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O Telegram foi essencial para a organização e planejamento logístico das invasões de 8.jan.2023 à sede dos Três Poderes graças à moderação mais fraca na rede. A avaliação é da pesquisadora Emillie de Keulenaar, da Universidade de Groningen, que também detectou que outras plataformas assumiram funções secundárias na data.

"A partir do momento que o resultado das eleições foi declarado, o Telegram foi usado para planejar coisas mais sensíveis do ponto de vista de segurança ou da possibilidade deles (grupos bolsonaristas) serem moderados ou então punidos. Inicialmente, para planejar as greves de novembro e dezembro e pedir o golpe militar em várias formas. E, eventualmente, para planejar o ataque de 8.jan", afirmou a pesquisadora ao Núcleo.

Emillie faz parte de um grupo de pesquisadores da Universidade de Groningen e Amsterdam que desde o fim de 2021 está coletando dados brasileiros de seis plataformas: Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, Telegram e Gettr.

Nos dias próximos à invasão aos Três Poderes, o grupo analisou as movimentações, conversas e conteúdos nas plataformas e como o uso das redes foi afetado por decisões de moderação.

Conclusões principais:
- Evento: Chamados por intervenção militar eram relativamente "marginais" antes de 31.out.2022, mas dispararam após a vitória de Lula e assumiram protagonismo dentre as demandas bolsonaristas.
- Plataformas: Cada plataforma teve um papel. O Telegram foi usado para planejamento detalhado e de maneira relativamente coordenada, enquanto o Facebook e Instagram distribuíram convocações para os eventos de 8.jan.23. O tipo de linguagem e terminologia fica "mais ou menos explícito", segundo a pesquisa, a depender da tendência de moderação de cada rede.
- Moderação: As plataformas, em especial FB e Instagram, fazem moderação sob uma ótica norte-americana. Conteúdo que pediu intervenção militar ou federal, questão considerada pelos pesquisadores como "existencial" ao Estado brasileiro, praticamente não foi moderado.
- Rede: A despeito de esforços de plataformas e autoridades brasileiras para moderar publicações de teor golpista, esse conteúdo ainda circulou entre plataformas "mais ou menos moderadas", beneficiando-se da falta de contexto brasileiro na moderação de conteúdo.

Na avaliação de Emillie, o tipo de organização possibilitado no Telegram não seria possível em outras plataformas, como Twitter, Facebook e Instagram. "Não são plataformas que são muito fáceis para fazer um tipo de coordenação assim em detalhes menores - horários, lugares, pessoas, ônibus, etc - e segundo, como eles mesmos temeram, são muito mais propícias à moderação, tanto pela plataforma quanto pelo TSE", explicou.

Depois de organizados no Telegram, detalhes eram repassados de maneira menos específica e até cifrada em plataformas como Twitter. Emillie cita o caso de Ana Priscila Azevedo, organizadora dos atos golpistas presa em 10.jan, como alguém que tanto exerceu o papel de planejamento logístico no Telegram quanto distribuiu mensagens mais "cifradas" no Twitter.

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O YouTube, segundo a pesquisadora, foi amplamente citado tanto em redes mais moderadas quanto menos – como o Telegram – como uma espécie de repositório de recursos intelectuais, com vídeos de Olavo de Carvalho e da Jovem Pan, com interpretações que, de alguma maneira, dialogavam com as expectativas dos radicais sobre um golpe militar.

Facebook e Instagram foram usados para distribuir convocações para os atos do dia 8.jan, mas também de maneira mais encoberta, menos explícita. Emillie chama atenção, no entanto, para a presença de vídeos no FB de influencers ou personagens que também são ativos no Facebook. É o caso de um suposto militar da reserva chamado Coronel Koury, o principal administrador do grupo de Telegram B38.

"Ele foi instrumental nessa teorização de que houve fraude e que não se pode confirmar a veracidade do processo sem o código-fonte. Ele também postava muitas coisas no FB sem muita moderação", disse Emillie.

O papel das lideranças

Na visão da pesquisadora, no caso do Telegram, é preciso olhar para lideranças além de pessoas, já que conteúdos também podem constituir-se como pontos de influência que alteram o curso da conversa.

"No Telegram há um câmbio infinito de informações, a todo momento tem alguém escrevendo alguma coisa, mas em certo momento tem alguma coisa que alguém escreveu ou algum áudio que começa a viralizar e isso em si acho que constitui um influencer, uma informação que muda o curso da conversa", disse Emillie.

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Como conteúdos virais, ela cita vídeos do Olavo de Carvalho em que o filósofo fala sobre uma teoria alternativa de tomada de poder pelo povo e, nos dias 2 e 3.jan, quando teve início o planejamento, viralizaram áudios de Ana Priscila Azevedo e de uma outra mulher.

A análise também apontou para outro tipo de conteúdo bastante influente: áudios de pessoas que dizem ter contatos com militares ou parentes de militares. "Esses também têm muita influência, porque afinal é uma informação privilegiada".

Virais seguem sem moderação

Os pesquisadores capturaram dados sobre como os 500 conteúdos mais populares de cada plataforma foram moderados (exceto Gettr, por razões técnicas).  Os conteúdos com mais engajamento não foram moderados até hoje, disse Emillie.

Além disso, a análise mostra que, a grosso modo, as políticas aplicadas no Brasil já tinham sido desenvolvidas antes para outros contextos eleitorais.

"Essas políticas não faziam em nenhum lugar menção de conteúdos que promoviam, por exemplo, golpe. Isso não é uma coisa que foi reconhecida por nenhuma das plataformas como problemática", explicou a pesquisadora.

Essa questão da falta de contexto local e adaptação para as eleições brasileiras também foi apontada por mais de 100 entidades que publicaram demandas às plataformas em 7.fev.23 sobre integridade eleitoral.

Emillie diz que agora é possível ver que alguns conteúdos foram deletados, o que sugere, em sua visão, uma ação retrospectiva. "São as plataformas tentando acordar à realidade da violência política, dos conteúdos que deixaram ser postados".

Visualizações da pesquisa [em inglês] podem ser acessadas neste link.

Reportagem Laís Martins
Edição Julianna Granjeia


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