes e diversos perfis, o pastor Oliver Costa Goiano, do Núcleo Evangélico do Partido dos Trabalhadores, afirma que os valores de Lula são valores cristãos e que "todo mundo é conservador e progressista ao mesmo tempo". Ele cita como exemplo o voto feminino, conquista progressista, que hoje todo mundo é favorável.

Perfil oficial de Lula no Instagram desmente fake news de pacto com o diabo/Reprodução

A rede Evangélicos com Lula publicou vídeo com a ex-ministra e deputada federal eleita Marina Silva (Rede) afirmando que o nome de Deus está sendo usado em vão e criticando Bolsonaro por ironizar a morte de pessoas com falta de ar por Covid, outra imagem que voltou a circular na internet por ter sofrido rejeição entre os evangélicos.

O deputado federal reeleito André Janones (Avante), aliado de Lula e conselheiro da campanha para assuntos de redes sociais, também aproveitou a repercussão.

Na terça-feira (4.out), ele - que se diz evangélico - fez uma live em frente ao Templo do Salomão, sede da Igreja Universal do Reino de Deus, em São Paulo, dizendo que chegou a ser convidado a ingressar na Maçonaria, mas que recusou porque teria que "vender a alma".

“E quero alertar aos irmãos: a gente não sabe o que o Bolsonaro negociou lá na Maçonaria para eles apoiarem ele. Não estou dizendo que ele fez isso, mas eu não posso garantir, por exemplo, que ele não negociou em nome dos próprios eleitores. Se no pacto que ele fez não envolveu o nome dos próprios eleitores”, afirmou no vídeo, que tem 1,4 milhão de visualizações.

O contra-ataque não ficou só nas redes.

Em meio a guerra religiosa que dominou a internet, Lula se encontrou com frades franciscanos, ontem (4.out), no Dia de São Francisco de Assis.

A colunista Mônica Bergamo informou nesta, quarta-feira (5.out), que a coordenação de mobilização da campanha do ex-presidente Lula emitirá um documento com orientações sobre como a sua base de apoiadores, partidos e militantes deve agir neste segundo turno das eleições.

Entre as prioridades que serão apresentadas estão a realização de "mutirões porta a porta" em bairros periféricos e a conquista de novos eleitores.

"Não podemos perder tempo conversando entre nós", diz o material, segundo a jornalista.

Reportagem Julianna Granjeia
Análise de dados Sérgio Spagnuolo
Arte Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico


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