No jornalismo, Google e Facebook só pagam pelo caos que ajudaram a criar

Precisamos encontrar mais formas de financiar o jornalismo, mas de forma alguma devemos recusar a grana de big tech

Nos últimos anos tenho visto muitas críticas ao financiamento fornecido por gigantes de tecnologia, mais notoriamente Google e Facebook, a iniciativas jornalísticas no Brasil e afora. Não apenas muitas dessas críticas são bem-vindas, como também são valiosas — desde que mantenham civilidade, e não sejam uma forma de ataque ao jornalismo dos outros.

Se você jogar uma moeda pra cima hoje em dia no Brasil você é capaz de acertar na cabeça de alguma organização que tenha recebido dinheiro dessas empresas ou de algum outro grande conglomerado de tecnologia.

É difícil fugir desse dinheiro, especialmente perto do deserto de financiamento jornalístico no Brasil. A grande maioria das iniciativas não tem a capacidade, nem a escala, nem a audiência para conseguir 20-30 mil assinantes. Além de difícil de conseguir, dinheiro de fundações é escasso, burocrático e frequentemente amarrado a projetos.

Daí vem Google (cuja empresa por trás é a Alphabet) e Facebook (que agora se chama Meta) e falam: toma essa grana se você participar desse nosso programa de formação, checar essas notícias, desenvolver essa tecnologia ou usar esse tal formato.

Tenho certeza que essas empresas possuem agendas e interesses conflituosos com a prática jornalística, é óbvio que elas não estão distribuindo dinheiro por serem boazinhas. Seja como for, nunca fiquei sabendo de nenhuma interferência editorial por parte delas.


Uma pessoa que respeito, mas que aparentemente não conhece direito nosso trabalho e tampouco veio falar com a gente, uma vez reclamou no Twitter que o que fazemos é “jornalismo” — assim mesmo entre aspas, insinuando que não somos uma organização séria — porque tivemos um financiamento do Google de R$106 mil no começo do ano (sem nenhuma amarra editorial, diga-se, senão não teríamos aceitado). O que esse crítico não fala por aí é que a organização para a qual ele trabalha recebe mais de US$600 milhões por ano do próprio Google.

A verdade é que, como acontece em diferentes indústrias e setores, é difícil o jornalismo ficar longe de dinheiro de big tech. E para sustentar bom jornalismo são necessários muitos recursos.

Ninguém é ingênuo.

Google e Facebook têm um potencial gigantesco para causar estragos na sociedade. Enquanto o Facebook faz produtos viciantes e favorece engajamentos artificiais em troca anúncios, facilitando, entre outras coisas, a disseminação de desinformação e agravando problemas de saúde mental de adolescentes que passam cada vez mais tempo grudados em telas, plataformas como Google Ads e YouTube ajudam a financiar o que há pior na internet, desde conteúdo antivax até teorias da conspiração.

Ao dar dinheiro para jornalistas, essas empresas nada mais fazem do que direcionar uma parte ínfima das centenas de bilhões de dólares em faturamento que geram para ajudar a identificar e investigar problemas que elas mesmas ajudaram a criar — inclusive por dominarem o mercado de publicidade que antes era melhor dividido entre empresas jornalísticas.

Veja só: Facebook anunciou em março de 2020 que “investiria” US$100 milhões em jornalismo, num momento em que a pandemia começava a devassar o mundo. No mesmo ano, a empresa teve receitas totais de US$86 bilhões, um crescimento de 22%. Ou seja, 0,001% da sua receita de um ano foi para apoiar jornalismo.

Já em outubro de 2020 o Google anunciou “investimentos” de US$1 bilhão em parceria com veículos de notícias. Baita número, né? Bem, é apenas uma fração da receita total de US$182,5 bilhões em 2020.

Vale notar que esses “investimentos” das empresas são diluídos em vários anos, enquanto a receita é de apenas um ano, senão a comparação seria ainda mais grosseira. Se, como alguns críticos falam, essas gigantes querem “comprar” o favor de organizações jornalísticas, elas certamente não estão tirando nem a carteira do bolso, só jogam os trocados que ficam em cima da mesa.


O debate sobre o financiamento de big tech ao jornalismo precisa acontecer, mas ele não pode ser redutível, ou seja, não dá pra colocar no plano do “certo” ou “errado”. Na Austrália, uma legislação inovadora já obriga esses conglomerados a pagarem por notícias.

Precisamos encontrar mais formas de financiar o jornalismo de forma sustentável e depender menos de Google, Facebook e oligopólios de tecnologia, mas de forma alguma devemos simplesmente recusar o que eles oferecem para reparar o caos que criaram ou amplificaram (polarização, desinformação, problemas de saúde mental, discurso de ódio, concentração de recursos).

Algumas coisas para ler sobre isso:

Facebook e Google investem contra fake news. Mas são uma das causas do problema.
Gigantes da internet maximizam seus lucros com um ambiente propício para a propagação de notícias falsas. Agora terceirizam a responsabilidade.
Google, Facebook pledged millions for local news. Was it enough?
Facing regulatory and political pressure, Facebook and Alphabet Inc’s Google in recent years committed a combined $600 million to support news outlets globally - many of them local or regional enterprises foundering in a digital age.
Facebook made a $300 million pledge to help journalists — just like Google did last year
The internet giants make billions from ads. They want news publishers to sell subscriptions instead.


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