Quando uma crítica ao jornalismo vira um ataque

Quando a porrada é constante, a tendência é as redes sociais serem o martelo e os jornalistas, os pregos

Jornalistas são, sem dúvida, arredios a críticas. Quando acusados de erros, exageros ou partidarismos, por exemplo, tornam-se particularmente defensivos, melindrosos, irônicos e por vezes até agressivos.

Certa vez critiquei no Twitter um colega, pelo qual tenho muito apreço, pelo fato dele não ter colocado um link para a fonte original dos dados que utilizou em uma reportagem. O que era pra ser uma crítica válida ao modelo de transparência de veículos tornou-se uma ofensa pessoal, e ele me ligou para dizer que "não é hora de atacar colegas nas redes sociais". Fiquei horrorizado com esse comentário exageradíssimo, mas apaguei meu tweet.

Penso neste caso toda vez que leio nas redes sociais – com certa frequência, preciso dizer – sobre como jornalistas são pouco receptivos a críticas. Mas, quanto mais penso nisso, mais claro fica articular o motivo: jornalistas são volumosamente atacados, insultados e agredidos.

Quando a porrada é forte e constante, a tendência é as redes sociais serem o martelo e os jornalistas, os pregos.

Isso vale particularmente, mas não apenas, àqueles com mais seguidores. Nomes como Vera Magalhães, Miriam Leitão, Eliane Cantanhêde, Maju Coutinho e Guga Chacra, entre muitos outros, são diariamente alvo não apenas de críticas ou questionamentos, mas de insultos, doxxing, assédio, campanhas coordenadas de difamação e, consequentemente, ameaças.

Isso vem tanto da direita política quanto da esquerda – embora a esquerda tenha dificuldade de admitir isso, frequentemente dando justificativas patéticas para seu modus operandi, a direita basicamente abraça o manto sem pudor.

Em 4.dez publicamos o tweet abaixo baseado em uma reportagem da revista AzMina sobre ataques a jornalistas, a qual nossa empresa Volt Data Lab ajudou a captar, agregar e analisar os dados. Muitos dos comentários e dos retweets comentados dão apoio às ofensas que esses profissionais sofrem, e acontecem tanto da direita quanto da esquerda (mais da esquerda nesse caso).

Um dos comentários diz: "um absurdo mas a Eliane testa minha paciência é todo dia um tweet BURRO, todo dia um flertezinho com o fascismo".

Somado a tantos outros comentários similares ou até piores (acredite, há piores), isso constitui um ataque em massa. A partir de certo ponto, fica difícil para o jornalista distinguir entre crítica e ataque.

Críticas incomodam jornalistas porque apontam erros, deslizes e imprecisões que não gostaríamos de ter cometido e podem até invalidar uma reportagem ou artigo, mas no entanto podem ser válidas para que melhoremos e para nos corrigirmos. É difícil lidar com críticas, mas faz parte da vida.

Porém insultos, racistas, misóginos, desqualificadores, ameaçadores não são críticas. Olha essa outra "crítica" à jornalista:

Em março, a jornalista Mariliz Pereira Jorge publicou uma coluna na Folha com dezenas de insultos contra Jair Bolsonaro. Não foram críticas, foram insultos mesmo, e a jornalista precisa lidar profissionalmente com o fato de ter feito o que fez.

Acontece que todos temos dias ruins e insultamos ou ofendemos alguém, e que tirar sarro, fazer graça, provocar com ironias e até dar umas alfinetadas em jornalistas não é algo errado. Somos irônicos, cínicos e passivo-agressivos rotineiramente em várias situações (minha vizinha que odeia minhas cachorras sabe bem disso).

Mas quando a escala desses insultos atinge um volume gigantesco, deixam de ser coisas pontuais e se transformam em ataques direcionados ou puro e simples assédio, e jornalistas tornam-se automaticamente mais defensivos.

Faz sentido para esses jornalistas se isolarem do público com o qual poderiam dialogar quando esse mesmo público esmaga qualquer migalha de civilidade do debate.

Jornalistas sofrem isso todo dia, e o resultado são agressões que extrapolam as redes e avançam inclusive para o mundo real. Para jornalistas serem mais abertos e receptivos a críticas, seria necessário que não fossem mais os pregos, mas em um país extremamente polarizado no qual o próprio presidente e seus filhos promovem a porradaria, ninguém parece disposto a largar seus martelos.



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