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O sistema de recomendação de vídeos do YouTube está sendo utilizado por criadores de conteúdo para propagar desinformação ambiental e radicalizar os usuários, apontou um novo estudo do Netlab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Intitulado “The Far-Right Smokescreen: Environmental Conspiracy and Culture Wars on Brazilian YouTube”, o estudo analisa os comentários e as redes de vídeos recomendados no YouTube a partir de um filme da Brasil Paralelo, uma produtora conservadora de vídeos.

O documentário, intitulado “Cortina de Fumaça”, nega a magnitude do problema do desmatamento e promove perspectivas conspiratórias sobre movimentos ambientalistas. Apesar disso, o documentário obteve bastante sucesso, alcançando 1,8 milhão de visualizações em poucos meses.

O vídeo foi um dos mais compartilhados em grupos do Telegram, entrando rapidamente para a lista de links do YouTube mais compartilhados no aplicativo.

O Núcleo conversou com uma das autoras do relatório, Débora Salles, que apresentou os principais achados da pesquisa.

Sobre o Brasil Paralelo

A empresa foi fundada em 2016, e seu CNPJ abrange desde o desenvolvimento e licenciamento de programas de computador, serviços de mixagem sonora, serviços de informação na internet até a edição de livros e jornais, além de atividades de consultoria em gestão empresarial.

A Brasil Paralelo declara que seus valores são liberdade, busca pela verdade, ambição, meritocracia, beleza e arte. O site afirma: “Sem investimentos milionários, apenas com o suporte de nossos membros, criamos obras que impactaram a vida de milhões de pessoas — obras nas quais resgatamos nossa história, tão maltratada, tocamos na ferida da educação e apresentamos, com sobriedade, temas delicados, produzindo alguns dos documentários mais assistidos do Brasil.”

Um dos primeiros virais da empresa foi um vídeo de 2018, divulgado três dias antes do primeiro turno, que apontava uma falsa fraude eleitoral em 2014. Esse vídeo tentou enganosamente utilizar uma lei matemática para explicar a suposta fraude, causando muita confusão à época e servindo de munição para os apoiadores do então candidato Jair Bolsonaro, que temiam a derrota nas urnas.

Citada no relatório da CPI da Pandemia como parte do núcleo de produção de fake news, a empresa foi alvo de um pedido de quebra de sigilo, que acabou sendo engavetado.

Em out.22, o ministro Benedito Gonçalves do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), após determinar a desmonetização do canal do YouTube do Brasil Paralelo, disse ser “preocupante” que canais produzam conteúdo para endossar o discurso de Bolsonaro, valendo-se de notícias falsas “prejudiciais ao candidato Lula, com significativa repercussão e efeitos persistentes”, mesmo após a remoção dos conteúdos.

A produtora se diz “imparcial”, “independente” e “apartidária”. Em entrevista à Piauí, Henrique Viana, um dos fundadores da produtora, afirmou que a publicidade gerada pela CPI da Pandemia fez o número de assinantes do site passar de 200 para 250 mil em 2021. Ainda segundo a revista, os empresários Jorge Gerdau, da gigante produtora de aço Gerdau, Pedro Englert, sócio da startup StartSe, e Roberto Dagnoni, sócio da Mercado Bitcoin, integram um grupo de conselheiros da empresa, com participação “simbólica” no capital da produtora.

Em jun.22, em uma entrevista ao influencer Monark, o sócio-fundador Lucas Ferrugem afirmou que a produtora tem atualmente 250 funcionários. Segundo a Folha de S.Paulo, a empresa faturou R$ 30 milhões em 2020, um crescimento de 335% em relação a 2019, já descontada a inflação.

Ao Intercept, sobre o financiamento do Brasil Paralelo, o site informou que não tem investidores. “Os atuais acionistas são os três sócios fundadores. A venda de assinaturas representa 98% do faturamento, as receitas financeiras representam 1% e o programa da partnership que estamos estruturando (compra e venda de ações entre pessoas engajadas na construção do negócio, de acordo com as melhores práticas de compliance e que será auditada) representará 1% da receita. A independência editorial sempre será prioridade em nosso modelo de negócio”, afirmou o site em 2021.

Como o Brasil Paralelo gasta milhões pelo topo do Google
Núcleo destrinchou como a produtora de vídeos alinhada com o bolsonarismo faz para ficar no topo do mecanismo de buscas

RESULTADOS

Para além das inovações metodológicas do estudo, a pesquisadora destacou que foi especialmente interessante observar a repercussão da obra através dos comentários, bem como o destino para o qual o YouTube estava direcionando usuários após assistirem ao documentário.

Dos 49 vídeos sugeridos pela própria plataforma, apenas 5 abordavam temáticas ambientais. Surpreendentemente, quase metade das recomendações (um total de 23) versava, na verdade, sobre questões políticas.

“[O sistema de recomendações] sequestra o tema ambiental e o associa às perspectivas de guerras culturais, discussões extremistas e política”, comentou Salles. Ela explicou que isso direciona o usuário para outros temas de cunho extremista, assim como canais similares.

Entre esses canais, por exemplo, apenas seis foram responsáveis por 414 vídeos recomendados, de um total de quase 982 vídeos.

De acordo com os pesquisadores, esse resultado, aliado à análise dos comentários sobre o filme, indica que o debate ambiental está — ainda que gradualmente — sendo envolvido no que eles chamam de guerra cultural.

“Isso gera uma negligência perigosa com relação ao aspecto científico do debate ambiental, favorecendo uma posição baseada em afiliação ideológica coletiva”, diz o estudo.
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Guerra Cultural

Guerras culturais são uma reação às mudanças morais que se enraizaram na legislação e nas instituições encarregadas de formar e informar: escolas, universidades e os meios de comunicação. O conceito se refere aos discursos sobre pautas morais, como aborto, posição da mulher na família e na sociedade, sexualidade, legalização das drogas etc.

Fonte: Guerras Culturais: Conceito e Trajetória

PERSPECTIVAS

O YouTube, neste contexto, pode ser visto como uma ferramenta que está contribuindo para a radicalização dos usuários. Esse tema vem sendo debatido há alguns anos, tanto pela própria plataforma quanto por especialistas no Brasil e no exterior.

“Na realidade ainda não há consenso sobre a extensão desse problema”, comenta Salles. “Entretanto, é consensual que o YouTube tende a direcionar para conteúdo problemático e não está fazendo o suficiente para evitar que as pessoas alcancem esse tipo de conteúdo”.

Recentemente, em mai.23, o YouTube reduziu a transparência ao dificultar pesquisas sobre o seu algoritmo de recomendação.

Canais investigados pelo TSE escondem vídeos no YouTube
Foco do Brasil e Brasil Paralelo excluíram ou privaram vídeos no YouTube um dia após decisão do TSE que ordena desmonetização.
Reportagem Leonardo Coelho
Edição Sérgio Spagnuolo
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