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Essa reportagem fala sobre abuso e exploração sexual de menores de idade e contém vocabulário perturbador para algumas pessoas, mas não possui imagens sensíveis.

Links com conteúdo sexual envolvendo menores de idade são proeminentemente indexados pelos dois maiores mecanismos de busca online, Google e Bing, o que evidencia a falta de atualização de monitoramentos automatizados desses serviços, mostra investigação do Núcleo.

A partir de simples buscas por termos já conhecidos envolvendo pornografia infantil, os links para esses grupos são encontrados nos primeiros resultados dessas ferramentas – um espaço de destaque que concentra a grande maioria dos clicks e visualizações nesses mecanismos de busca.

Encontrar esses grupos de exploração infantil foi fácil: nossa reportagem encontrou, em ambas as plataformas, links para grupos de pornografia infantil hospedados no ICQ – um dos serviços pioneiros no ramo das mensagens instantâneas e que, agora, por falta de moderação, abriga conteúdo ilegal.

Para os testes da reportagem, foram usados termos comumente associados à distribuição de material de exploração sexual infantil – não foi sequer necessário procurar muito.

O Núcleo menciona alguns desses termos abaixo, considerando que eles já são amplamente conhecidos por quem busca e que nossa audiência é consideravelmente menor do Google, Bing, ICQ e Facebook, e que a transparência desses termos pode ajudar a derrubar essas buscas.

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O Bing, inclusive, chegou a nos sugerir outros canais similares com o tema “novinhos de 13 e 14 anos”. No Google, segundo sua ferramenta Trends, busca por termo associado a pornografia infantil teve pico em 2019, o que mostra que é um problema antigo que nunca foi tratado.

O Núcleo enviou pedidos de comentários para Google (da Alphabet) e Bing (da Microsoft).

O Google informou que "detectamos, removemos e denunciamos proativamente esse tipo de conteúdo na Busca e temos proteções adicionais para filtrar e diminuir a visibilidade de conteúdos que sexualizam menores." (íntegra mais abaixo)

A Microsoft informou que "temos um compromisso de longa data com a segurança digital online e proibimos atividades que explorem, prejudiquem ou ameacem prejudicar crianças em nossos serviços." (íntegra mais abaixo)


É importante porque...

Conteúdo continua acessível, mesmo após o contato com assessorias do Google e Microsoft por parte da reportagem

A disseminação de pornografia infantil expõe as vítimas a um ciclo de vulnerabilidade constante, aumentando o risco de abusos futuros e expondo suas imagens permanentemente


O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu Artigo 241, estabelece medidas de proteção à infância e adolescência, proibindo a venda e distribuição de pornografia infantil. A lei brasileira é clara ao afirmar que é crime produzir, vender, divulgar ou armazenar material pornográfico envolvendo crianças e adolescentes.

Não é a primeira vez que o Núcleo encontra indexação de conteúdos criminosos no topo das buscas do Google. Em abril, o mecanismo do Google indexou em destaque uma rede de culto aos massacres escolares, justamente em meio à onda de temor sobre esses crimes no país.

Após a denúncia, essa rede social saiu do ar.

No Google, rede de culto a massacres escolares fica no topo das buscas
Site extremista rankeia entre principais resultados no mecanismo de busca -- basta saber seu nome

Em 2023, a SaferNet, organização responsável por manter um canal de denúncias de crimes e violações aos direitos humanos na internet, registrou um aumento de 70% no número de notificações de imagens de pornografia infantil nos quatro primeiros meses do ano, em comparação com o mesmo período em 2022.

GRUPOS NO ICQ

Por duas semanas em jun.2023, o Núcleo identificou um total de 13 grupos de pornografia infantil hospedados no ICQ.

Estima-se que, em 2022, o ICQ tenha alcançado aproximadamente 11 milhões de usuários mensais em todo o mundo. Em 2010, o serviço foi adquirido pela VK, uma empresa russa anteriormente conhecida como Mail.ru – nenhuma das empresas tem sede ou representação no Brasil.

Durante o período de monitoramento, observamos como o conteúdo desses grupos foi amplificado por meio da divulgação de links em plataformas de maior alcance, que também parecem carecer de moderação específica.

Entre esses grupos, descobrimos que o acesso a 3 deles ocorria por meio de grupos no Facebook, enquanto os outros 10 foram encontrados por meio de pesquisas realizadas no Google e Bing.

No Facebook, links com pornografia infantil circulam livremente
Investigação do Núcleo mostra como ICQ se tornou um veículo para venda de conteúdo ilegal infantil, com alcance alavancado por grupos abertos no Facebook

Nos grupos de abuso sexual infantil, são compartilhadas centenas de imagens e vídeos de abuso sexual envolvendo menores de idade. Em algumas ocasiões, as imagens parecem ter sido capturadas pelas próprias crianças, levantando preocupações sobre possíveis situações de aliciamento por meio das redes sociais.

Os posts nesses grupos direcionam os usuários para comunidades do ICQ, onde a rotatividade e oscilação no número de usuários são frequentes.

A cada hora, dezenas de usuários entram e saem desses grupos, sendo comum observar que a maioria daqueles que entram apaga rapidamente suas contas.

INDEXAÇÃO

Indexar conteúdo em mecanismos de busca é como organizar um imenso catálogo de informações da internet.

Os mecanismos exploram e coletam dados de sites, os quais são armazenados em grandes bancos de dados, com a criação de um índice. Quando você realiza uma pesquisa usando palavras-chave, o mecanismo de busca utiliza esse índice para encontrar e mostrar as páginas relevantes nos resultados da pesquisa.

Usando o Bing, da Microsoft, e o Google, o Núcleo começou a pesquisar por links de grupos de pornografia infantil na plataforma a partir de termos conhecidos e simples – um deles é cp, sigla para child pornography.

ℹ️

NOTA DOS EDITORES: Esse termo é uma mera sigla que já é conhecida por quem busca, por pesquisadores e até pela moderação de algumas plataformas. Estamos falando dele para que soluções possam ser tomadas.

Os resultados obtidos em ambos os buscadores foram quase idênticos, exibindo links de convite para grupos de pornografia infantil abertos, sem necessidade de pagamento para entrada.

Segundo o Google Trends, o pico dos últimos 5 anos por esse termo foi em 2019, o que mostra que não é algo novo, mas também nunca foi identificado pelos sistemas da empresa.

Google disponibiliza links abertos para grupos de pornografia infantil no ICQ. Imagem: Núcleo
Interesse de busca por links de pornografia infantil no Google, segundo Google Trends

No caso do Bing, o algoritmo de recomendação de conteúdo nos sugeriu “explorar mais” links de grupos de exploração sexual de menores de idade considerados populares.

Bing disponibiliza links abertos para grupos de pornografia infantil no ICQ. As partes censuradas são os links dos grupos. Imagem: Núcleo

RESPOSTA DAS EMPRESAS

Fizemos três perguntas específicas e idênticas a ambas as empresas.

O Google não respondeu diretamente a nenhuma das perguntas feitas pelo Núcleo. Por meio de sua assessoria de imprensa, disse somente que “detectamos, removemos e denunciamos proativamente esse tipo de conteúdo na Busca e temos proteções adicionais para filtrar e diminuir a visibilidade de conteúdos que sexualizam menores.”

Dias após a assessoria da empresa enviar seu posicionamento à reportagem, fizemos uma busca pelos mesmos termos e identificamos o mesmo conteúdo sendo indexado.

Horas após a publicação da reportagem, a Microsoft respondeu com um posicionamento oficial.

Perguntas que fizemos as empresas

  1. A empresa tem conhecimento de que links para grupos de pornografia infantil estão sendo indexados em seu mecanismo de busca? Se sim, quais medidas estão sendo tomadas para combater essa indexação e remover esses resultados prejudiciais?
  2. Qual é a política da empresa em relação à indexação de conteúdo ilegal, como pornografia infantil? Existem sistemas automatizados ou equipes especializadas encarregadas de identificar e remover esses resultados da busca?
  3. Como a empresa está trabalhando para garantir que os resultados de busca relacionados à pornografia infantil sejam completamente eliminados, evitando que usuários encontrem inadvertidamente esse tipo de conteúdo prejudicial?

Resposta do Google, na íntegra

“Embora os mecanismos de busca permitam que as pessoas encontrem páginas disponíveis na web aberta, a Busca do Google possui fortes proteções para limitar o alcance de conteúdos abomináveis que retratam abuso sexual infantil ou exploram menores. Detectamos, removemos e denunciamos proativamente esse tipo de conteúdo na Busca e temos proteções adicionais para filtrar e diminuir a visibilidade de conteúdos que sexualizam menores. Quando ocorrem violações de nossas políticas nesses casos, tomamos medidas imediatas. Estamos constantemente atualizando e aprimorando nossos algoritmos e políticas para combater essas e novas ameaças.”

Resposta da Microsoft, na íntegra

"Agradecemos por compartilhar essas informações enquanto continuamos a melhorar nossa capacidade de identificar e erradicar a Exploração Sexual Infantil e Imagens de Abuso (CSEAI)*. A Microsoft verifica nosso índice do Bing usando o PhotoDNA em busca de hashes conhecidos de CSEAI e usa listas de bloqueio de sites conhecidos. Quando detectamos ou somos notificados sobre o conteúdo verificado da CSEAI, nós o removemos de nossos resultados de pesquisa e trabalhamos para remover as sugestões de pesquisa relacionadas à CSEAI. Temos um compromisso de longa data com a segurança digital online e proibimos atividades que explorem, prejudiquem ou ameacem prejudicar crianças em nossos serviços”.

Google disponibiliza links abertos para grupos de pornografia infantil no ICQ. Imagem: Núcleo

COMO FIZEMOS ISSO

Procuramos por termos associados à pornografia infantil no Google e no Bing. Após identificar os links para os grupos nos resultados dos mecanismos de busca, entramos nos grupos para confirmar o tipo de conteúdo criminoso. Em seguida, tentamos entrar em contato com as assessorias da empresa.

Reportagem Sofia Schurig
Colaboração Leonardo Coelho
Arte Rodolfo Almeida
Edição Sérgio Spagnuolo

Texto atualizado às 11h39 de 29.jun.2023 para incluir posicionamento da Microsoft.

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