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Centenas de pessoas reclamaram ter caído em falsas promessas de aplicativos chamados 'Códigos Lucrativos', que garantem rastrear, com inteligência artificial do Google, códigos promocionais de empresas como Shopee, Nike e Magazine Luiza — incluindo promessas de cashback via PIX.

O Núcleo identificou mais de 1.200 anúncios pagos sobre o aplicativo nas principais redes da Meta (Facebook, Instagram e Messenger), além de vídeos feitos por influenciadores com milhares de seguidores no YouTube.

Entre os diversos problemas apontados sobre o app está o fato que, para resgatar os supostos códigos, o usuário precisa ir até o site do aplicativo e comprar uma licença, que pode custar até R$297.

No site ReclameAqui, centenas de usuários relatam ter enfrentado perdas financeiras, que variam de R$90 a R$300, em compras irreversíveis relacionadas à licença do programa ou em outros pagamentos dentro do próprio aplicativo.


É importante porque...

Promessas de lucros com aplicações de inteligência artificial estão cada vez mais comuns desde a popularização do ChatGPT, da OpenAI

O apelo dessas novas tecnologias de IA atraem potenciais vítimas que acreditam em seu potencial


O Núcleo identificou pelo menos quatro aplicativos diferentes chamados 'Códigos Lucrativos' na loja de apps do Google, a Play Store, todas com o mesmo ícone, mas lançadas por usuários diferentes. Na loja de aplicativos da Apple, para iPhone, aparentemente não há nenhum app do tipo.

Após contato da reportagem com o Google, apenas um dos aplicativos continuava no ar, feito para aproveitar a fama do app original e que mostra apenas anúncios de jogos. Os desenvolvedores afirmam que "este aplicativo não está associado ao app oficial; é apenas um guia de uso".

Mas quando o tal guia de uso aparece, você é logo redirecionado apenas para mais anúncios.

Outras versões dizem que para receber o dinheiro os usuários precisam apenas avaliar publicidades dessas grandes varejistas, utilizando botões de “gostei” e “não gostei”.

As descrições do que os apps fazem são vagas, dificultando a compreensão do que foi adquirido e, consequentemente, tornando mais difícil buscar reembolso do dinheiro eventualmente gasto dentro destes programas.

O site do aplicativo original, que vende licenças de uso em troca dos supostos cupons, continuava no ar até a publicação da reportagem.

BOMBANDO COM ADS

O Núcleo identificou cerca de 918 anúncios ativos e 378 inativos promovendo a licença do app original em diversas redes da Meta, incluindo Messenger, Facebook e Instagram.

Após o contato da reportagem, a Meta desativou 82 anúncios que mencionavam o aplicativo e/ou a licença.

“Essa nova IA do Google tá uma loucura.. todo mundo comentando, tá realmente mudando a vida de geral. 🔥🔥🔥”
anúncio do app na Meta.

Os anúncios do 'Códigos Lucrativos' que foram retirados pela Meta foram por violações das políticas de propriedade intelectual, não relacionados a fraude, provavelmente por citarem parcerias e usarem nomes de outras marcas.

PERFIS FAKES. Os Padrões de Publicidade da Meta proíbem a veiculação dessas propagandas — não apenas devido ao conteúdo enganoso, mas também pela falta de autenticidade dos perfis e páginas responsáveis pela divulgação.

Durante a investigação, pelo menos 5 perfis promovendo o aplicativo utilizavam fotos de perfil copiadas do Pinterest ou chupinhadas de buscas na internet. Alguns pareciam apresentar fotos geradas por inteligência artificial.

Em um caso específico, um perfil que publicou 100 anúncios apenas no dia 27.set utilizava a foto de uma nutricionista paraibana.

Imagem comparando imagem associada a uso de anúncios do app 'Códigos Lucrativos' nas redes da Meta com imagens encontradas na internet de uma nutricionista paraibana
A imagem foi borrada para evitar exposição da nutricionista

A maioria desses perfis envolvidos na veiculação dos anúncios parece ter sido criada em setembro, poucos dias antes do início da exibição das peças.

O breve intervalo de tempo levanta dúvidas sobre se os perfis foram de fato submetidos à verificação obrigatória pela Meta para a veiculação de anúncios legítimos.

Tem dicas de histórias sobre o impacto da tecnologia na vida das pessoas? Fale com a repórter Sofia Schurig por email.

NO YOUTUBE

Em uma semana, dezenas de vídeos promovendo o aplicativo foram identificados no YouTube, seja por meio do suposto site oficial ou por meio de terceiros.

Alguns desses canais, com mais de 100 mil seguidores, chamam a atenção por terem os mesmos apresentadores em canais distintos.

O Google, responsável pelo YouTube, proíbe “conteúdo que oferece brindes em dinheiro, esquemas de enriquecimento rápido ou de pirâmide”.

Um desses vídeos promocionais é conduzido por Márcio React, um youtuber com 322 mil inscritos, que endossa o aplicativo e destaca a proliferação de 'inúmeras versões falsas'.

Márcio orienta os espectadores a adquirirem a versão autêntica pelo site oficial da plataforma.

Apesar das thumbnails “alarmistas”, a autora dos vídeos fala, em canais diferentes, sobre a suposta licença para o aplicativo.

Neste site indicado pelo influenciador, é possível adquirir a licença por R$97, com um desconto de R$200, utilizando a empresa de pagamentos PerfectPay, cuja página no ReclameAqui conta com mais de 500 queixas recentes e desfavoráveis relacionadas ao 'Códigos Lucrativos'.

Questionamos o YouTube se a empresa possui políticas específicas que proíbam a veiculação de aplicativos como o 'Códigos Lucrativos', e se os influenciadores que promoveram a aplicação enfrentarão algum tipo de punição na plataforma.

A empresa não respondeu aos múltiplos pedidos do Núcleo, mas todos os vídeos citados acima foram removidos logo após o nosso contato.

POR OUTRO LADO. Diversos influenciadores estão se esforçando para alertar seus seguidores de que o aplicativo se trata de um golpe, incluindo youtubers renomados com milhões de inscritos.

Mesmo nas publicações que promovem o aplicativo, é possível observar comentários de usuários solicitando reembolsos e compartilhando suas experiências de perda financeira.

No YouTube, caçadores promovem montagem de armas de fogo
Prática vai contra política de conteúdo da plataforma, além de ser potencialmente ilegal. YouTube removeu +100 vídeos irregulares após contato do Núcleo.

NO RECLAMEAQUI

Alguns dos anúncios promovendo o 'Códigos Lucrativos' na Meta redirecionam diretamente os usuários para a página de checkout da empresa brasileira de pagamentos PayT, onde podem adquirir a suposta 'licença oficial' do aplicativo.

No ReclameAqui, a empresa acumula 34 páginas repletas de reclamações referentes ao 'Códigos Lucrativos'.

A maioria dessas queixas relata que os usuários foram atraídos para o aplicativo por meio de anúncios nas plataformas da Meta, como o Instagram, e acabaram pagando centenas de reais por uma licença que se revelou falsa.

Uma reclamação em particular inclui um link para um suposto formulário de reembolso 'oficial', hospedado no Google Forms. O texto informa ao usuário que, ao concluir o pedido, ele “perderá o acesso aos programas do sistema 'Códigos Lucrativos'” e “não poderá mais adquirir qualquer produto associado ao grupo Hydra Markers”.

Registrado como CNPJ em abr.2022, o grupo Hydra Markers acumula centenas de acusações relacionadas a golpes, propaganda enganosa e fraude, todas ligadas ao aplicativo, no ReclameAqui.

A empresa não respondeu a nenhuma das reclamações dos consumidores até o momento.

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RESPOSTA DAS EMPRESAS

O Núcleo enviou à Meta três perguntas diretas sobre a moderação dos anúncios em sua plataforma. A empresa esclareceu que proíbe “atividades fraudulentas que visem enganar, distorcer, cometer fraudes ou explorar terceiros”.

A Meta explicou que utiliza “uma combinação de denúncias da comunidade, tecnologia e revisão humana para identificar conteúdos violadores e aplicar suas políticas”. Em 2022, a empresa unificou as equipes de integridade de negócios, que modera conteúdo em anúncios, com a equipe geral de moderação de conteúdo dos usuários.

META Perguntas&Respostas

  1. Como a Meta modera produtos como esse, que se utilizam da publicação de quantidades massivas de anúncios, muitos deles de qualidade e legalidade duvidosa?
  2. Aproveitando, a Meta verifica via funcionários humanos os perfis dos anunciantes da plataforma?
  3. A maioria dos anunciantes tinha perfis criados em setembro. A Meta não possui diretrizes (como tempo mínimo de criação da conta, verificação de e-mail ou identidade) para os perfis ou páginas que podem anunciar na plataforma?

Não permitimos quaisquer atividades que violem nossos Padrões da Comunidade ou de Publicidade, como atividades fraudulentas que tenham como objetivo enganar, deturpar, cometer fraude ou explorar terceiros, e estamos sempre aprimorando a nossa tecnologia para combater atividades suspeitas. Usamos uma combinação de denúncias da nossa comunidade, tecnologia e revisão humana para identificar conteúdos violadores e aplicar nossas políticas.

Recomendamos que as pessoas denunciem quaisquer conteúdos no Facebook ou Instagram que acreditem que possam ir contra as nossas Diretrizes da Comunidade através dos próprios aplicativos.

Compartilho contigo, abaixo, um passo a passo de como denunciar conteúdos suspeitos no Facebook.

YOUTUBE Perguntas (sem respostas)

  1. O YouTube possui alguma política específica que proíba a veiculação de vídeos propagandeando aplicações ilegais, como o Códigos Lucrativos?
  2. Os influenciadores que promoveram o aplicativo sofrerão alguma punição?

COMO FIZEMOS ISSO

Pesquisamos na Biblioteca de Anúncios da Meta por apps relacionados à inteligência artificial e analisamos anúncios recentes, nos deparando com o 'Códigos Lucrativos'. Em seguida, aprofundamos nossa pesquisa em plataformas como o YouTube e também em sites como o ReclameAqui. Por último, contatamos as assessorias mencionadas.

Reportagem Sofia Schurig
Arte Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico e Sérgio Spagnuolo
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