Aliados de Trump fazem campanha nas redes para Bolsonaro e espalham mentiras

Steve Bannon e outros publicaram que as eleições brasileiras foram fraudadas; Trump, seu filho e Orban fizeram vídeos que foram traduzidos para as redes #NúcleoNasEleições

Reportagem Laura Scofield
Colaboração Alice Maciel

Esta reportagem foi feita numa colaboração entre Agência Pública, Aos Fatos e Núcleo Jornalismo para a cobertura das eleições de 2022. A republicação só é permitida com a atribuição de crédito para todas as organizações.


O 1º turno das eleições presidenciais ocorreu no domingo (1º.out.22) sem nenhuma intercorrência ou denúncia concreta de fraude eleitoral, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Com 99,99% das urnas apuradas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) seguem para o 2º turno, que será decidido em 30 de outubro. Porém, para ideólogos da extrema-direita norte-americana, os resultados soaram “estranhos”.

Sem provas, na manhã de segunda-feira (3.out), o ex-estrategista de Donald Trump e amigo da família Bolsonaro, Steve Bannon, e Matthew Tyrmand, membro do conselho do Projeto Veritas, uma organização conservadora que usa câmeras secretas para intimidar e expor jornalistas, levantaram suspeitas sobre os resultados das eleições brasileiras no podcast War Room, criado por Bannon.

“Houve fraude lá, definitivamente houve fraude lá”, disse Tyrmand. Ele usou o fato de que as primeiras urnas apuradas deram vantagem a Jair Bolsonaro e também citou a eleição para o Senado, onde o partido do presidente fez a maior bancada, como indicativos de que os votos para presidente teriam sido roubados ao longo da noite. “Isso [as eleições brasileiras] não foi limpo, isso não parece limpo, não cheira limpo”, disse.

Reprodução / Publicação de Matthew Tyrmand aponta suposta “fraude” nas eleições

Tyrmand também disse que já havia previsto esse resultado: tamanha seria a força de Bolsonaro que as instituições brasileiras não conseguiriam anular a vitória dele no 1º turno, então seria necessário estender a disputa para eleger Lula. “Eu tenho falado há semanas que isso [eleições] não iria se resumir ao 1º turno, que eles iriam apertar para fazer chegar ao 2º. Eles não iriam fazer nada exagerado já no 1º turno”, disse.

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Nas redes

A Pública analisou um ano do podcast para entender o que Bannon e seus convidados têm falado sobre o Brasil — e descobriu que as nossas eleições são consideradas cruciais para a direita americana e mundial.

Ao longo de domingo (2.out), Bannon e Tyrmand também se manifestaram no Gettr, rede elogiada constantemente no programa. “Dia importante no Brasil, enquanto Bolsonaro tenta salvar a nação do Lula, que é propriedade do CCP [Partido Comunista Chinês, na sigla em inglês]”, disse Bannon.

Tyrmand compartilhou os vídeos de sua participação no programa de Bannon e replicou posts de outras pessoas que levantaram suspeitas de fraude.

A Gettr foi fundada pelo ex-porta-voz de Trump Jason Miller, que esteve em Copacabana durante o comício de Bolsonaro em 7 de setembro e patrocinou eventos que tiveram pré-campanha para o presidente realizados pelo Instituto Conservador Liberal de Eduardo Bolsonaro.

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Uma conta em apoio ao ideólogo da extrema-direita, Bannonnites United, que passa de 12 mil seguidores também fez várias publicações sobre as eleições brasileiras na rede, por vezes com a hashtag #keepthereceipts [guarde os recibos].

Às vésperas do dia da votação, bolsonaristas fizeram campanha para que as pessoas guardassem os comprovantes de votação que são entregues em todas as eleições pelos mesários e fotografassem os boletins de urnas das seções eleitorais para viabilizar uma espécie de auditoria paralela anti-fraude.

Reprodução / Aliados de Bolsonaro incentivaram auditoria paralela dos votos

Tweets sobre fraude em inglês

Matthew Tyrmand – que chegou a ser questionado pela PF em Brasília em 7 de setembro de 2021 – também se valeu do Twitter para espalhar a versão de fraude no Brasil para um público internacional.

“Fraude descarada ocorrendo”, escreveu ele, em inglês, postando imagens dos primeiros resultados. “Estatisticamente, não é possível que todos os resultados vão para um lado só”, escreveu, falseando a regra matemática. Ele escreveu ainda que Lula não “pode fazer campanha [nas ruas] por medo de ser chamado de criminoso”.

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Teve quase de 7 mil interações e foi retuitado, entre outros, por Mark Ivanyo, diretor do think tank conservador Republicans for National Renewal. Tyrmand ainda associou a teoria das fraudes nas eleições brasileiras com a narrativa sobre fraude nas eleições americanas de 2020: “Parece familiar..”, tuitou.

Sua organização também usou a rede para apoiar o presidente, desejando “boa sorte”. “Bolsonaro tem sido um líder fenomenal que se opôs destemidamente à agenda esquerdista”, tuitou o centro, com fotos de um encontro com Eduardo Bolsonaro.

Em entrevista à Pública, Ivanyo apontou Eduardo Bolsonaro como uma figura-chave na direita global e afirmou que já esteve com o deputado ao menos cinco vezes: “Eduardo Bolsonaro é o nosso principal parceiro [no Brasil]”, disse. “É o melhor e [é] a única pessoa que pode suceder o seu pai quando chegar a essa altura”, destacou.

Reprodução / Publicação de Tyrmand no Twitter afirma que é impossível Bolsonaro não ter ganho o primeiro turno

Tyrmand se engajou profundamente na campanha brasileira pelo Twitter, tendo postado ao menos nove vezes nos últimos sete dias. Ao longo do fim de semana, retuitou alguns dos principais influenciadores bolsonaristas, como Guilherme Fiuza, Paulo Figueiredo Filho e Allan dos Santos.

Ele retuitou desinformação dessas contas – por exemplo, um post de Fiuza afirmando que Marcola “defende o voto em Lula”, desinformação que foi retirada do ar a mando do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele também abordou o assunto e criticou Moraes no podcast de Bannon hoje.

Allan dos Santos, blogueiro que vive nos EUA fugido da justiça brasileira por ser investigado pelos atos antidemocráticos, tuitou nesta segunda-feira (3.out) uma imagem com os gráficos da contagem em inglês — e foi prontamente retuitado por Tyrmand.

Reprodução / Allan dos Santos também criticou a apuração dos votos

Em 25 de setembro, Tyrmand publicou um longo artigo no site de ultradireita Creative Destruction Media atacando o STF e Alexandre de Moraes, que chama de “o personagem podre da democracia brasileira”. E concluiu: “O Brasil precisa de toda a nossa ajuda – de conservadores, nacionalistas, populistas, soberanistas, vestefalianos, republicanos no sentido literal e até democratas no sentido clássico”, uma vez que o STF “está fora de controle”.

É exatamente esse o tipo de fake news que foi espalhada por esses mesmos círculos bolsonaristas durante as eleições de 2020 nos Estados Unidos — e que foram traduzidas para o Brasil por esses mesmos influenciadores bolsonaristas, como a Pública revelou.

A narrativa reflete ainda o discurso espalhado por candidatos bolsonaristas aqui no Brasil.

No sábado (1º.out), uma parceria entre a Pública, o Aos Fatos e o Núcleo Jornalismo revelou que políticos bolsonaristas buscaram convocar fiscais usando a falsa narrativa de risco de fraude. Os políticos diziam ser necessário formar um “exército de fiscais” para não “permitir que a esquerda volte ao poder no tapetão, no jogo sujo”.

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Informações comprovadamente falsas continuam circulando e obtendo público nas redes sociais: outra matéria feita em parceria pelos três veículos mostrou que uma live que alega que houve fraude nas eleições e mostra supostas “provas” ficou ao menos 15 horas no ar no Youtube.

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Antes mesmo da votação, nomes importantes da política estadunidense gravaram vídeos em apoio ao atual presidente – que circularam amplamente nas redes – como o próprio Donald Trump, seu filho, Donald Trump Jr. e o senador republicano do Texas, Ted Cruz. Os vídeos foram replicados nas redes sociais de Bolsonaro e seus filhos Eduardo e Flávio Bolsonaro.

O filho do ex-presidente americano diz que Bolsonaro “é a única pessoa que pode parar o avanço do comunismo e do socialismo na América do Sul”. Teve mais de 110 mil views no Twitter.

No vídeo compartilhado por Eduardo Bolsonaro no Twitter, Ted Cruz diz que Bolsonaro tem sido um “forte amigo” dos EUA. Ele faz um “alerta” ao povo brasileiro, afirmando que todos os países do continente que teriam decidido pelo “socialismo antiamericano” resultaram em pobreza e miséria. “Eu espero e rogo que o povo do Brasil opte pela liberdade”, falou o senador trumpista.

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O conteúdo legendado em português chegou a quase 11 mil curtidas e mais de 3 mil retuítes na conta de Eduardo, e ultrapassou 17 mil likes e 4 mil compartilhamentos no perfil de Filipe Martins, assessor especial da Presidência.

Eduardo também compartilhou as falas de Trump, seu filho e do congressista argentino Francisco Sánchez. “Eu apoio fortemente o presidente Bolsonaro, espero que ele seja seu líder por muito tempo”, disse o ex-presidente dos Estados Unidos. A fala de Trump foi postada pela conta de Jair Bolsonaro com legendas em português. O vídeo foi compartilhado 37,7 mil vezes e chegou a 223,9 mil curtidas.

Já Flávio tuitou ao menos seis vídeos de lideranças mundiais em apoio à candidatura de seu pai. O senador compartilhou mensagens do 1º ministro da Hungria, Viktor Orban; do presidente do partido de extrema-direita espanhol Vox, Santiago Abascal, do líder do partido Chega, André Ventura, da extrema direita portuguesa, do candidato derrotado no Chile, José Antonio Kast; do congressista argentino Javier Milei, e de Donald Trump Jr. Somados, os seis vídeos ultrapassaram 33 mil curtidas. A fala do filho do ex-presidente dos EUA foi a que mais repercutiu: foi responsável por 15,7 mil likes.

No Gettr, um dos links mais curtidos e compartilhados durante o final de semana das eleições foi um texto do site Gazeta Brasil que unia diversos vídeos e publicações de líderes da extrema-direita mundial que demonstraram apoio à chapa do PL. O conteúdo chegou a 493 curtidas e 61 compartilhamentos, de acordo com levantamento feito pelo Núcleo Jornalismo.

Reprodução / Nomes importantes da política estadunidense fizeram publicações em apoio ao atual presidente

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