Apagão levanta questões sobre dependência em produtos do Facebook

A interrupção não afeta apenas a publicação fotos de gatinhos ou memes sobre capivaras e futebol.

O apagão nos serviços do Facebook por 5 horas na tarde de segunda-feira (4.out) enviou uma onda de choque em vários lugares do mundo todo e expôs o nível de dependência que muitos setores econômicos possuem em produtos da maior empresa de redes sociais do mundo.

O caso é muito maior do que parece. A interrupção não afeta apenas a publicação fotos de gatinhos ou memes sobre capivaras e futebol.

Nos últimos anos, o Facebook se expandiu tanto que seus produtos não são apenas mais um centro de notícias e debates ou um ponto de encontro entre amigos, familiares e pessoas com o mesmo interesse, mas também intermediários econômicos e profissionais.

Rotas online para o Facebook aparentemente sumiram
Segundo especialistas, protocolo de roteamento parou de entregar conteúdo à plataforma

O Núcleo selecionou algumas das principais conversas acerca do impacto desse apagão e de nossa necessidade por esses produtos:

1. Pequenas empresas

Muitos empreendimentos de pequena escala utilizam plataformas do Facebook para vender produtos, serviços ou se comunicar com clientes. Um apagão de 5 horas significa a interrupção nos negócios para milhões de pequenas empresas em todo o mundo.

A queda do WhatsApp pode ter sido a mais consequente. Além de fazer a comunicação com clientes, o app de mensagem também processa pagamentos e serve para realizar agendamentos e fazer encomendas, especialmente de comida. Cerca de 70% usam serviços de mensagens com o Zap e o Facebook Messenger para vender.

Por exemplo: o G1 publicou relatos de comerciantes no Distrito Federal que não conseguem nem avaliar o tamanho do tombo que tomara.

"Posso dizer que 99% dos meus clientes pedem comida pelo WhatsApp, e ele parou justamente na hora mais pesada do meu delivery. Até agora não sei o tanto de pedidos que perdi", disse uma chef de cozinha que vende marmitas.

Para além de comércios e serviços, o WhatsApp é basicamente um aplicativo default de mensagens no Brasil. Enquanto nos EUA o uso de SMS via rede celular ainda é bastante usado, por aqui praticamente todo celular tem o aplicativo.

Isso significa que equipes de empresas se comunicam por lá, advogados falam com seus clientes, famílias trocam informações e cidadãos falam com serviços públicos, como polícia e empresas de transporte.


2. Logins via Facebook

Um outro fator de impacto na queda dos serviços é que muitas pessoas usam suas credenciais do Facebook como acesso a outros serviços, como sites de jornais, serviços de entretenimento, aplicativos de entregas, ferramentas de produtividade, entre outros.

Inclusive, muitas pessoas podem utilizar essas credenciais em fechaduras e aparelhos domésticos – que ficariam desabilitados ou com capacidade limitada em caso de apagão.

Isso se soma a outros problemas já encontrados no uso de plataformas de Social Login, como em 2018 quando um ataque ao Facebook permitiu o acesso a plataformas de terceiros para os atacantes. E o uso desses plugins de autenticação para aumentar a capacidade de captação de dados do próprio Facebook.

3. O problema do zero rating

O acesso a certos sites e aplicativos sem cobrança de tarifas (o chamado zero rating) é uma prática comum por operadoras de telefonia móvel no Brasil.

Esse é um tema espinhoso.

Embora à primeira vista possa parecer um bom benefício – afinal, não cobrar por acesso ajuda muitas pessoas que não podem pagar – esse mecanismo ajuda a criar uma dependência em poucos sites e serviços online, reduzindo o escopo do que é a internet aberta e deixando usuários reféns de poucas empresas.

Por outro lado, fornece a muitos usuários acesso a serviços que eles não estariam dispostos a pagar, caso pudessem.

Afinal, alguém precisa pagar a conta desse acesso "grátis", certo? Muitas vezes as operadoras contam com a parceria de redes sociais e serviços de streaming, por exemplo.

Segundo o pesquisador do InternetLab, Pedro Henrique Ramos:

"O modelo zero-rating está longe de ser uma unanimidade, e têm sido amplamente discutido e debatido na academia e junto à sociedade civil. Por um lado, acadêmicos têm reconhecido benefícios sociais no uso do zero-rating, contribuindo para a inclusão digital. Outra corrente de pesquisadores tem feito oposição a esse modelo, apresentando argumentos tanto de uma perspectiva concorrencial como também por uma perspectiva mais relacionada a discursos de liberdade de expressão e promoção de conteúdo local.

4. Concorrência pesada

Um outro problema com o tamanho do Facebook é que ele, junto ao Google, se tornou uma potência de anúncios online, controlando mais de 50% do mercado de anúncios online, segundo a Emarketer. Junto a outras Big Tech, a fatia vai pra quase 75%.

Isso significa que todo o resto do mercado online (sites de jornalismo, produtos baseados em publicidade etc.) tem que brigar pelas migalhas desse 1/4 que sobra.

5. O Facebook tem seus próprios problemas

De brigas entre acionistas a processos judiciais, basicamente desde seu lançamento o Facebook tem se envolvido em escândalos, brigas e polêmicas.

Mas esse é um momento ambivalente para empresa: nunca esteve tão forte nem tão vulnerável.

Se por um lado a companhia só cresce em faturamento, usuários, produtos, influência, por outro há um tsunami de problemas gerados por ela que constantemente vêm à tona. Como desinformação com graves consequências para a sociedade, vendas de artigos ilegais via suas plataformas e até privacidade de dados e saúde mental.

Em setembro o Wall Street Journal divulgou o Facebook  Files, vazamentos internos de uma ex-funcionária que mostram que a plataforma tinha noção de várias falhas sistêmicas, desde saúde mental de adolescentes no Instagram até tratamento VIP para certas personalidades.

O jornal New York Times publicou em 21.set os planos da rede social de melhorar sua imagem ao forçar conteúdos pró-Facebook em seu próprio feed de notícias, em um projeto interno chamado Amplify. O site The Information revelou a existência dos documentos em maio.

Facebook passa por bombardeio de cobertura negativa
Dezenas de reportagens, tanto na imprensa estrangeira quanto na nacional, têm trazido luz a contradições e falhas nas políticas internas da empresa
Texto Sérgio Spagnuolo
Colaboração Lucas Lago
Edição Alexandre Orrico e Samira Menezes



Faça parte da conversa

Reações de apoiadores
carregando reações...

Apoie o Núcleo para publicar seu comentário, reagir à matéria e participar da conversa. Caso já seja apoiador ou apoiadora, faça login abaixo sem senha, usando apenas seu email.


Veja nossas publicações abertas

Você se inscreveu no Núcleo Jornalismo
Legal ter você de volta! Seu login está feito.
Ótimo! Você se inscreveu com sucesso.
Seu link expirou
Sucesso! Veja seu email para o link mágico de login. Não é preciso senha.
Por favor digite ao menos 3 caracteres 0 Resultados da busca